terça-feira, 9 de dezembro de 2014

DITADURA MILITAR: algumas memórias


Reprodução

O golpe militar de 1º de abril de 1964 me pegou com menos de 15 anos. Fomos normalmente ao “ginásio” e vimos, ao longo da Raposo Tavares (rodovia estadual que liga São Paulo ao Centro-Oeste), um desfile de carros do exército brasileiro, que rumavam (os carros e os recos) para a divisa de São Paulo com o Paraná para buscar frear a “subida” das tropas legalistas, comandadas pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola.

Não havia nem tropa, nem Brizola tentou qualquer tipo de subida. O ato golpista já estava consumado, a partir das marchas das senhoras e da ida de tropas do exército de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.

1º de abril foi apenas o desfecho do golpe.

A memória mais vívida do 1º de abril foi dos soldados chorando de medo. Vários deles choravam copiosamente na carroceira dos caminhões do exército, e se não debandavam era por medo de serem alvejados pelas costas por algum oficial ou por um soldadinho cioso de mostrar serviço.

Eis um enigma: morrer como um covarde fujão ou morrer lutando contra os legalistas brizolistas?

Enfim, morrer é sempre morrer, então o melhor foi chorar.

Folga, oba!

Não tivemos aula, o que foi um alívio e uma festança. Nós, os meninos, sempre “solidários” com as meninas, viramos as costas ao golpe e a elas e fomos jogar bola. Numa boa!

Não posso dizer que o golpe militar de 64 foi uma surpresa. Em alguma medida já sabíamos que ele aconteceria, mais cedo ou mais tarde, tamanha era a movimentação que se via, há anos, contra o governo democraticamente eleito. Isso desde JK.

Não éramos tão desinformados, como parecem ser os jovens de hoje (tenho certeza disso!).

Afinal tínhamos o rádio, os jornais (que liamos cotidianamente, especialmente a Última Hora), os cinejornais (que chegavam com certa tardança); as conversar com os mais velhos (pais, parentes e amigos deles)... como sempre os ouvíamos... coisa que se perdeu com o tempo.

Havia uma mágica na época que era ouvir, antes de formar e emitir opiniões.

Em casa havia um rádio militar norte-americano (“da segunda guerra mundial”) de metal, onde tomei a maioria dos choques que tomei na vida.

Acompanhávamos a fome da África, a guerra do Vietnã, o assassinato dos irmãos Kennedy, a morte de Marilyn Monroe, o movimento hippie, a luta dos negros norte-americanos contra a opressão; as peripécias dos irmãos Villas Boas pelas sertãs brasileiras.

Perplexidade

Se o golpe de 1º de abril não trouxe surpresas, nem (pra falar bem a verdade) incômodos maiores, trouxe perplexidade: fechamento do Congresso, deposição de um presidente eleito democraticamente, perseguições aos “contras”.

Sabíamos que nossas liberdades estavam indo para o ralo da História.

O tempo passa, com ele vamos ficando mais velhos; a resistência aumenta e, em proporção cavalar e desmedida, aumenta a repressão: presos, torturados, mortos e desaparecidos.

Eis um resumo bem sucinto do que resultou a ditadura militar de 1964 a 1985.

Vimos e vi muita coisa no período – “amigos presos, amigos sumidos aqui”.

Dava para ficar olhando, de mão abanando?

Dava! Muita gente fez isso.

Se posso dividir os jovens da época, os divido em 4 categorias “de gente”.

- quem se envolveu diretamente nas escaramuças contra a ditadura militar (deu tiro e levou um bocado);

- quem buscou modos alternativos de participação anti-ditadura, optando por ações em grupos sociais humanitários (como foi o caso deste breve escriba);

- quem fazia de conta que era contra, embalado e encharcado por cervejas nos bares da cidades, mas, no dia seguinte, estava lá servilmente servindo ao sistema;

- quem apoiava discreta ou abertamente o sistema repressor.

Este quarto grupo era o maior de todos.

“Não se admire se um dia um beija-flor invadir a porta da tua casa” ... e disser que a maioria absoluta do “povo brasileiro” apoiava a ditadura militar e as suas atrocidades.

Não sou eu o beija-flor, mas é exatamente isso que estou dizendo.

Andanças

“Vim, tanta areia andei / Da lua cheia eu sei / Uma saudade imensa / Vagando em verso eu vim / Vestido de cetim / Na mão direita, rosas / Vou levar”.

Nas minhas andanças brasileiras acabei por ver um “cadinho” de coisas; fui detido uma vez por breves 5 horas e uma coisinha; ameaçado 6 ou 7 vezes de morte; expulso no mesmo dia de um mesmo lugar pela Polícia Federal; frequentei uma listinha de possíveis eliminados (cheguei a estar em quarto lugar); perdi amigos e conhecidos, dois deles até hoje desaparecidos.

Nada que se compare a quem teve a desdita de frequentar os porões da ditadura.

A “polícia” me parou uma pá de vezes, coisa superior a 100, sempre pedindo documento (duas vezes me pegou sem) e revistando as minhas “coisas”.

Vá lá que meu layout não ajudava muito: calça jeans surrada, sandalhão, bolsa a tiracolo, cabelo e barba compridos.

Vivo ou morto

Num momento dessa história, o Brasil estava coalhado de cartazes de esquerdistas procurados pela repressão do sistema.

Chocante!

Após “bater cabeça" pelo esporte, pela cultura e muito especialmente pelo Embu, e seus hippies, fui bater em terras sul-mato-grossenses, em aldeias indígenas, em acampamentos de sem-terra, em casebres de gente que iria ser desalojada pelos lagos das hidrelétricas da bacia do Paraná; bati perna ainda pelo sul cacaueiro da Bahia e pelos interiores da Amazônia.

Devo ter um bom anjo da guarda, ou o meu santo protetor, São Judas Tadeu, é bom de serviço.

Tô ainda vivo, para surpresa do meu amigo Ivan Pacca.

Não vi nada que não teria de ser visto; mas nem surpreendo com o susto que muita gente tem hoje com a revelação de dedos-duros famosos e de empresários que colaboraram e financiaram a repressão, muito especialmente a Operação Bandeirantes (a Oban).

Como disse acima, sabíamos o que estava acontecendo. Bem mais que o regime gostaria que soubéssemos, e muito mais que a maioria das pessoas sabe hoje em dia.

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