domingo, 16 de novembro de 2014

A tradição védica e o problema do eu e da consciência



Devamrita Swami

Se os profetas védicos antigos pudessem viajar do passado para o nosso tempo, certamente gostariam de saber: “Onde, na civilização de vocês, está o conhecimento abrangente e amplo da parte – o eu individual – e do Todo que tudo encerra e ao qual pertence a parte?”.

O pacto antigo está em pedaços: o homem, por fim, sabe que está sozinho na imensidão desapiedada do universo, do que ele surgiu unicamente por acaso. Nem seu destino nem seu dever foram escritos. (1)

Um começo áspero para nosso começo de discussão sobre a identidade védica, mas o que faz essa famosa declaração do nobel francês Jacques Monod é enfatizar a radical diferença entre a ciência ocidental e o conhecimento experimental dos antigos sábios védicos. Certamente, nem todos no mundo moderno engolirão a avaliação deprimente do biólogo molecular Monod. Contudo, poucos negarão que a esterilidade que ele e seus seguidores celebram levou incontáveis milhões de humanos ao desespero, apesar do desenvolvimento tecnológico.

“Para onde foi o eu?” é a pergunta óbvia que um intelectual védico, transportado do passado, faria ao rever o conhecimento atual e o gosto desenvolvido pela humanidade. “Para que as pessoas vivem?”, indagaria horrorizado.

“Esqueça isso”, responderíamos empurrando o velho sábio para o lado. “Você alguma vez viu tamanha explosão econômica e mulheres tão sensuais? Consiga um emprego de verdade e talvez reduzamos nossa velocidade um pouco para ouvir você, mas nunca houve uma cultura tão prática, inovadora e livre”.

Quer antigos, quer contemporâneos, os humanos esperam que a sociedade auxilie os indivíduos na busca pela subsistência e pela felicidade. A sociedade, que consiste em pessoas com desejos e necessidades, deve supostamente satisfazer os desejos e as necessidades de seus membros. Todos nós concordamos com isso. Porém, parece evidente que, a fim de satisfazer as pessoas, a sociedade tem que abordar o conhecimento do eu. Esse é o imperativo védico que exploraremos.

Qualquer tentativa de satisfazer o eu que não se baseie em um conhecimento acertado do eu certamente falhará, os Vedas afirmam. Com efeito, não parece que teremos apenas poucos problemas na tentativa de nos satisfazermos se não soubermos claramente quem somos. Se o indivíduo é o bloco fundamental da sociedade, parece uma consequência natural que, sem um entendimento apropriado do eu, todas as tentativas de organizar e manter a sociedade errarão o alvo.

C. G. Jung, o psicólogo suíço que deu início à escola analítica de psicologia, teve muito a dizer sobre o vazio interior da sociedade ocidental. Bastante populares na atualidade, seus pensamentos sobre análise de sonhos e do que ele chamou de “inconsciente coletivo” contribuem fortemente para o atual boom do que é conhecido como “espiritualidade contemporânea” e “curas alternativas”.

A sociedade, Jung defendeu, é apenas a soma total de indivíduos que necessitam de purificação. A antiga visão védica compartilha dessa perspectiva preliminar bem declarada sobre o eu e a sociedade. Contudo, os Vedas vão muito mais além e delineiam com precisão a natureza do eu – águas inexploradas pelas religiões e pelas ciências ocidentais.

Em um famoso comentário a um jornal de Chicago, Jung revelou: “Entre todos os meus pacientes na segunda metade da vida, todos eles adoeceram porque perderam o que as religiões vivas de todas as épocas deram a seus seguidores, e nenhum deles foi realmente curado se não recobrou sua perspectiva religiosa”.

Uma assistente social, Ruth Topping, ficou curiosa em relação ao que ele queria dizer por “perspectiva religiosa”. “O senhor se referia ao padrão usual judaico-cristão de piedade?”, ela o indagou. Dr. Jung, em uma carta enviada de Zurique, respondeu:

Quando você estuda a história mental do mundo, você vê que povos, desde tempos imemoriais, tinham um ensinamento geral ou uma doutrina sobre a totalidade do mundo. Esse foi o caso nas tribos primitivas bem como nas civilizações altamente destacadas. Em nossa civilização, esse fundo espiritual se perdeu. Nossa doutrina cristã perdeu sua ligação com isso em uma dimensão espantosamente grande, sobretudo porque as pessoas não a compreendem mais.

Dado que essas visões lidam com o mundo como um todo, criam também um todo para o indivíduo. As pessoas não estão mais ligadas ao mundo, diante do que perdem sua orientação e simplesmente flutuam à mercê das correntes. O problema não pode ser solucionado por alguns slogans.(2)

Podemos ver que, por um lado, os homens modernos foram ritualisticamente borrifados pelos chavões simples dos sistemas religiosos semíticos. O judaísmo, o cristianismo e o islamismo, em suas versões convencionais, embora forneçam informações insuficientes sobre o conhecimento analítico do eu, apresentam-nos efetivamente a conceitos morais básicos. Por outro lado, somos acometidos pelo fogo de barragem dos cientistas astros, como Monod, que tentam nos ensinar musiquinhas infantis que dizem sermos matéria sem sentido, conduzidos pelo acaso no vazio do vasto cosmos. (3)

Embora tenha apontado com precisão o dilema ocidental, Jung não apresentou nenhum conhecimento definitivo do eu ou do Todo. Em razão de sua deficiência, bem como das falhas dos religiosos, ecologistas, doutores e cientistas ocidentais, nosso sábio védico transportado se perguntaria como alguém poderia, em algum momento, tornar-se holístico, apesar da enorme popularidade dessa palavra. Se os profetas védicos antigos pudessem viajar do passado para o nosso tempo, certamente gostariam de saber: “Onde, na civilização de vocês, está o conhecimento abrangente e amplo da parte – o eu individual – e do Todo que tudo encerra e ao qual pertence a parte?”.

Consciência, o Elo Perdido

O restabelecimento do antigo pacto tem que começar com o entendimento da consciência. O mistério do eu consciente, seguido talvez do enigma da origem cósmica, fica além dos limites das atuais capacidades intelectuais. Embora a busca por conhecer a consciência intimide o cérebro de nossos melhores pesquisadores e teóricos, os textos védicos parecem medrar o desafio. Por conseguinte, o segredo do eu consciente é um tópico bastante conveniente para começarmos nossa investigação acerca da antiguidade védica.

Como podem os textos antigos, poderíamos perguntar, lidar com um tópico tão avançado? Na verdade, quando nos colocamos acima de nossos preconceitos, o ponto que provavelmente teria de ser questionado é como a civilização moderna, por tanto tempo, não lidou com a consciência.

Nada em nossa vida nos provê uma experiência direta maior do que nossa própria consciência. Não obstante, apesar de sua suprema familiaridade, é também o maior dos mistérios modernos. Seguramente, então, é um barômetro apropriado para aferir a força intelectual dos Vedas. A fim de termos um vislumbre da consciência e de sua relação com a identidade, como os Vedas apresentam, podemos tentar quatro experimentos simples e muito breves, todos baseados no método védico de análise pessoal.

Experimento 1: Pare por um momento e sinta de dentro cada parte de seu corpo. Que membros e sentidos são esses?

Dizemos sem hesitação: “Esta é minha mão abrindo, este é o meu nariz cheirando, meu estômago roncando”. Ninguém diz em português, inglês, alemão ou russo: “Eu mão, eu nariz, eu estômago”. O pressuposto óbvio, tanto em nossa língua quanto em nossa experiência diária, é que algo misterioso se promove proprietário dos vários membros, sentidos e órgãos. Tudo é “meu”, mas onde eu estou?

Enquanto “isso” está de fato registrando os direitos do “usuário” sobre o organismo e suas partes, todo o corpo passa por constantes mudanças. Aquilo a que casualmente nos referimos como crescimento e envelhecimento, os Vedas conhecem como “mudanças corpóreas”.

Os cientistas apresentam uma estimativa de que cerca de 60 trilhões de células compõem o corpo humano. Malgrado isso, embora todo tipo de célula seja substituída periodicamente, nossa identidade básica e íntima permanece a mesma. A educação védica começa com esta observação: algo não muda a despeito de o corpo mudar.

Experimento 2: Tente olhar “dentro de si”. Serenamente se esforce por sentir a raiz mais fundamental do “eu” pessoal, o núcleo subjacente de sua experiência subjetiva. Qual é o âmago dessa “eu-idade”? Tente descobrir.

Você talvez diga que quando você “olha para dentro”, quando você assume uma postura introspectiva, tudo o que você “vê” são vários estados psicológicos. Esses estados mentais é o eu, você talvez pense. Contudo, o que está olhando? Assim como há o inegável senso de um observador diferente do corpo físico, há também um observador do conteúdo psicológico. “Meus humores, minhas fantasias, meus pensamentos”, nós falamos. Em outras palavras, aquilo que testemunha é sempre diferente daquilo que é testemunhado. Você não pode colocar suas mãos na testemunha de nossas emoções e dos fenômenos mentais, e você não pode vê-la, mas está lá como quem experimenta e como quem percebe.

Conhecemos a testemunha sendo-a. Não a podemos conhecer “afastando-nos” para observá-la, porque ela sempre “afasta-se” conosco para olharmos para algo. Podemos reforçar nosso pequeno experimento removendo mentalmente as camadas induzidas social e individualmente e que encobrem essa raiz de nossa subjetividade. No fundo do que pensamos ser a nossa identidade, encontraremos o inescapável fator que negligenciamos em todo testemunhar nosso: a qualidade de estar cônscio.

Experimento 3: Você sabe como é se deitar para dormir em um quarto completamente escuro. Tente isso hoje à noite. Você não consegue ver nada com seus olhos. Todavia, sua consciência, sua percepção, continua presente. Ela testemunha uma infindável parada com os conteúdos da mente – pensamentos, memórias, desejos e fantasias aparecem e desaparecem. Embora os objetos da consciência estejam sempre entrando e saindo, a base da consciência em si permanece.

Experimento 4: Em seguida, enquanto deitado em completa escuridão, tente “saltar para fora” de sua consciência para estudá-la a partir de um “ponto externo privilegiado”. Obviamente, você não pode saltar para fora de sua própria consciência, porque a consciência é quem experiência até mesmo as tentativas de compreendê-la. Sem sua consciência, não existe experiência de existência.

“O Sol, sozinho, ilumina tudo. Da mesma forma, a entidade viva, embora apenas uma dentro do corpo, ilumina todo o corpo através da consciência”. (Bhagavad-gita 13.34)

Toda ciência do que nos cerca e de nós mesmos se deve ao fato de possuirmos consciência. Embora a consciência seja tão essencial para nossa existência, ela ainda é, para os ocidentais, um mistério imediato e derradeiro. Os pensadores modernos têm grande dificuldade em simplesmente formar um conceito de consciência. Na verdade, os próprios cientistas admitem que, até recentemente, aqueles que queriam pesquisar sobre a consciência tinham que disfarçar seu trabalho de modo que não perdessem respeito acadêmico e, consequentemente, patrocínio.

Os antigos sábios védicos indubitavelmente concordariam com o óbvio: não podemos ter em conta o cosmos sem ter em conta quem tem em conta. Quinze séculos atrás, Agostinho, um dos Pais da Igreja Católica, expressou: “Aquilo pelo que estamos buscando é aquilo com o que estamos buscando”. Os cientistas modernos não foram capazes de ir em seu resgate. Possivelmente porque a consciência é o que existe de mais íntimo em nossa vida, “previamente embalada” em nosso próprio pensar e agir, muitos cientistas ainda acham muito difícil reconhecer a realidade da consciência. O sábio alemão da física quântica, Max Planck, observou: “A ciência não pode solucionar o mistério último na Natureza, e isso se deve a que, em última análise, nós mesmos somos parte do mistério que estamos tentando solucionar”.

Um estudante sério dos textos védicos logo verá que a consciência é para os sábios védicos o que a neve é para os esquimós. Trata-se da realidade predominante, e eles sabem que não podem se esquivar disso. De fato, os eruditos védicos da antiguidade facilmente aceitavam o óbvio, isto é, “as coisas” de nosso mundo – a materialidade – são experienciadas apenas como um aparecimento dentro da consciência. Portanto, em vez de corrermos do mistério da consciência, podemos dar algum crédito à maneira como a literatura védica elucida o assunto. A metodologia védica começa aceitando o autoevidente: a consciência é fundamental, e tudo mais, suplementar. A partir dessa base, procede todo o resto.

Sonhos da Noite, Sonhos do Dia

Retornemos aos nossos rápidos experimentos para termos mais insights quanto aos modos védicos de analisar o eu. Podemos ver facilmente que, dentro de nossa experiência consciente, há espaço para objetos físicos. Contudo, nosso problema, na verdade, pode ser outro. Temos que decidir se há espaço para experiência dentro dos objetos físicos. Em outras palavras, como pode o que entendemos por “objetos físicos” produzir experiência consciente? Você verá que os textos védicos condenam a fé cega e dogmática na matéria física “em si e por si”, como se a matéria fosse uma substância dotada de poder, com potencialidades inconcebíveis.

Ao menos no começo de nossa busca pelo autoconhecimento, os Vedas podem de fato nos incitar ao uso de uma abordagem empírica. Você faz isso começando a partir de tudo do que você tem experiência consciente fatual. Em seguida, você procura pelo conhecimento de o que é isso e por que você tem isso. Você, então, tenta compreender os objetos físicos ou mentais que surgem dentro da consciência.

Devemos ter em mente que realismo ingênuo não tem valor nos textos védicos. É dito que apenas um tolo acredita que o mundo existe diretamente como os sentidos o percebem. Porque a visão humana “sente” de maneira tão simples, temos a tendência de pensar que a imagem que vemos é diretamente o mundo “fora de nós”. Embora, por algum tempo, especialistas da visão acreditassem, sim, em uma correspondência “um para um” entre a imagem reluzida na retina e a imagem registrada pelo cérebro, eles há muito descartaram essa ideia. Em outras palavras, nenhuma imagem do tipo fotográfica é projetada no córtex visual do cérebro. Isso significa que, quando o olho vê um círculo, a atividade eletroquímica subsequente no cérebro não “possui a forma” de um círculo.

Quando você contempla uma árvore verde, o que está acontecendo? Frequências variadas de luz saltam da árvore para a retina de seu olho humano. Ali, as células reagem à quantidade de luz de acordo com três variações de frequência, as quais correspondem às três cores primárias. Então, impulsos eletroquímicos são enviados para o cérebro humano. Em seguida, vem a perplexidade. De alguma forma, misteriosamente, surge em nossa consciência – que é um mistério por si só – uma imagem, a qual os humanos aceitam como “uma árvore verde”.

Os Vedas compreendem que o mundo como o percebemos ou como pensamos sobre ele depende de nosso estado de consciência, de nosso nível de percepção. Os textos apontam que estamos lidando apenas com aparências – os efeitos de algo sobre a nossa consciência. Esse algo – em si e por si – é desconhecido a nós por causa da filtração feita por nossos sentidos combinada pela mediação feita por nossos estados de consciência.

Dadas diretamente a qualquer ser humano, seja um cientista, seja um leigo, há apenas aparências conscientemente experienciadas, cheias de dados dos sentidos e de suas relações. Independente de quão brilhantes possamos ser, podemos nos amparar nesses fenômenos e relações hipotetizadas entre eles sem entendermos a consciência? A resposta nos ocorre quando o despertador toca pela manhã.

Enquanto dormimos, podemos experimentar diretamente sonhos vívidos cheios do que tomamos como objetos físicos existentes por si mesmos – de maneira independente. Dançamos com amantes adoráveis e lutamos contra inimigos horrendos. Contudo, quando nossa consciência entra no estado de alerta, o mundo onírico desaparece subitamente.

Quando um sujeito está em sono profundo, sonha e vê em si muitos outros objetos, como grandes montanhas e rios ou talvez até mesmo todo o universo, embora estejam distantes. Algumas vezes, quando alguém desperta de um sonho, vê que está em uma forma humana, deitado em sua cama em determinado lugar. Ele se vê, então, em termos de várias condições, como pertencente a uma nacionalidade em particular, a uma família em particular e assim por diante. Todas as condições de sono profundo, sono com sonhos e estado de alerta nada são além de energias da Suprema Personalidade de Deus. Deve o indivíduo sempre se recordar do criador original dessas condições, o Senhor Supremo, que não é afetado por elas. (Srimad-Bhagavatam 6.16.54)

Como entendemos o status de sonho das percepções que temos enquanto dormimos? É certo que não as entendemos como parecem. Os objetos e as pessoas que populam nosso mundo onírico nos parecem tão reais quanto os componentes de nosso mundo desperto. Julgamos a diferença pela duração. O que vemos em sonho desaparece no momento em que acordamos. O que vemos enquanto estamos despertos, embora seja esquecido quando adormecemos, continua em torno de nós dia após dia e nos saúda quando acordamos. Todavia, coisas experienciadas quando estamos despertos também esvanecem com o tempo. Os instrutores védicos descrevem que o momento da morte é muitíssimo similar ao momento em que um sonho acaba. Diante disso, parece que tudo o que podemos dizer honestamente é que alguns sonhos duram por uma noite, alguns por um dia e alguns por uma vida. Consequentemente, os Vedas defendem, como poderíamos em algum momento considerar as percepções nos sonhos noturnos ou nos sonhos do dia como verdades sólidas da existência?

O Conhecedor Desconhecido

Um dos principais impedimentos para nos beneficiarmos com o conhecimento védico é a determinação ocidental de simplesmente agonizar diante de como experiências conscientes não-físicas supostamente surgem a partir de um mundo físico. Nossos melhores cérebros se perguntam: “Por que alguns processos físicos complexos ‘liberam’ essa coisa estranha chamada ‘consciência’ e alguns não?”.

Os cientistas desse chamado em particular começam sua pesquisa com uma crença em um mundo físico que existe em si mesmo e para si mesmo, depois do que tentam compreender como a consciência surgiu a partir disso. O filósofo britânico J. J. C. Smart comunicou eficientemente sua convicção: “Por ‘materialismo’ refiro-me à teoria de que não há nada no mundo além e acima dessas entidades que são postuladas pela física (ou, é claro, aquelas entidades que serão postuladas por teorias físicas futuras e mais adequadas)”.4 Na verdade, é apenas por causa do insuperável enigma da consciência subjetiva que os nossos cientistas têm a capacidade de tentar esquadrinhar seu mundo físico assim chamado objetivo.

“O corpo é chamado de ‘o campo’, ao passo que aquele que conhece este corpo é chamado de ‘o conhecedor do campo’”. (Bhagavad-gita 13.2)

Até muito recentemente, os cientistas que seguiam a tendência de então ridicularizavam pública e frequentemente pessoas e culturas que optavam por uma explicação não-material do eu consciente. “Lá vamos nós de novo caçar esse fantasma na máquina” era uma flecha comum que eles atiravam. Porém, por volta do começo do século XXI, os mitos materialistas entrincheirados do Ocidente moderno perderam muito espaço. Eles já não têm mais a posse de bola. Nos dias atuais, até mesmo leigos podem apontar que o problema para a ciência ocidental não é o fantasma na máquina, mas a máquina no fantasma. O desafio védico multimilenar é que coisas aceitas como fatos sólidos como rochas são percebidos por algo desconhecido!

Um caminho muito mais fácil para o mundo védico é evitar dogmas. Em vez disso, começamos do que é apenas indiscutível e diretamente dado à nossa própria experiência – a consciência. É certamente animador aceitar como certo apenas o que é certo e deixar como inferência o que é inferido. Como deve estar claro neste ponto, sem se compreender a consciência, tanto o mundo do leigo quanto do vencedor do prêmio Nobel ficam ocultos.

Enquanto não tivermos uma fundação derradeira para todas as nossas formas ocidentais de conhecimento, teremos de viver nossa vida tentando flutuar calmamente na escuridão sobre um turbulento oceano de enigmas. Por conseguinte, invocar uma falta de base empírica parece um argumento inválido para rejeitar a apresentação védica. Talvez nós homens modernos sejamos aqueles que devemos tentar ser um pouco empíricos! Podemos tentar aceitar, desde o princípio, a única coisa que temos certeza que experimentamos, após o que podemos nos abrir a informações sem tabu sobre isso – independente de quão antigas possam ser. Provavelmente, não existe nenhuma necessidade de ficarmos excessivamente ansiosos em relação à aparente falta de fundação no Veda em conformidade com nossos conceitos atuais – todos os quais certamente não têm fundação.

Sem o fardo do complexo de superioridade ocidental, nossa viagem pelo mar dos Vedas pode seguir em frente sem lentidão. Abordamos a experiência védica a partir do ponto de que a única coisa que estamos experienciando diretamente é a consciência. Construímos todo o restante, então, sobre isso. Uma estrutura mental livre do que chamaríamos de “ocultismo moderno” provavelmente se posicionará ao nosso lado. Podemos, então, refletir para tentarmos entender o que queremos dizer pelo mundo externo do senso comum, bem como o estranho mundo subatômico da física moderna. Ademais, também podemos analisar o que queremos dizer pela existência de outras experiências conscientes. Podemos tentar compreender outra consciência – além de nossa consciência finita ou mesmo infinita:

“Deves compreender que também sou o conhecedor em todos os corpos, e compreender esse corpo e seu conhecedor se chama ‘conhecimento’. Eis Minha opinião”. (Bhagavad-gita 13.3)

A partir da antiga perspectiva védica, os psicólogos e filósofos modernos confundem o conteúdo da consciência com a consciência em si. Eles não são capazes de discriminar entre a consciência e as transformações da personalidade material tanto física quanto mental. No entanto, os textos védicos advogam que a consciência é fundamental para todo conteúdo, seja fisiológico, seja psicológico, seja uma combinação de ambos.

Os Vedas nos ensinam que, antes de progredirmos, temos que ao menos compreender que a consciência é sempre uma constante, independente de mudanças no corpo e na mente. Isso significa que a consciência jamais se perde ou é alterada. Os textos védicos certamente aceitam que nossa percepção e ciência do mundo externo podem variar por alterações de corpo, mente e sentidos. Não obstante, é dito que a consciência é sempre estável.

Devemos mencionar que, para irmos adiante em nossa familiarização com o conhecimento védico do eu, é preciso termos em mente a correlação que ele apresente entre a consciência, os conteúdos da consciência e as mudanças mente/corpo. Uma vez que nos sintamos confortáveis com esse princípio, podemos facilmente nos aventurar na exploração não apenas do eu védico, mas também do universo védico.

Pode-se entender a presença do ar através dos aromas que ele carrega. Da mesma maneira, sob a guia da Suprema Personalidade de Deus, é possível compreender a entidade viva através destas três divisões da inteligência: alerta, sono com sonhos e sono profundo. Essa divisão tríplice, entretanto, não é a alma; constituem-se dos três modos da natureza material e nascem das atividades materiais. (Srimad-Bhagavatam 7.7.26)

As duas primeiras dessas três categorias operacionais de experiência consciente são mais ou menos como as entendemos em nossa experiência diária. A terceira, o sono profundo, requer alguma explicação. Mesmo durante a dita “inconsciência”, estamos sempre conscientes. O sono profundo se refere ao estado em que a experiência de todos os fenômenos mentais e físicos se desliga – em tão alto grau que até mesmo os sonhos se interrompem. Algumas vezes, podemos ser medicamente classificados como estando “sem consciência” ou “em coma”. Médicos se valem da Escala de Coma de Glasgow para mensurar a profundidade do coma. Ainda assim, o ponto védico é que esse estado é apenas outra fase da experiência consciente.

Em todos os três estados de consciência – desperto, sono com sonhos e sono profundo –, temos diferentes experiências. Os Vedas apresentam a atma, a alma, como o observador neutro desses três estados da existência material. As atividades do corpo e da mente, conquanto baseadas na energia da alma, distinguem-se das atividades da alma.

Porque a temática da atma é difícil de ser entendida, os textos védicos apresentam muitas definições mediante negação, isto é, introduzem a alma explicando o que ela não é ou o que não pode acontecer com ela. Por exemplo, posso descrever uma maçã dizendo: “Não é roxa nem espinhosa” e “nunca pensa”. Contudo, essa análise por meio de negação não nos diz o que é uma maçã.

A metodologia védica de negação lógica é conhecida como neti neti: “Não é isso, não é aquilo”. É especialmente útil quando lidamos com coisas inconcebíveis. Primeiramente, o processo de neti neti remove as ervas daninhas das preconcepções. Então, a verdade acerca do que algo é pode nascer em um terreno fértil. Os textos védicos conhecidos como Upanishads especializaram-se nessa técnica. Sua principal contribuição é estabelecer que a entidade viva e o Supremo não são materiais.

Por exemplo, o Brahman, a Suprema Verdade Absoluta, é descrito como incompreensível, inefável e destituído de qualidades ou forma. Descrevendo a qualidade antimaterial do Absoluto, o processo neti neti das Upanishads abre caminho para a questão mais difícil: a forma espiritual, as qualidades espirituais, as atividades espirituais e a personalidade espiritual. Em geral, as pessoas concluem a partir de sua experiência limitada que individualidade, atividades e qualidades automaticamente dizem respeito à existência material. Diante disso, especulam que a perfeição espiritual tem que ser o oposto: impessoal, amorfa, inativa e destituída de qualidades.

Leitores ingênuos das Upanishads frequentemente se confundem com a abundância de descrições impessoais da entidade viva e do Supremo. Eles, assim, não conseguem apreender a conclusão derradeira quando ela se apresenta. Não são capazes de percorrer o intenso caminho de neti neti e então chegarem abertos a uma descrição positiva nos versos que revelam a realidade pessoal inconcebível da transcendência. Em meio às declarações impessoais, cujo objetivo é remover nossas preconcepções materiais, um estudioso dedicado das Upanishads por certo encontrará o ápice. A alma é claramente descrita como pessoal e, em sua capacidade perfeita, interage com a Alma Suprema, que também é pessoal.

A Bhagavad-gita também é conhecida como a Gitopanishad porque fornece a essência do conhecimento védico e é uma das Upanishads mais importantes. Na Bhagavad-gita, Krishna fornece muitas definições negativas para a alma. “Ela não nasce nem morre. Não veio a ser tampouco em algum momento virá a ser. Inquebrantável e insolúvel, não pode ser cortada, queimada, umedecida ou secada. É imutável e indivisível”. Deste modo, com base em nossa experiência imediata, podemos primeiramente visualizar todas as coisas que a alma não é.

Diretamente, no entanto, o que é a atma, a alma? A Bhagavad-gita apresenta muitas informações explícitas e diretas: “É eterna, sempre existente e primordial. Eternamente a mesma, é fixa em sua natureza constitucional. Está presente em todos os ambientes”.

Os Vedas nos ensinam que a consciência indica a presença da entidade viva não-material, a alma, assim como o brilho ou a luz solar indica a presença do Sol. Não podemos ver o vento ou a mente ou o tempo, apesar do que podemos compreender a presença de tais coisas invisíveis sintomaticamente, pela evidência indireta. Algumas vezes, quando acordamos pela manhã, nuvens ou um nevoeiro cobrem o Sol. Não obstante, vislumbramos uma claridade e temos a certeza de que o dia começou e o Sol está presente. De igual modo, observando os sintomas evidentes da alma, podemos compreender sua presença.

A Busca pela Alma

Proponentes da sabedoria védica estão certos de que, se quisermos, podemos obter confirmações substanciais para nossa intuição de que há, sim, um eu consciente unitário, uma alma gerando nossos sintomas de vida. A irresistível força dessa experiência imediata e diária importuna o coração de um considerável número de cientistas, embora, através de suas pesquisas laboratoriais pela alma, fiquem de mãos vazias.

Porque a cultura ocidental parece se basear em “ver para crer”, nós talvez naturalmente nos perguntemos por que não tivemos um vislumbre da alma. Alguns pesquisadores buscaram pela alma através de tomografia por emissão de positrões, tentando percebê-la no cérebro. A fisiologia e a ciência cognitiva modernas buscaram em vão por uma localização física de uma identidade transcendente. Carentes de qualquer evidência direta, a conclusão, em geral, é que não existe um eu essencial – nenhuma “tela” interior de experiência e nenhum experienciador interno.

Sendo imparciais com a visão védica, entretanto, temos que nos lembrar de que muitas de nossas teorias científicas atuais são, sim, baseadas em evidências indiretas de coisas jamais vistas diretamente. Por exemplo, nenhum cientista apresentará argumentos para banirmos a palavra “elétron” porque não se refere a algo observado diretamente. Em uma palestra universitária, um professor de física talvez nos diga: “Aqui podemos ver um elétron”. Todavia, tudo o que realmente podemos observar é uma faixa de condensação em uma câmera de nuvem. Autoridades, no entanto, instruem-nos a termos a confiança de que os sintomas indicam um elétron.

O mundo seguro e visualmente verificável da pessoa comum há muito deu espaço para construções da física crescentemente estranhas e similares a mágicas. As explorações teóricas da matéria subatômica são certamente fascinantes. Porém, oferecem pouca confirmação para a realidade como nossos sentidos podem perceber diretamente. O nobel Richard Feynman, conhecido no meio acadêmico como “o físico dos físicos”, comentou: “[Nossa física atual] descreve a natureza como absurda do ponto de vista do juízo que as pessoas fazem normalmente. E concorda completamente com as experiências. Espero, então, que vocês possam aceitar a natureza absurda como ela é”.(5)

Físicos dizem que são necessários entre oito e dez anos apenas para treinar um recruta na compreensão da realidade fundamental de acordo com a quimera da física quântica. O candidato à iniciação não apenas tem que aceitar que o mundo zune com componentes que são intrinsecamente não-observáveis, como tem também que se apoiar em ondas e partículas que não têm qualquer realidade objetiva até alguma tentativa ser feita para mensurá-las.

Um geólogo perito pode compreender onde há ouro e, por vários processos, pode extraí-lo. De maneira similar, uma pessoa avançada espiritualmente pode compreender como a partícula espiritual existe dentro do corpo e, destarte, cultivando o conhecimento espiritual, pode atingir a perfeição na vida espiritual. Malgrado isso, assim como quem não é perito não pode compreender onde há ouro, uma pessoa tola que não cultivou conhecimento espiritual não pode entender como o espírito existe dentro do corpo. (Srimad-Bhagavatam 7.7.21)

Materialistas, como os mecanicistas, pavoneiam sua convicção de que a vida é matéria. Têm por certo que as leis fundamentais conhecidas por governarem substâncias não-viventes também controlam as viventes. Saboreie esta recente exaltação a Jacques Monod e seu famoso livro Le Hasard et la Nécessité, citado no começo deste capítulo: “Monod morreu em 1976, mas os biólogos moleculares e celulares continuam a citar seu livro como uma exposição magnífica de uma filosofia que aceita uma visão mecanicista da vida e celebra sua glória resultante – todo o mundo vivente da Terra”. (6)

Os materialistas garantem que tudo em um sistema vivo pode ser reduzido a bolas de bilhar de matéria e nada mais. Eles denigrem como “vitalistas” aqueles que defendem que organismos viventes diferem da matéria inanimada por causa da presença de uma força viva, uma energia especial.

Na primeira metade do século XIX, o vitalismo era de fato conhecimento aceito. Um resumo bem escrito de biologia celular nos recorda: “Embora sejamos tentados a ridicularizar tais visões, nos dias antes de haver qualquer conhecimento significativo sobre células, a teoria do vitalismo era a ciência em voga. Conforme os cientistas gradualmente exigiam mais evidências para suas teorias, o conceito de vitalismo enfraqueceu pouco a pouco”.(7) Ao longo dos últimos 150 anos, o vitalismo foi efetivamente despejado do cânone oficial de conhecimento científico ocidental. Não obstante, um número considerável de cientistas destacados, incluindo ganhadores de prêmios Nobel, continuam a pelo menos flertar com o vitalismo. Alguns, por exasperação, divertem-se com o mesmo fora de qualquer caráter oficial.

A espera por uma solução material para a vida, é claro, não acabou. Ainda reina orgulhosamente nos laboratórios sem exigirem evidências para suas teorias. Tomemos por exemplo o biólogo celular Harold Erickson, da Universidade Duke.

O segredo da vida não é mais um segredo. Já há vinte ou trinta anos sabemos agora que a vida não é mais misteriosa do que as reações químicas em que se baseia. Há um conjunto inacreditavelmente complexo de reações químicas, mas são todas lógicas e compreensíveis. Ainda não compreendemos todas, mas compreendemos, sim, muitas delas, e não é difícil ver que, por fim, as conheceremos plenamente. (8)

Mas esse cheque pré-datado – “não é preciso pagar agora, mas certamente será preciso no futuro” – pode ir muito mais longe. Por exemplo, nas mãos de Tom Pollard, um biólogo celular que encabeça o mundialmente famoso Salk Institute, na Califórnia, entra para o grupo das arrogantes personalidades ocidentais. Pollard, um ex-presidente da American Society for Cell Biology, pergunta-se quando as massas acordarão para a certeza de que a vida é apenas um glóbulo de química e física: “O que os biólogos moleculares acreditaram por duas gerações é agora, em geral, tido como provado acima de quaisquer dúvidas. A vida é inteiramente o resultado da física e da química dentro das células e entre as células. Pergunto-me se o público em geral está preparado para aceitar isso”. (9)

Cientistas honestos já desaceitaram. O nobel de química Albert Szent-Gyorgyi é um exemplo clássico. Buscando entender o mistério da vida, começou sua busca estudando organismos em seu ambiente natural. Então, passou aos estudos celulares. Em seguida, continua sua busca na química de proteínas. Finalmente, depositou nos elétrons sua esperança de encontrar as pistas da vida. Próximo do fim de sua vida, confessou dolorosamente: “Em minha busca pelo segredo da vida, terminei com átomos e elétrons, que não têm absolutamente nenhuma vida. Em algum lugar ao longo da linha, a vida fugiu por entre os meus dedos. Agora, no final de minha vida, estou retraçando meus passos”. (10)

Outro ganhador do prêmio Nobel, Eugene Wigner, diz que a possibilidade de uma unidade autoduplicadora surgir por si só é zero. Uma vez que a habilidade de se reproduzir é uma das características fundamentais de todos os organismos vivos, Wigner conclui que nossa atual compreensão de física e química não nos permite explicar os fenômenos da vida.

A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos estabeleceu um comitê para revisar as pesquisas sobre a origem da vida. Seu presidente, Harold P. Klein, concluiu: “A mais simples bactéria é tão absurdamente complexa do ponto de vista químico que é quase impossível imaginar como veio a ser”. Depois de revisar a última fornada de teorias, seu comitê, incapaz de endossar algum dos competidores, concluiu dizendo ter a esperança de que a realização de muitas outras pesquisas poderia solucionar a questão. (11)

Recordemo-nos da famosa teoria da sopa primordial para a origem da vida. Livros escolares ainda ensinam que Stanley Miller, em 1953, demonstrou vividamente em seu laboratório como os primeiros elementos químicos da vida surgiram por si mesmos. A partir de uma espuma de elementos químicos básicos que provavelmente estavam presentes na Terra primitiva, moléculas autorreprodutoras teriam surgido espontaneamente. Por conferir-nos uma brilhante solução química para o enigma de como a vida começou, Miller foi reverenciado. Cerca de quarenta anos mais tarde, já idoso, o próprio Miller admitiu que seu lendário experimento não nos levou a lugar nenhum. (12)

Até mesmo materialistas declarados entre os ases científicos mais preeminentes confessam seu desconcerto, embora não pretendam abandonar sua fé. Lamentando-se diante do fato de que as incríveis ferramentas da biotecnologia ainda não possam produzir vida a partir da matéria inanimada, Francis Crick, o nobel famoso por codescobrir a estrutura da molécula de DNA, queixou-se de que a origem da vida parece “um milagre, haja vista que tantas são as condições que têm que ser satisfeitas para que funcione”. (13)

Para Morrer, Basta Estar Vivo

Dado que uma pesquisa ampla em memórias e reflexões revela que nem mesmo nas sagradas câmaras científicas o vitalismo morrerá, podemos nos beneficiar buscando nos Vedas uma versão mais satisfatória disso. Os textos védicos não deixam de declarar que a alma é indetectável por métodos materiais. Através dos sentidos nus ou dos sentidos tecnologicamente auxiliados, ninguém, somos informados, pode ver diretamente a alma. Contudo, os Vedas insistem que, mediante a aplicação preliminar do bom senso, gradualmente progredindo para técnicas avançadas de disciplina espiritual, uma pessoa refletida e de pensamento claro pode verificar que a alma existe e que é o agente crucial para a ativação do corpo.

Ressoante com a experiência de todos, os Vedas apontam que a morte é o maior dos incentivos para especularmos sobre a vida biológica. O que acontece quando uma criatura morre? O corpo tem aproximadamente o mesmo peso, formato e materiais constituintes esteja morto, esteja vivo. Quando morto, porém, seu crescimento, seu metabolismo e outras funções param completamente. A não ser que você mantenha o corpo sem vida no gelo, começa a se decompor de imediato.

A perspectiva védica estimula-nos a considerar: qual é a diferença entre um corpo vivo e um corpo morto? Qual é o agente ativo responsável por fazer o corpo crescer da infância para a maturidade, sem o qual um novo bebê é chamado de natimorto, embora todos os órgãos necessários estejam intactos? Se a vida é meramente uma máquina bioquímica, devemos injetar a fórmula química correta e reparar a máquina defeituosa. Sendo honestos, apenas quando o corpo morto retorne à vida, teremos verificado essa teoria.

A conclusão védica é que a vida transcende tudo o que conhecemos a partir de nossa física e a partir de nossa química modernas. Perante a morte de um ente querido, nossa fala revela nossa ressonância com a literatura védica. Nós dizemos: “Ela se foi” ou “ele partiu”. Contudo, o que partiu? O mesmo corpo que você abraçou e beijou está ali, mas você não se atrai mais. O que falta? Nesse momento, tudo o que queremos é nos livrar do corpo, depois dos devidos rituais, é claro. A necrofilia ser revoltante implica que a verdadeira pessoa que amamos nós jamais vimos. A conclusão védica é que a misteriosa entidade agora ausente nós nunca vimos ou tocamos de fato. Então, por que todas as lágrimas?

Ó lamentadores, sois todos tolos! A pessoa que amastes ainda está diante de vós, não havendo ido a lugar algum. Qual, portanto, é a causa da vossa lamentação? Anteriormente, ele vos ouvia e vos respondia, mas agora, não o encontrando, lamentais. Isso é uma conduta contraditória, pois jamais vistes de fato a pessoa dentro do corpo, a qual vos ouvia e vos respondia. Não há necessidade de vossa lamentação, porquanto o corpo que sempre vistes está prostrado diante de vossos olhos. (Srimad-Bhagavatam 7.2.44)

Os incontáveis testemunhos de experiências de quase morte (EQM) abalaram a fé materialista. EQM desafiam a noção de morte como o fim derradeiro, sendo talvez apenas o fim da bolsa bioquímica que antes era animada. Tão difundidos são os livros a descreverem EQM que não há necessidade de duplicar seus esforços aqui. Em resumo, em muitos casos, embora o corpo seja declarado como clinicamente morto, seu ocupante paira acima da mesa de operação assistindo à equipe cirúrgica se dizendo malsucedida. Posteriormente, a pessoa é capaz de descrever exatamente o que se deu na sala de operação, de um ponto de vista privilegiado, acima da cena, embora estivesse obviamente inconsciente e, muitas vezes, tida como morta.

Algo que pode ser surpreendente é que, da perspectiva védica, EQM não são experiências espirituais. Elas envolvem o que é conhecido como “corpo sutil” em sua habilidade de operar com a alma em separado do corpo grosseiro.

Existem dois tipos de corpos para toda entidade viva – um corpo grosseiro, feito dos cinco elementos, e um corpo sutil, feito de três elementos sutis. Dentro desses corpos, entretanto, está a alma espiritual. A pessoa tem que encontrar a alma através de análise, dizendo: “Isto não é. Isto não é”. O sujeito, destarte, tem que separar espírito e matéria. (Srimad-Bhagavatam 7.7.23)

O verso acima nos apresenta sucintamente o eu védico, tanto interno quanto externo, ou essencial e supérfluo. A existência material se caracteriza por uma cobertura grosseira e uma cobertura sutil, ou astral, encobrirem a alma espiritual. O corpo físico sutil é composto por ingredientes que conhecemos pela experiência terrestre comum: matéria sólida, matéria líquida, matéria gasosa, energia radiante e espaço. Contudo, há também o corpo sutil – o corpo psíquico –, composto de substâncias mais refinadas, as quais se denominam “mente”, “inteligência” e “falso ego”. Esse é o veículo responsável pelo fenômeno que recebe nomes como “projeção astral”, “viagem astral” e “experiência de quase morte”. E esse é o campo produtor da aura.

Assim como a alma se vale do corpo físico como um mecanismo, ela também pode viajar no corpo sutil, o corpo astral, sem a cobertura física. Quer mediante treinamento, quer em alguma circunstância especial – como a quase morte –, essa vagueação pode acontecer. Além disso, muitas pessoas são capazes de viajar astralmente em sonhos, quer cientes disso, quer não. De qualquer modo, do ponto de observação védico, não há questão de mente acima da matéria, pois a mente é matéria.

Remanentes da delineação védica da alma espiritual encoberta por um corpo grosseiro e um corpo sutil aparecem no Egito e na Grécia. Para os patriarcas védicos, isso não é surpreendente; eles consideram as civilizações egípcia e grega como ramos védicos expatriados.

Os egípcios aceitavam que todos tinham muitos corpos, variando em função desde os corpos materiais grosseiro e sutil até o corpo completamente espiritual. O corpo sutil se chamava khat, uma palavra indicando “aquilo que certamente decairá”. O khat recebia todos os esforços de mumificação e preservação sobre os quais toda criança na escola hoje lê. Na verdade, porém, os egípcios não esperavam que o corpo físico se reerguesse, deixando a tumba, apesar de seus esforços na mumificação serem tão fascinantes aos nossos olhos. Eles aceitavam que, além do corpo físico grosseiro, havia camadas astrais sutis, uma das quais, a camada ka, podia viajar independente do corpo grosseiro. Por fim, a alma, ba, era a unidade de eternidade, destinada a residir no paraíso. Existem controvérsias sobre as diferentes funções e terminologias dos muitos aspectos sutis intermediários porque os egiptólogos não encontraram definições claras para elas.

A religião dita misteriosa dos gregos parece ser obviamente derivada do conhecimento védico, provavelmente via Egito, se não diretamente da Índia. O pesquisador G. R. S. Mead sugere abertamente que os “cultos de mistério” egípcio, caldeu, báquico, órfico e eleusino vieram todos de uma mesma fonte.(14) O conhecimento de mistério greco-órfico ensinava que há três corpos: um etéreo, um aéreo e um terrestre. Por etéreo, referiam-se a “não-material”; o terrestre era o físico, ao passo que o aéreo era o corpo astral, ou sutil, intermediário. A vida terrestre era a interação de todos os três, e a meta da vida era livrar a alma de suas coberturas. Platão evidentemente herdou muito de suas descrições da alma a partir da base órfica de conhecimento. De todas as escolas de mistério gregas, a linha órfica distinguia-se por seu ascetismo, celibato e proibição do consumo de carne e ingestão de vinho.

A Grande Esperança Cerebral

Talvez riamos dos esforços investidos pelos egípcios nas mumificações, mas quantos de nós sabe que os comunistas russos preservaram o corpo de Lenin; o governo chinês, o cadáver de Mao Zedong, e os cientistas ocidentais, o cérebro de Einstein? Terem feito picles de sua massa cinzenta é algo esperado uma vez que, em sua evitação da antiga ciência védica da alma e de sua consciência, os homens modernos correram até as pesquisas do cérebro como o último recurso. Deste modo, o estudo do eu se tornou o estudo dos neurônios.

O cirurgião canadense Dr. Wilder Penfield, nobel em fisiologia e medicina, criou sua própria versão de busca pela alma enquanto operava o cérebro de diferentes pessoas. Com um estímulo elétrico, ativava áreas no córtex motor das cobaias para discernir qual parte do cérebro controla cada parte do corpo. Diante desse estímulo a uma parte em particular no córtex motor, o braço do paciente começava a subir. Penfield pedia ao paciente que descrevesse sua situação: “Meu braço está subindo”, era a resposta. Contudo, a pessoa negava que havia decidido movê-lo. Penfield, então, solicitava ao paciente que movesse o braço em outra direção. O braço se movia e, dessa vez, a cobaia confirmava que fizera a escolha.

Mesmo valendo-se dos melhores instrumentos que a tecnologia pode oferecer, os neurocientistas jamais conseguem encontrar quem toma as decisões, quem reconhece que não fez a escolha de mover seu braço quando o estímulo do cirurgião incitou a parte correspondente do córtex motor. De igual modo, nenhum neurocientista pode traçar o agente que tomou a deliberada decisão de erguer o braço. Os cientistas podem encontrar a região correta do cérebro onde a decisão foi executada, mas o pensador por trás do pensamento, o comandante por trás da escolha, sempre escapa de sua detecção. Com efeito, quando Penfield estimulou os lóbulos temporais de cérebros humanos, desencadeou uma inundação de experiências do passado repleta de visões, sons e cheiros autênticos. Um jovem ouviu sua mãe falando com ele ao telefone e pôde repetir toda a conversa; uma mulher se viu em sua cozinha e pôde ouvir seu filho pequeno brincando do lado de fora da casa. Todavia, em cada caso, quando a cobaia era indagada se estava nessas cenas, a pessoa respondia: “Não, estou na mesa de operação, testemunhando esses experimentos”. Onde no cérebro está a testemunha, o discriminador?

Quando Penfield começou os experimentos, pensou que suas descobertas revelariam uma janela física através da qual o eu consciente poderia ser observado e quantificado. Quatro décadas de pesquisas cerebrais mais tarde, Penfield concluiu que nenhuma explicação neurológica seria suficiente – o eu era de uma esfera diferente. “A forma dessa energia é diferente daquela de potências neuronais [atividade eletroquímica] que viajam pelas vias axônicas. Sinto-me forçado a escolher a proposição de que nosso ser tem que ser explicado com base em dois elementos fundamentais”.(15) Poucos dias antes de sua morte em 1976, pronunciou-se conclusivamente: “O cérebro é um computador. Porém, é programado por algo fora dele”.(16)

Outro ganhador do prêmio Nobel, Sir John Eccles, em 1965, escreveu em The Brain and the Unity of Conscious Experience: “Acredito que há um mistério fundamental em minha existência, transcendendo qualquer cômputo biológico do desenvolvimento do meu corpo (incluso meu cérebro)”.(17) Dezesseis anos mais tarde, o neurofisiologista disse a um entrevistador: “Se você olhar nos mais modernos textos sobre evolução, você não encontrará nada sobre mente e consciência. Eles presumem que isso surge automaticamente com o desenvolvimento do cérebro. Essa, no entanto, não é a resposta”.(18)

Vimos que, depois de mais de quarenta anos de investigação, Wilder Penfield abandonou suas esperanças ligadas ao cérebro. Ele aceitou que o segredo da identidade requer um elemento fundamental além da matéria. Sir John Eccles também, ao final de sua carreira, não guardou em segredo sua conclusão final. Recapitulando a pesquisa de sua vida em seu livro de 1985, The Wonder of Being Human, declarou que cada pessoa tem “uma psique criada divinamente”.(19) Se julgarmos com base no atual rebuliço quanto ao cérebro, podemos inferir que foi sentimentalismo o que tomou esses nobéis na velhice. Hoje, entre os cientistas reducionistas radicais, o cérebro goza de uma supremacia inaudita.

É comum leigos se surpreenderem ao ouvir cientistas que têm fé exclusiva na matéria se referirem calmamente a si mesmos como materialistas. Porque esses especialistas eruditíssimos têm absoluta certeza de que algo não-material não existe, não percebem nenhuma implicação negativa na designação “materialista”. Na verdade, é com grande orgulho que vestem a camisa. Tudo na existência, acreditam, consiste em matéria. O cosmos e a vida – tudo, incluindo o assim chamado conhecimento espiritual – evoluíram dos processos físicos da matéria, eles dizem. O acaso é o instigador onipotente, em associação com as “leis naturais”, que, de alguma forma, também são matéria.

Dedicando-se a construir sobre sua base de certeza de que a vida surge da matéria, os cientistas materialistas obstinados, agora mais do que nunca, esforçam-se brilhantemente para explicar o eu e a consciência estritamente em termos de eventos mecânicos no cérebro.

O inigualável gigante do DNA, Francis Crick, colocou-se solidamente na vanguarda desse último empenho engenhoso. Porque ele é o codescobridor da estrutura de DNA, quando ele se voltou para as pesquisas da consciência como sua fronteira final, conferiu inigualável estatura e igualmente inigualável prestígio a esse campo de pesquisa.(20) O estimado Crick, com quase noventa anos, trabalha ao lado de seu jovem prodígio alemão, Christof Koch. Juntos, difundem pelo mundo sua profunda convicção de que a consciência surge de oscilações elétricas em nossos neurônios.

Reducionistas radicais, como Crick e Koch, declaram publicamente sua determinação de exterminar qualquer alternativa às explicações materialistas. Crick fez uma entrada pomposa no campo de batalha da consciência. Em seu livro The Astonishing Hypothesis: The Scientific Search for the Soul, declarou: “Você, suas alegrias e suas tristezas, suas memórias e suas ambições, seu senso de identidade pessoal e livre-arbítrio, são, na verdade, nada mais do que o comportamento de uma vasta assembleia de células e nervos. Como a Alice de Lewis Carroll colocaria: ‘Você não é nada além de um saco de neurônios’”.(21)

O desafio é impactante. Uma análise desapaixonada, entretanto, revela algo claramente diferente. Assim como os avanços médicos modernos no entendimento do corpo humano através do isolamento de suas substâncias bioquímicas não produziu nenhuma revolução na criação da vida, os últimos progressos na compreensão dos processos físicos do sistema neural também fracassaram. A ciência cerebral não deixou a consciência ao nosso alcance. Como em décadas anteriores, é a mesma velha história: nenhum ramo do conhecimento moderno nos permitiu cruzar o sinuoso vale entre a descrição física e a realidade subjetiva e consciente. Em conformidade com o conhecimento védico antigo, temos que admitir que, embora as nuvens das últimas pesquisas tenham trovoado, nenhuma chuva caiu. Por quê?

Além disso, quanto conhecemos, de qualquer forma, sobre o cérebro e o eu? De todas as células no corpo, os neurônios, fomos ensinados, geralmente não mudam. O que você obtém durante seus meses pré-natais é a maior parte dos neurônios que você pode esperar ter pelo resto de sua vida. Repentinamente, porém, em 1998, essa doutrina científica titubeou e caiu. Um cientista articulista do New York Times relatou:

Por anos, os neurobiologistas se atrelaram a uma verdade fundamental: uma vez que os animais, ou as pessoas, chegam à idade adulta, podem perder células cerebrais, porém jamais podem produzir novas. Agora, todavia, em experimentos que os peritos chamam de “incríveis”, esse dogma foi derrubado. Os cientistas descobriram que macacos estão constantemente produzindo novas células cerebrais no hipocampo, uma região do cérebro usada para formar memórias duradouras. Além disso, eles reportam, a produção de novas células é descontinuada quando os animais estão sob estresse muito grande. Peritos dizem acreditar fortemente que os humanos não sejam diferentes e que eles também produzem células cerebrais novas na vida adulta.(22)

Dr. Elizabeth Gould, da Universidade Princeton, e seus colegas fizeram a descoberta. Gould explicou a barreira de tradição que teve de derrubar: “As pessoas acreditavam que, a fim de armazenar memórias por toda uma vida, você precisaria de um cérebro estável. Se as células estão constantemente morrendo e células novas estão constantemente sendo produzidas, como isso seria possível?”.(23) Dr. Arturo Alvarez-Buylla, na Universidade Rockefeller, lembrou-se de um de seus colegas de pesquisa cogitando a ideia de que um cérebro adulto podia formar novos neurônios. Contudo, ele disse, “as pessoas pensavam que isso beirava a fantasia”.(24)

Nos últimos meses do século XX, surpresas neurológicas continuaram. Além de chegarem todos os dias na região do hipocampo, agora milhares de neurônios novos foram flagrados entrando diariamente no córtex cerebral, a parte externa do cérebro ligada às funções intelectuais e à personalidade.

“A comunidade científica pode facilmente acreditar em algo que está 50 por cento pronto para ser absorvido, mas não algo que surge inesperadamente”, disse Eric R. Kandel, um neurocientista bastante conhecido na Universidade Columbia University. “Aqui, no entanto, estamos prontos para isso”.(25)

Kandel comparou as mudanças promovidas pela pesquisa revolucionária às mudanças de paradigma que Thomas Kuhn, o historiador da ciência, tornou famosas. Uma teoria científica destacada, Kandel notou, está prestes a se desintegrar, abrindo caminho para uma nova visão.

Cientistas facilmente concordam que a descoberta neurológica, embora baseada em pesquisas em macacos, se revelará real nas pessoas igualmente. Como primatas semelhantes, essas pesquisas, em geral, confirmam-se nos humanos. Uma equipe de cientistas da Universidade Harvard, o Salk Institute, e da Sahlgrenska University Hospital, na Suécia, está agora confirmando o trabalho de Gould fazendo experimentos diretamente em cérebros humanos em vez de extrapolar a partir das pesquisas em cérebros animais. A equipe escreveu no periódico Nature Medicine: “Nosso estudo demonstra que a gênese celular ocorre nos cérebros humanos e que o cérebro humano retém o potencial de autorrenovação ao longo da vida”.(26)

Os neurônios nos seres humanos se revelaram inconstantes. Por conseguinte, antes de investir quaisquer outras convicções doutrinárias neles, faríamos bem em nos fazermos uma pergunta insistente: a consciência da entidade viva sobrevive sem seu hardware neural? Ou, construída de outra forma, a consciência precisa, em absoluto, de neurologia? Alguns casos na Inglaterra expõem mais de nossa profunda ignorância, apesar das declarações dos cientistas neurológicos.

O estudo médico de hidranencefálicos surgiu nas décadas de 1970 e 1980. Um periódico acadêmico, Developmental Medicine and Child Neurology, foi que levou a novidade ao público pela primeira vez. Na Inglaterra, o neurologista John Lorber, da Universidade de Sheffield, estava estudando duas crianças que tinham água não “no cérebro”, mas sim “em vez do cérebro”. Uma luz direcionada a seus crânios passava livremente de um lado a outro. Embora nenhuma das duas crianças tivesse algum córtex cerebral, ambas eram normais em suas funções mentais.(27) Como isso é possível? Como você pode ser “uma pessoa integral”? Como você pode pensar apropriadamente?

Depois de um pequeno alvoroço em revistas populares de ciência, a descoberta deixou de ser discutida e noticiada. As implicações teriam sido por demais atemorizantes para se fazerem mais deliberações? Enquanto a ciência cerebral convencional seguia em frente, o trabalho em humanos descerebrados prosseguia em segredo. Outros casos surgiram. Em pouco tempo, Lorber reuniu um grupo de pacientes para teste cujos crânios eram mais de 95 por cento destituídos de substância cerebral. Em outras palavras, não seria hiperbólico dizer que seus crânios eram vazios. Algumas dessas pessoas eram severamente deficientes, mas metade delas tinha QIs acima de 100.

O maior desafio ao dogma do cérebro, entretanto, se formou na mesma Universidade de Sheffield com honras. Aconteceu de um aluno brilhante visitar seu médico. Notando que a cabeça do jovem era maior do que o normal, o médico o encaminhou para o especialista John Lorber simplesmente por curiosidade. O escaneamento cerebral de rotina do neurologista revelou a chocante evidência: dentro da cabeça do futuro matemático, faltava algo essencial.

Lorber documentou o caso: “Há um jovem aluno nesta universidade”, ele atestou, “que tem um QI de 126, recebeu um diploma de matemática com louvores e, em suas atividades sociais, é completamente normal. Apesar disso, o jovem praticamente não tem cérebro”.(28)

Ainda assim, os defensores da crença “consciência oriunda do cérebro” seguem adiante. Eles consideram que, conforme a substância essencial e cinza similar a um tofu evoluía pelo neo-darwinismo, ela, em algum ponto crítico, certamente manifestou o “fenômeno secundário” conhecido como “consciência”. Em outras palavras, quando a matéria fica complexa o bastante, a experiência consciente surge a partir de cérebros ou talvez a partir de computadores!

Um número crescente de cientistas contemporâneos, não obstante, chegou a uma conclusão diferente. Protestam dizendo que até mesmo o conhecimento mais brilhantemente detalhado do cérebro não conseguiria solucionar a questão fundamental: por que a matéria cérebro deveria dar surgimento à consciência? Eles dizem que se trata de um nível de desafio analisar os processos cognitivos do cérebro. Contudo, demonstrar que a percepção consciente e subjetiva surge da fisicalidade é outra empreitada completamente distinta.

Os antigos Vedas podem nos ajudar a clarear essa questão. A agilidade védica para analisar a existência pode moldar ricamente o contexto de nossa crise científica atual. Para sistemas ocidentais de conhecimento sobreviverem em seu estado atual, têm primeiramente que admitir um problema interno extraordinário e, então, solucioná-lo. Isto é, como a experiência consciente e subjetiva pode ser explicada como oriunda de algum sistema físico no cérebro ou de qualquer outra forma física?

Quer nossas esperanças repousem nos processos eletroquímicos dos neurônios, quer no mundo mais diminuto das partículas subatômicas, quer nos campos mágicos da física quântica, o mesmo impasse bloqueia nosso caminho. Talvez o impasse incitando-nos a buscar em outro lugar leve-nos à sabedoria primordial dos Vedas e essa possa nos salvar de séculos de vagueação no escuro.

A abordagem reducionista padrão da ciência moderna nos dá uma tecnologia que derrama sobre nós muitas comodidades. Entretanto, há cada vez mais tremores sob as catedrais da aprendizagem e sob os templos das pesquisas. Demos crédito onde o crédito é merecido. O conhecimento védico antigo parece dirigir claramente a atenção para o epicentro de um terremoto há muito protelado na ciência, na filosofia e na religião ocidentais. Isto é, nosso atual fundo de conhecimento simplesmente não tem provisões para fenômenos não-físicos, fenômenos que não sejam derradeiramente compostos de constituintes físicos – sejam átomos e moléculas, sejam partículas e ondas. Os axiomas védicos não “enchem linguiça” quando lidam com essa questão crucial, senão que a abordam de cabeça em pé.

O Tremor Ocidental

Estamos testemunhando tanto o colapso do empirismo clássico (como obtemos nosso conhecimento) quanto o colapso do realismo metafísico (o mundo é como nossos sentidos o percebem, e a ciência o descreve como ele é.) (29)

Enquanto o conhecimento de base acadêmica segue arando em frente, raramente reconhecendo os sulcos que se formam ao redor, a população não especialista está, aparentemente, mudando de direção.

Se julgarmos pela popularidade da ciência alternativa, da história alternativa, da medicina alternativa e formas alternativas de quase toda disciplina tradicional, parece, sim, que um novo paradigma está emergindo apesar da obstinada pesquisa institucionalizada da educação acadêmica. Livros, vídeos e documentos digitais – montanhas do que costumava ser tido como “anomalia” – agora crescem e se tornam impressionantes ramos de estudo em si mesmos. A internet reúne por toda a Terra as indagações e respostas encontradas por um exército global de pesquisadores alternativos e intelectuais underground.

Com a revolução tecnológica mundial, os sistemas de comunicação global parecem estar, sim, liderando uma mudança de paradigma em todo o mundo. Devemos ter em mente, entretanto, que países desenvolvidos, com apenas 15 por cento da população do mundo, utilizam a grande maioria de todas as linhas de telefone. Além disso, estatísticas obtidas no começo do novo século demonstram que dois terços de todo uso da internet é dos Estados Unidos, Japão, Reino Unido e Alemanha. Apenas 2,5 por cento da população mundial acessa a internet – um número que por certo crescerá, ainda que lentamente. (30)

Os Estados Unidos facilmente superam qualquer outra nação em número de usuários de internet. O Stanford Research Institute International fez uma pesquisa sobre a psicologia dos usuários de internet norte-americanos. Descobriu-se que um segmento da população chamado de “os atualizadores” – pessoas bem instruídas e interessadas em autoatualização – formavam 10 por cento da população adulta do país, mas notórios 50 por cento dos usuários de internet. (31)

Entre os sujeitos instruídos, estamos prestes a ver uma grande mudança nos padrões conceituais que formam a base da civilização humana? Depois de estudar os períodos clássicos de mudança no mundo ocidental, o aclamado historiador Lewis Mumford apontou: “Toda transformação do homem repousou sobre uma nova base metafísica e ideológica – uma nova retratação do cosmos e da natureza do homem”. (32) Historiadores, em geral, concordam que houve quatro ou cinco grandes transições nas experiências ocidentais de civilização. Desde a queda do Império Romano, o fim da Idade Média foi o divisor de águas mais recente. Usualmente, tais períodos pivotantes acontecem apenas uma ou duas vezes a cada milênio.

O mundo ocidental está realmente mudando de um tipo de civilização para outro? Ou, conforme balançamos nas ondas do novo século, estamos experimentando os típicos ajustes dentro da incerteza? Muitos dizem coisas que são completamente atípicas. Por exemplo, um proeminente porta-voz na cena da nova era internacional, Jean Houston, parece pronto para um drama em alto-mar: “Em outros tempos na história, pensaram que aquele era o tempo chegado. Estavam errados. O tempo chegado é agora! Estamos vivendo em um colossal terremoto mente/corpo, que nos inquieta e nos empurra para níveis de nós mesmos que nunca pensamos que tivéssemos. Estamos em águas turvas a todo momento. Não é mais um lago sereno”. (33)

Mensageiros diáfanos do “Novo Milênio” afirmam que o que eles chamam de “o inconsciente coletivo profundo” quer uma total transformação da humanidade. Algumas estatísticas talvez estejam a favor desses profetas. A World Values Survey cobriu quarenta e três nações – 70 por cento da população do mundo. Seu coordenador global, Ronald Ingelhart, concluiu que cerca de doze nações estavam passando pelo que ele chamou de “curva pós-moderna”: um declínio na confiança nos baluartes modernos tradicionais de governo, ciência, economia e religião, junto de uma recém-descoberta inclinação para o crescimento pessoal e o desenvolvimento interior. Inglaterra, Canadá, Escandinávia, Países Baixos e Estados Unidos lideraram essa nova onda. (34)

Nos Estados Unidos, estudos revelam que 44 milhões de estadunidenses adultos formam um segmento crescente da sociedade chamado de “Cultural Creatives”. (35) Aderindo a ideias de transformação espiritual, desenvolvimento pessoal e sustentabilidade ecológica, esses 24 por cento da população têm seus olhos bem abertos para novos paradigmas de pensamento, incluindo sínteses de Oriente e Ocidente. O antropólogo Anthony C. Wallace chamou esses potentes agentes de mudança de “movimentos de revitalização cultural”. Eles são a guarda avançada, ele diz, que despertou toda uma cultura para ver que a velha história não funciona mais, e uma nova história se faz necessária. (36) Fortemente esperançosos em relação ao futuro, os revitalizadores anunciam que precisamos de uma nova imagem de “quem somos” e uma nova maneira de nos encaixarmos na vida.

O estadunidense Dan Yankelovich, especialista em análises de opinião pública, apontou que, nos EUA, o percentual de pessoas que veem o desenvolvimento espiritual como essencial para sua vida saltou de 53 para 57 por cento em três anos. Significativamente, apenas 6 por cento dessa grande maioria se considera “Nova Era”. (37) Considerando esses números estatísticos, muitos percebem a predominância de um mainstream de orientação espiritual.

Mas os “atualizadores”, os “Cultural Creatives”, os “pós-modernos” e até mesmo o “mainstream espiritual” serão capazes de amassar a lataria do jogo clássico de problemas humanos? Desde o Renascimento, tanto os tradicionalistas quanto os modernos iniciaram uma luta corpo-a-corpo com os desafios sociais básicos: como distribuir riquezas, erradicar doenças, prover as necessidades básicas para uma população crescente, lidar com a complexidade social e moldar uma ética global. Qual é o conhecimento crucial – a grande nova esperança – que fará uma diferença?

Quer os transmodernos no Ocidente possam mobilizar a si mesmos e a sociedade, quer não, os Vedas estão prontos para apresentar um conhecimento profundo e abrangente do eu e de sua consciência. Restabelecer o antigo pacto parece começar com o melhor conhecimento do eu que a antiguidade ou o mundo atual pode oferecer. Então, o Ocidente, preenchendo o imenso buraco em suas religiões semíticas e na ciência empírica, pode literalmente começar, por fim, a lidar com o eu.

O neurologista nobel Roger Sperry aponta: “Crenças relativas aos propósitos últimos e ao significado da vida e as concomitantes perspectivas em relação ao mundo que moldam crenças de certo e errado são criticamente dependentes de conceitos concernentes ao eu consciente”. (38) Nossos valores sociais, ele explica, dependem, direta e indiretamente, do que pensamos ser a consciência.

Os profetas védicos clamam por uma civilização moldada de tal modo que seus membros possam sobriamente ponderar e trabalhar as questões mais profundas da vida. A visão védica é que a partícula não-material, a alma espiritual, está esforçando-se por libertar-se da matéria, e que se dar excessivamente a demandas temporais reduz nossa sensibilidade espiritual. Para o homem e a mulher dos Vedas, a perfeição da ciência é conhecer as qualidades da matéria e da não-matéria, bem como libertar a alma espiritual da atmosfera impermanente.

As conclusões dos Vedas incitam a sociedade a inspirar seu povo a esta postura: “Eu não sei quem eu sou, de onde vim e qual é meu propósito no cosmos. Por que tenho que sofrer perturbações físicas e mentais e confrontar tragédias naturais? Por que sou forçado a vivenciar a velhice, a doença e a morte embora eu não as queira? Para onde irei depois de ter deixado este corpo atual? Ou a morte é o fim absoluto?”.

O pragmatismo espiritual é o legado védico para o eu e a sociedade. Uma civilização certamente não pode ignorar as necessidades rotineiras do povo ligadas a comida, abrigo e similares. Não obstante, problemas de grande escala surgem quando líderes se equivocam e confundem os sintomas de nossa fome humana inata por conhecimento e experiências espirituais profundas com avidez por mais facilidades materiais e sensualidade. Assim, tanto os antigos quanto os modernos necessitam de conhecimento preciso – e não de sentimento pós-moderno – para que uma sociedade possa estabelecer as condições sociais mais favoráveis para o crescimento espiritual.

Referências

2. Carta datada de 12 de novembro de 1959.
3. O livro pioneiro e amplamente lido Chance and Necessity, de Monod, introduziu a biologia molecular moderna e a teoria evolutiva para o público em geral.
8. Ibid.
9. Ibid.
23. Ibid.
24. Ibid.
26. Reportado por Maggie Fox, correspondente de Saúde e Ciências, Reuters, 2 de novembro de 1998
28. Citado em John Lewin, “Is Your Brain Really Necessary?” Science 210 (12 de dezembro de 1980): 1232–35. O artigo original, “Is Your Brain Really Necessary?”, do neurologista John Lorber, aludido nesse artigo da Science, foi publicado em um livro alemão chamado Hydrocephalus im frühen Kindesalter, ed. D. Voth (Stuttgart: Ferdinand Enke Verlag, 1983). Fanáticos neurológicos não encontrarão paz mental nos detalhes minuciosos do caso: o brilhante matemático que se formou tinha uma partícula de matéria cinzenta dentro de seu crânio – uma minúscula película de 1 milímetro de espessura. Isso é aproximadamente 2 por cento do que normalmente deve estar presente dentro do crânio. Assim, o apropriado pronunciamento: sem cérebro. Fisicalistas, todavia, sempre procuram por uma explicação física. Desesperadamente se agarrando ao folículo de 2 por cento, dotarão o mesmo com habilidades miraculosas. E se o folículo estivesse ausente, dotariam de poder as paredes do crânio vazio. E o que aconteceu com o expediente evolutivo? Por que carregamos um cérebro tão grande se uma mancha de massa cinzenta pode fazer todo o trabalho e ser reconhecida com um diploma com louvores?
30. Estatísticas de uso da internet nacional e global de Vital Signs 1999, Worldwatch Institute (Washington, D.C.).

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