segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

As atrocidades da ditadura militar ainda não foram vencidas


Crédito da foto: cntt.org.br – Wladimir Herzog

Quando Vladimir Herzog morreu nas dependências do Doi-Codi, em São Paulo, em 1975, parte da comunidade judaica brasileira previa que ele fosse sepultado longe dos demais túmulos.

“Os suicidas são sempre enterrados à parte, afastados de todos os túmulos, geralmente próximo a um dos muros do cemitério” (http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=255:enterro-judeu-&catid=40:letra-e&Itemid=184).

Afinal, a ditadura militar (1964-1985) garantia que o jornalista havia cometido suicídio, e não fora assassinado pelos seus algozes, como todos sabemos que foi.

A insistência e a coragem de Henry Isaac Sobel, rabino norte-americano (nascido em Lisboa, Portugal), que viveu por mais 40 anos no Brasil, onde foi presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista (CIP), garantiu a Herzog um sepultamento digno da tradição judaica.

Crédito da foto: conic.org.br – Frei Tito
O frei dominicano Tito de Alencar Lima foi preso em 1969, em São Paulo, por agentes da Operação Bandeirantes (Oban) e nas masmorras da ditadura sofreu toda sorte de torturas e humilhações, quase todas elas comandadas pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Já morador em França, frei Tito foi encontrado morto, em 1974, em Lyon.

O frei estava pendurado em uma corda, dentro de sua residência. E a hipótese mais aceita é que tenha cometido suicídio, embora pairem muitas dúvidas a respeito do fato.

Aconteça o que tenha acontecido, frei Tito recebeu todas as homenagens e cerimônias devidas a um bom cristão, o que, aliás, é justíssimo, dado que foi vítima da mais sangrenta ditadura militar brasileira, ditadura pela qual muita gente ainda vai à rua para pedi-la de volta.

Tortura

Crédito da foto: www.jornalopcao.com.br – Sérgio Paranhos Fleury
Em “Vila do Sossego” , o compositor e cantor paraibano, Zé Ramalho, canta que “Que nas torturas toda carne se trai”.

É preciso estender esse conceito, até porque tortura pode ser provocada por muita coisa: a perda de um familiar ou de “um grande amor”; uma falência e por aí vai.

Relatos fidedignos, e muitos dos próprios torturados, indicam que muita gente “abriu o bico” nos porões da ditadura.

Mas quem não há de?

CNV

Crédito da foto: www.palkiewicz.com – ianomâmi
Na próxima quarta-feira (10 de dezembro), Dia Mundial dos Direitos Humanos, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) “entrega, após dois anos e sete meses de apurações, o relatório final aos três poderes da República”, relatório este que “será publicado no site da CNV no mesmo dia para acesso público” (veja a informação completa em http://www.ebc.com.br/cidadania/2014/12/comissao-nacional-da-verdade-entrega-relatorio-final-na-quarta-10).

O Brasil está em débito com os torturados, os mortos e os desaparecidos; em débito com os seus familiares e amigos; enfim, em débito com todos nós brasileiros que tenhamos ou não passado por aqueles anos tenebrosos.

Estamos atrasados com relação a todos os outros países latino-americanos, e atrasados com relação à boa parte dos países do mundo.

Não se vai poder dizer que a CNV fez um ótimo trabalho, até porque não fez.

Mas há que se explicar, igualmente, em defesa da CNV, que a Comissão foi boicotada, achincalhada e inibida durante todo esse processo.

Há que se dizer, porém, que graça aos trabalhos da CNV está se podendo incluir no rol dos torturados, mortos e desaparecidos, os índios e os quilombolas, que foram tão vítimas quanto os militantes de esquerda, que confrontavam de peito aberto a ditadura militar.

Com uma grande diferença: o número de índios e quilombolas torturados, mortos e desaparecidos provavelmente some a mais de 20 mil pessoas.

20 mil pessoas até recentemente invisíveis.

Estamos ainda tentando, com imensas dificuldades, escrever a história recente de nosso País. E há quem veja um mal nisso.

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