quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Desejos



Tradição

Havia uma vez uma cidade formada por duas ruas paralelas. Um dervixe passou de uma rua para a outra, e assim que a alcançou, as pessoas notaram que havia lágrimas nos olhos dele.

“Morreu alguém na outra rua!”, gritou um homem e logo as crianças da vizinhança fizeram coro a essa exclamação.

Mas o que acontecera fora algo muito diferente. O dervixe estivera descascando cebolas. Em poucos segundos o eco do grito já alcançara a primeira das duas ruas. E os adultos de ambas se preocuparam e ficaram tão assustados que não se animaram a investigar devidamente as causas daquela agitação. Um homem sensato e sábio tentou chamar à razão as pessoas das duas ruas, indagando-lhes por que não se comunicavam para apurar o acontecido. Muito confusos para apreender o sentido daquelas palavras, alguns disseram:

“Pelo que entendemos há uma epidemia muito séria na outra rua.”

Esse boato também se propagou como um incêndio incontrolável, levando a população daquela rua a pensar que a outra estava destinada a morrer.

Quando foi possível restabelecer certa ordem, ambas as comunidades só pensaram numa saída: emigrarem para salvar-se. E foi assim que, de repente, as duas ruas ficaram vazias de seus habitantes.

Ainda hoje, vários séculos passados, a cidade permanece deserta, e não muito distante dali há duas aldeias. Cada uma possui sua própria tradição, sendo que ambas estabeleceram a partir de um povoado construído por pessoas fugidas de uma cidade condenada por um mal desconhecido, em tempos remotos.
(Conto sufi)
  
Ilha
 
Certa vez um homem muito rico, de natureza boa e generosa, queria que o seu escravo fosse feliz. Para isso lhe deu a liberdade e um navio carregado de mercadorias.

“Agora você está livre. disse o homem. Vá e venda esses produtos em diversos países e tudo o que conseguir por eles será seu.”
O escravo liberto embarcou no navio e viajou através do imenso oceano. Não havia viajado muito tempo quando caiu uma tempestade. O barco foi arremessado violentamente contra os rochedos e se fez em pedaços. Tudo o que havia a bordo se perdeu.

Somente o ex-escravo conseguiu se salvar, porque, a nado, pôde alcançar a praia de uma ilha próxima.

Triste, abatido e só, nu e sem nada, o ex-escravo caminhou até chegar a uma cidade grande e bonita. Muita gente se aproximou para recebê-lo, gritando: “Bem-vindo! Bem-vindo! Longa vida ao rei!”

Trouxeram uma rica carruagem, onde o colocaram e escoltaram-no até um magnífico palácio.
Lá muitos servos se reuniram ao seu redor, vestiram-no com roupas reais e todos se dirigiam a ele como soberano, em total obediência à sua vontade.

O ex-escravo, naturalmente, ficou feliz e, ao mesmo tempo, confuso. Ele desejava saber se estava sonhando ou se tudo o que via, ouvia ou experimentava não passava de uma fantasia passageira.

Convenceu-se, finalmente, de que o que estava acontecendo era real. E perguntou a algumas pessoas que o rodeavam, de quem gostava, como havia chegado àquela situação.
“Afinal, disse. Sou um homem de quem vocês nada conhecem, um pobre e despido vagabundo que nunca viram antes. Como podem transformar-me em seu governante? Isto me causa muito mais espanto do que possa dizê-lo.”

“Senhor, responderam. Esta ilha é habitada por espíritos. Há muito tempo eles rezaram para que lhes fosse enviado um filho do homem para governá-los, e suas preces foram ouvidas. Todos os anos é enviado um filho do homem. Eles o recebem com grande dignidade e o colocam no trono. Porém seu 'status' e seu poder acabam quando se completa o ano. Então lhe tiram as vestes reais e o põe a bordo de um barco que o leva para uma grande ilha deserta. Lá, a não ser que antes tenha sido sábio e tenha se preparado para esse dia, não encontra amigos, não encontra nada: vê-se obrigado a passar uma vida aborrecida, solitária e miserável. Elege-se então um novo rei, e assim acontece ano após ano. Os reis que o antecederam foram descuidados e não pensaram. Desfrutaram plenamente do seu poder, esquecendo- se do dia em que tudo acabaria.

Essas pessoas aconselharam ao ex-escravo a ser sábio e permitir que suas palavras permanecessem dentro do seu coração.

O novo rei ouviu tudo atentamente, e lamentou ter perdido o pouco tempo que havia passado desde que chegara à ilha. Pediu ao homem de conhecimento que havia falado: “Aconselhe-me, ó Espírito da Sabedoria, como devo preparar-me para os dias que chegarão no futuro”.

“Nu você chegou até nós, disse o homem, e nu será enviado à ilha deserta da qual lhe falei. Agora você é rei e pode fazer o que quiser. Por isso mande trabalhadores à ilha e permita-lhes que construam casas, preparem a terra e tornem belas as redondezas. Os terrenos áridos devem ser transformados em campos frutíferos. As pessoas deverão ir viver lá e você estabelecerá um reino para si mesmo. Seus próprios súditos estarão esperando quando você chegar para dar-lhe as boas-vindas. O ano é curto, o trabalho é longo: seja diligente e enérgico.”

O rei seguiu o conselho. Mandou trabalhadores e materiais para a ilha deserta, e antes de findar a vigência de seu poder a ilha se transformou num lugar fértil, aprazível e atraente.

Os governantes que o tinham precedido haviam antecipado o fim de seu tempo com medo, ou afastavam este pensamento se divertindo. Ele, porém, o aguardava com alegria, uma vez que então poderia começar sobre uma base de paz permanente e felicidade.

O dia chegou. O escravo liberto que tinha sido feito rei foi despojado de sua autoridade.

Ao perder seus trajes reais, perdeu também seus poderes.

Nu, foi colocado num barco, e as velas inflaram em direção à ilha, porém quando se aproximou da praia as pessoas que tinham sido enviadas antes para lá vieram para recebê-lo com música, canções e muita alegria. Fizeram- no seu governante, e ele viveu em paz.
(Conto sufi)

 Imperador

O imperador Mahmud El-Ghazna passeava um dia com o sábio Ahmad Mussain, que tinha reputação de ler pensamentos.

O imperador, há algum tempo, vinha tentando que o sábio fizesse diante dele uma demonstração de sua capacidade.

Como Ahmad se recusava a fazer a sua vontade, Mahmud havia decidido recorrer a um ardil para que o sábio, sem o perceber, exercesse seus extraordinários dotes na sua presença.

“Ahmad!”, chamou o imperador.

“Que desejas, senhor?”
“Qual é o ofício do homem que está perto de nós?”

“É um carpinteiro.”

“Como se chama?”

“Ahmad, como eu.”

“Será que comeu alguma coisa doce recentemente?”

“Sim, comeu.”

Chamaram o homem e ele confirmou tudo o que o sábio havia dito.

“Tu, disse o imperador, te recusaste a fazer uma demonstração dos teus poderes na minha presença. Percebeste que te forcei, sem que o notasses, a demonstrar tua capacidade, e que o povo te transformaria num santo se eu contasse em público as revelações que me fizeste? Como é possível que continues ocultando a tua condição de sufi e pretendas passar por um homem qualquer?”

“Admito que posso ler pensamentos, concordou Ahmad; mas o povo não percebe quando faço isso. Minha dignidade e meu amor-próprio não me permitem exercer esse dom com propósitos frívolos. Por isso meu segredo continua ignorado.”

“Mas admites que agora mesmo acabas de usar teus poderes?”

“Não, absolutamente não.”

“Então como pudeste responder minhas perguntas corretamente?”

“Facilmente, senhor. Quando me chamaste, esse homem virou a cabeça, o que me indicou que seu nome era igual ao meu. Deduzi que era carpinteiro porque, neste bosque, só dirigia o olhar para árvores aproveitáveis. E sei que acabara de comer alguma coisa doce, porque vi que estava espantando as abelhas que procuravam pousar nos seus lábios. Lógica, meu Senhor. Nada de dons ocultos ou especiais.”
(Conto sufi)

Nasrudin

Mulla Nasrudin (Khawajah Nasr Al-Din) viveu no século XIV. Contou e escreveu histórias onde ele próprio era personagem. São histórias que atravessaram fronteiras desde sua época, enraizando-se em várias culturas. Elas compõem um imenso conjunto que integra a chamada Tradição Sufi, ou o Sufismo, seita religiosa de antiga tradição persa e que se espalha pelo mundo até hoje.
(Conto sufi)

Barco

Nasrudim às vezes levava as pessoas para viajar em seu barco.

Um dia, um pedagogo exigente contratou-o para transportá-lo ao outro lado de um rio muito largo. Assim que se lançaram à água, o sábio perguntou-lhe se faria mau tempo: “não me pergunte nada sobre isto”, disse Nasrudim.

“Você nunca estudou gramática?”

“Não!”

“Neste caso, metade de sua vida foi desperdiçada."

O Mulla não disse nada. Logo desabou uma terrível tempestade. O pequeno e desorientado barco de Mulla começou a encher de água. Ele se inclinou para o companheiro.

“Alguma vez você aprendeu a nadar?”

“Não!”, respondeu o pedante.

“Neste caso, caro mestre, toda sua vida foi desperdiçada, pois estamos afundando.”
(Conto sufi)

Desejos

A festa reuniu todos os discípulos de Nasrudin. Comeram e beberam durante muitas horas, sempre a conversar sobre a origem das estrelas e dos propósitos da vida. Quando já era quase de madrugada, preparavam-se todos para voltar para as suas casas. Restava um belo prato de doces sobre a mesa. Nasrudin obrigou os seus discípulos a comê-lo.

Um deles, porém, recusou: “o mestre está-nos a testar. Quer ver se conseguimos controlar os nossos desejos. “

“Estás enganado. A melhor maneira de dominar um desejo é vê-lo satisfeito. Prefiro que vocês fiquem com o doce no estômago do que no pensamento, que deve ser usado para coisas mais nobres.”
(Conto sufi)

Ovo

Certa manhã, Nasrudin colocou um ovo embrulhado num lenço, foi para o meio da praça da sua cidade e chamou aqueles que estavam ali.

“Hoje vamos ter um importante concurso! A quem descobrir o que está embrulhado neste lenço eu dou de presente o ovo que está dentro!”

As pessoas se olharam, intrigadas, e responderam: “como podemos saber? Ninguém aqui é capaz de fazer esse tipo de previsões!”

Nasrudin insistiu: “O que está neste lenço tem um centro que é amarelo como uma gema, cercado de um líquido da cor da clara, que por sua vez está contido dentro de uma casca que se parte facilmente. É um símbolo de fertilidade, e lembra-nos dos pássaros que voam para seus ninhos. Então, quem é que me pode dizer o que está aqui escondido?”

Todos os habitantes pensavam que Nasrudin tinha nas suas mãos um ovo, mas a resposta era tão óbvia, que ninguém resolveu passar vergonha diante dos outros.

E se não fosse um ovo, mas algo muito importante, produto da fértil imaginação mística dos sufis? Um centro amarelo podia significar algo do sol, o líquido em seu redor talvez fosse um preparado alquímico. Não, aquele louco estava a querer fazer alguém passar por ridículo.

Nasrudin perguntou mais duas vezes, e ninguém respondeu.
(Com sufi)

Casamento 
 
Nasrudin estava proseando com um conhecido , que lhe indagou: “ Mullah, responda-me, você nunca pensou em se casar?”

“Sim, claro que já. Quando eu era jovem, determinei-me a achar o meu par perfeito. Cruzei o deserto, cheguei em Damasco, e conheci uma mulher belíssima  e espiritualmente muito evoluída; mas as coisas triviais, do dia a dia, a atrapalhavam. Mudei de rumo e lá estava eu, em Isfahan; ali pude conhecer uma mulher com dom para as coisas materiais, da vida caseira, e além disso se mostrou muito espiritualizada. Porém, carecia de beleza física. Pensei: o que fazer? E resolvi ir ao Cairo. Lá cheguei e logo fui apresentado a uma linda jovem, que também era religiosa, boa cozinheira e conhecedora dos afazeres do lar. Ali estava a minha mulher ideal.            

Entretanto você não se casou com ela. Por quê?”

“Ah, meu prezado amigo, ela também estava buscando o homem ideal.”
(Com sufi)

Contrabandista
 
Volta e meia, Nasrudin atravessava a fronteira entre a Pérsia e a Grécia montado no lombo de um burro. Toda vez passava com dois cestos cheios de palha e voltava sem eles, arrastando-se a pé. Toda vez o guarda procurava por contrabando. Nunca o encontrou.
“O que é que você transporta, Nasrudin?”

“Sou contrabandista."

Anos mais tarde, com uma aparência cada vez mais próspera, Nasrudin mudou-se para o Egito. Lá encontrou um daqueles guardas de fronteira.

“Diga-me, Mullá, agora que você está fora da jurisdição grega e persa, instalado por aqui nesta vida boa: o que é que você contrabandeava, que nunca conseguimos pegar?”

“Burros.”
(Conto sufi)

Felicidade

Nasrudin encontrou um homem desconsolado sentado à beira do caminho e perguntou-lhe os motivos de tanta aflição: “ Não há nada na vida que interesse, irmão. Tenho dinheiro suficiente para não precisar trabalhar e estou nesta viagem só para procurar algo mais interessante do que a vida que levo em casa. Até agora, eu nada encontrei.”

Sem mais palavra, Nasrudin arrancou-lhe a mochila e fugiu com ela estrada abaixo, correndo feito uma lebre. Como conhecia a região, foi capaz de tomar uma boa distância.

A estrada fazia uma curva e Nasrudin foi cortando o caminho por vários atalhos, até que retornou à mesma estrada, muito à frente do homem que havia roubado. Colocou a mochila bem do lado da estrada e escondeu-se à espera do outro. Logo apareceu o miserável viajante, caminhando pela estrada tortuosa, mais infeliz do que nunca pela perda da mochila. Assim que viu sua propriedade bem ali, à mão, correu para pegá-la, dando gritos de alegria.
“Essa é uma maneira de se produzir felicidade”,  disse Nasrudin.
(Conto sufi)

Conversa

Nasrudin, certa vez, estava sem um burrico que o ajudasse em seus afazeres.
Desesperado, sem ter meios de encontrar um, começou a orar, pedindo a Deus que lhe enviasse um burrico.

Rezou por algum tempo e, certo dia, ao andar por uma estrada, deparou-se com um homem montado num burrico e atrás levava um outro burrico mais jovem.

Nasrudin aproximou-se do homem e este lhe disse: “mas que vergonha, eu estou trazendo um burrico de tão longe, estamos todos esgotados, e aqui está este homem descansado, sem fazer nada!”

E ameaçando-o com uma espada, completou: “vamos! Coloque o burrico nas suas costas e venha comigo até a próxima cidade!”

Nasrudin, com medo não disse nada, simplesmente colocou o burrico em suas costas e seguiu o homem. Andaram por várias horas e Nasrudin estava exausto de tanto peso.

Ao entardecer, chegaram na cidade mais próxima e o homem simplesmente fez Nasrudin descer o burrico das suas costas e seguiu adiante, sem sequer agradecer.

Nasrudin ergueu os seus olhos para o céu e disse: “está bem, Deus. Aprendi a minha lição. Na próxima vez serei mais específico... “
(Conto sufi)

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Nasrudin postou-se na praça do mercado e dirigiu-se à multidão: “ó povo deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício?”

Logo juntou um grande número de pessoas, com todo mundo gritando: “queremos! queremos!”

“Excelente! Era só para saber. Podem confiar em mim, que lhes contarei tudo a respeito, caso algum dia descubra algo assim.”
(Conto sufi)

Luz
 
Alguém viu Nasrudin procurando alguma coisa no chão.

"O que é que você perdeu, Mullá?", perguntou-lhe.

"Minha chave", respondeu o Mullá.

Então, os dois se ajoelharam para procurá-la. Um pouco depois, o sujeito perguntou: "onde foi exatamente que você perdeu esta chave?"

"Na minha casa."

"Então por que você está procurando por aqui?"

"Porque aqui tem mais luz."
(Conto sufi)

Visita

O célebre e contraditório personagem sufi Mulla Nasrudin visitou a Índia.

Chegou a Calcutá e começou a passear por uma de suas movimentadas ruas.

De repente viu um homem que estava vendendo o que Nasrudin acreditou que eram doces, ainda que na realidade fossem chiles apimentados.

Nasrudin era muito guloso e comprou uma grande quantidade dos supostos doces, dispondo-se a dar-se um grande banquete. Estava muito contente, se sentou em um parque e começou a comer chiles às dentadas.

Logo que mordeu o primeiro dos chiles sentiu fogo no paladar. Eram tão apimentados aqueles "doces" que ficou com a ponta do nariz vermelha e começou a soltar lágrimas até os pés.

Não obstante, Nasrudin continuava levando os chiles à boca sem parar. Espirrava, chorava, fazia caretas de mal estar, mas seguia devorando os chiles. Assombrado, um passante se aproximou e disse-lhe:

“Amigo, não sabe que os chiles só se comem em pequenas quantidades?”

Quase sem poder falar, Nasrudin comentou: “bom homem, creia-me, eu pensava que estava comprando doces. “

Mas Nasrudin seguia comendo chiles e o passante disse: “bom, está bem, mas agora já sabes que não são doces. Por que segues comendo-os? “

Entre tosses e soluços, Nasrudin disse: “Já que investi neles meu dinheiro, não vou jogá-los fora. “
(Conto sufi)

Sermão
 
Certo dia, os moradores do vilarejo quiseram pregar uma peça em Nasrudin. Já que era considerado uma espécie meio indefinível de homem santo, pediram-lhe para fazer um sermão na mesquita.

Ele concordou.

Chegado o tal dia, Nasrudin subiu ao púlpito e falou: “ó fiéis! Sabem o que vou lhes dizer?”

“Não, não sabemos””

“Enquanto não saibam, não poderei falar nada. Gente muito ignorante, isso é o que vocês são. Assim não dá para começarmos o que quer que seja”,  disse o Mulla, profundamente indignado por aquele povo ignorante fazê-lo perder seu tempo.

Desceu do púlpito e foi para casa. Um tanto vexados, seguiram em comissão para, mais uma vez, pedir a Nasrudin fazer um sermão na sexta-feira seguinte, dia de oração.

Nasrudin começou a pregação com a mesma pergunta de antes. Desta vez, a congregação respondeu numa única voz: “Sim, sabemos!”

“Neste caso não há porque prendê-los aqui por mais tempo. Podem ir embora”, e voltou para casa.

Por fim, conseguiram persuadi-lo a realizar o sermão da sexta-feira seguinte, que começou com a mesma pergunta de antes: “sabem ou não sabem?”

A congregação estava preparada.

“Alguns sabem, outros não.”

“Excelente , disse Nasrudin. Então, aqueles que sabem transmitam seus conhecimento para àqueles que não sabem”, e foi para casa.
(Conto sufi)

Verdade

"Estas leis não tornam melhores as pessoas", disse Nasrudin ao rei. "Elas devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente."

O rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade e o faria.

Ele poderia fazê-las praticar a autenticidade.

O acesso a sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o rei ordenou que fosse construída uma forca.

Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o capitão da guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos os que ali entrassem.

Um édito foi proclamado: "todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado."

Nasrudin deu um passo à frente.
"Aonde vai?", perguntou o capitão.

"Estou a caminho da forca", respondeu Nasrudin calmamente.

"Não acreditamos em você!"

"Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me!"

"Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!"

"Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!"
(Conto sufi)

Sábio
 
Todos os dias o Mullah Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque: mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra.

Nasrudin sempre escolhia a menor.

A história correu pelo condado.

Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor.

Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o a um canto da praça, disse: “sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro e não será considerado idiota pelos outros.”

“O senhor parece ter razão, mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque. Não há nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente. Às vezes, é de muita sabedoria se passar por tolo e é muito melhor passar por tolo e ser inteligente do que ter inteligência e usar fazendo tolices.”

"Os sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem!"
(Conto sufi)

Varal
 
Um vizinho bateu à porta do Nasrudin e pediu: “ Nasrudin, você me empresta o varal de secar roupa que o de lá de casa se quebrou?”

“Um momento. Vou perguntar à minha mulher.”

Momentos depois Nasrudin voltou e disse para o vizinho: “desculpe vizinho, mas não vou poder emprestar o varal pois minha mulher está secando farinha nele.”

O vizinho, surpreso, exclamou: “mas Nasrudin, secando farinha no varal??!!”

E Nasrudin respondeu: “É... quando não se quer emprestar o varal, até farinha se seca nele...”
(Conto sufi)

Olho
 
Um camponês aproximou-se de Nasrudin e queixando-se de que seu olho doía, pediu-lhe um conselho.
Então Hodja disse-lhe: “outro dia meu molar doía, e não me acalmei enquanto não o arranquei.”
(Conto sufi)

Conselhos

Nasrudin começou a construir uma casa. Seus amigos, que tinham cada um sua própria casa, e eram carpinteiros, pedreiros, o rodearam de conselhos.

Mulla estava radiante.

Um após outro, e às vezes todos juntos, disseram-lhe o que fazer.

Nasrudin seguia docilmente as instruções que cada um lhe dava.

Quando a construção terminou, ela não se parecia em nada com uma casa.

“Que curioso!, disse Nasrudin. E contudo eu fiz exatamente aquilo que cada um de vocês me tinha dito para fazer!
(Conto sufi)

Doente

Nasrudin, sentado na sala de espera do consultório médico, repetia em voz alta: "espero que eu esteja muito doente", o que intrigava os outros pacientes.

Quando o médico apareceu, Nasrudin repetia quase gritando: "espero que eu esteja muito doente".

"Por que você diz isso?", perguntou o médico.

"Detestaria pensar em alguém que se sinta tão mal como eu não tenha nada!".
(Conto sufi)

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