domingo, 30 de novembro de 2014

Autoritarismo de esquerda é uma praga



Uma amiga de Facebook está sendo duramente criticada por “companheiros de esquerda” por ter postado um texto sobre os protestos de ontem, em São Paulo, liderados pelo compositor e cantor Lobão.

Na verdade ela repostou uma postagem minha, feita logo em seguida à notícia de que o protesto estava acontecendo no vão do MASP, na avenida Paulista.

Era esta:

AS LOBAGENS DO BOBÃO
Fala sério! De novo 500 pessoas no vão do MASP protestando contra a Dilma Rousseff?
E ainda liderados pelo Lobão!!!!
Isso é falta de dar.
(a foto é do jornal O Estado de São Paulo)

Por extensão a censura dos “esquerdistas” cabe a mim  também.

Crédito: O Estado de São Paulo
Ah essa democracia

O brasileiro tem uma grande dificuldade de conviver com o Estado Democrático de Direito.

É verdade que não está acostumado com isso, mas pelo menos desde o fim da ditadura militar (1985) já deveríamos ter avançado um pouco... mas estamos patinando.

A Democracia somente se expressa na plena liberdade de expressão.

Podemos votar, por exemplo, e, por exemplo, votávamos durante a ditadura militar. Mas o voto coagido e constrangido não expressa Democracia.

Podemos ter também a profissão que quisermos ou professar a religião que preferirmos. Nada disso define uma Democracia.

É isso que essa gente – de esquerda, de direita ou de lado nenhum – não entendeu ainda. E provavelmente não vá entender até que a morte os separe da sua insânia e ignorância política.

Quem sabe daqui há duas ou três gerações seja possível que atinjamos de vez a Democracia.

Antes não acredito não.

Limpando a área

Dia desses postei que iria fazer uma limpa nos meus “amigos” do Facebook, gente, em sua maioria, que não conheço e provavelmente não virei a conhecer “pessoalmente” nunca.

Estou um pouco aborrecido com o que ando lendo em suas postagens. Não se lutou tanto para por um fim à ditadura militar para depois a gente ouvir coisas como estamos ouvindo (e lendo), especialmente de gente que se diz de esquerda.

Não são de esquerda, são o que eu chamo de pseuda esquerda. Apenas votantes do Partido dos Trabalhadores por alguma conveniência ou necessidades quaisquer.

Não comecei a limpa ainda. Hoje pela manhã tinha 3.132 “amigos” e agora à tarde 3.129.

O que houve? Três desses amiguinhos (na verdade amiguinhas) ficaram agastados/as com uma outra postagem minha sobre desmatamento no Brasil.

A postagem era a seguinte:

TOME TENTO DILMA ROUSSEFF
É muita cara de pau do governo federal dizer que o desmatamento caiu. Só na Amazônia ele cresceu 467%, de outubro do ano passado a este.
Dados: Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de Belém.


Essa gente, se fosse para o Poder, seria um perigo para a Democracia.

Aí está a mágica de Lula da Silva e de Dilma Rousseff, que conseguem domar a ira dos insanos para manter o Partido dos Trabalhadores por quatro mandatos consecutivos no Palácio do Planalto.

Fosse deixar a coisa por conta dos insanos, provavelmente os meios de comunicação já teriam sido estatizados, as fazendas incendiadas e os capitalistas decapitados.

Crédito: www.zazzle.es
Alguma coisa do tipo como o que ocorreu na URSS, a partir de Stalin, com seus gulags, com gente desaparecendo dos livros de história e sendo apagada de fotografias (e olha que nem existia o photoshop).

Esse tipo de gente não interessa. São raivosos, rancorosos, incapazes de dar conta de suas vidinhas medíocres, daí o ódio e a insânia contra tudo e contra todos que vão contra os seus interesses, sonhos e devaneios.

Se equiparam aos coxinhas raivosos das manifestações do Lobão, e não por acaso são chamados de empadinhas (os coxinhas de esquerda).

E.T. Acabei de encontrar uma amiga que agora está trabalhando na CNA (a confederação da agricultura da Kátia Abreu, que deve ser ministra de Dilma).

Inicialmente brinquei com ela, se não queria levar uma bolsa com uma bomba e deixar debaixo da mesa da senadora.

Mas falando sério: estou contente por ela estar a Confederação. Trata-se de uma profissional extraordinária, de uma técnica experiente e competente, e quem sabe ela consiga dar novos rumos àquela Instituição.

Vamos torcer.

sábado, 29 de novembro de 2014

Repressão às minorias e aos movimentos sociais está cada vez mais militarizada




Crédito da foto: Carta Capital

Os Estados Unidos se transformaram em um Estado nacional militarizado. Desde os protestos contra a guerra de Vietnã e a luta pelos direitos civis, a partir dos anos 50, fato agudizado nos 60, os Estados Unidos trataram de treinar e militarizar forças de segurança para conter as populações insubmissas.

Não é um fenômenos que desconheçamos, pois por aqui também ocorreu a mesma coisa, especialmente com a criação das polícias militares, de competência dos Estado federativos.

Vamos ao México e encontramos a mesma situação. No artigo abaixo - ”Ontem Ohio, hoje Missouri” - Tomaz Paoliello, professor de Relações Internacionais da PUC-SP -
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Movimentos-Sociais/Ontem-Ohio-hoje-Missouri-/2/32321 - mostra como o processo se deu e faz paralelo ao acontecido no Brasil.

[O incidente de Ferguson teve um papel catalisador para o crescimento das manifestações e tornou-se símbolo da violência contra negros nos Estados Unidos.

Em junho de 1970 foi lançada nos Estados Unidos a faixa Ohio, de Crosby, Stills, Nash & Young. O grupo entrou em estúdio para gravar a música de Neil Young escrita menos de um mês antes. A pressa era justificada, a canção havia sido concebida como reação ao horror do assassinato de quatro jovens estudantes da Universidade de Kent pelas forças da Guarda Nacional de Ohio, no dia 4 de maio. As cenas de soldados armados com baionetas marchando contra estudantes desarmados, e as imagens dos corpos mortos estendidos no campus se tornaram inspiração para o compositor e símbolos dos movimentos contra a Guerra do Vietnã. 

Ao longo dos últimos meses, uma série de protestos se espalhou pelos Estados Unidos após o assassinato de um jovem negro, Michael Brown, por Darren Wilson, um policial branco. O assassinato é parte de um fenômeno maior de crescente repressão policial violenta voltada a pobres e minorias. De acordo com estatísticas recentes, na cidade de Nova York, onde a população de negros e hispânicos é de aproximadamente 50%, os casos de mortes por violência policial são de aproximadamente 90% para os mesmos grupos. O incidente de Ferguson teve um papel catalisador para o crescimento das manifestações e tornou-se símbolo da continuada violência contra negros no país. O julgamento que inocentou o policial, mais cedo essa semana, reacendeu a onda de protestos que se iniciaram em agosto. As imagens que tomaram os noticiários em todo o mundo são assustadoras: ainda com a lembrança do corpo de Brown estendido na rua, vemos manifestantes defrontados com soldados armados para combate em zonas de guerra. Young nunca pareceu tão atual.


A letra da música do grupo Crosby, Stills, Nash & Young convoca não apenas universitários para as manifestações contra a Guerra no Vietnã. Os músicos acreditavam que seu sucesso poderia ajudar a amplificar a voz dos estudantes que pediam o final da guerra, movimento que crescia com os que se juntaram para gritar também por liberdade de manifestação e fim da repressão policial armada. De fato, a repercussão do massacre de Kent levou a uma greve de estudantes por todo o país, e enormes protestos tomaram as ruas de grandes cidades como Nova York e Washington. A canção foi banida das grandes rádios norte-americanas por sua menção explícita ao presidente Richard Nixon, mas ganhou grande repercussão nas pequenas rádios universitárias. O chamado a lutar por todos e não apenas por si mesmo foi ouvido, e isso precisa ser feito novamente.

A dupla face da Guarda Nacional

A Guarda Nacional é um corpo particular dentro do aparelho repressivo americano. Organizadas em cada um dos 50 estados, elas servem dupla função – são utilizadas como forças de reserva do exército americano, sob o Departamento de Defesa, e são utilizadas como contingente adicional e emergencial para funções de segurança pública. Apesar das polícias norte-americanas serem, em grande medida, responsabilidade das municipalidades e condados, em eventos de maior magnitude a Guarda Nacional é chamada para apoio às forças locais.

As Guardas são formadas principalmente por voluntários, geralmente trabalhadores em outros empregos, e que servem apenas durante alguns períodos do ano. Apesar de serem utilizadas como forças de segurança pública, o treinamento e organização das guardas é majoritariamente militar. Seus uniformes, equipamento, táticas e procedimento são militarizados. Notícias recentes dão conta de que os homens da Guarda Nacional foram e são treinados pelos militares ou por empresas militares de segurança privada, e atuam nas guerras ao lado das forças regulares.


Durante a guerra do Vietnã a repressão proveniente das Guardas Nacionais aparecia com uma face adicional de controvérsia – no período, alistar-se na Guarda foi uma maneira de driblar o alistamento em unidades que se envolveriam em missões de combate. A maioria dos membros da Guarda Nacional nem sairia do território americano, e os que de fato foram enviados ao Vietnã ou ao Camboja raramente estiveram no front. As chamadas “unidades champanhe” foram formadas por filhos das famílias ricas e pessoas com conexões no governo.  A Guarda que havia se tornado símbolo da desigualdade de classe na sociedade americana tornou-se também a linha de frente da repressão aos movimentos sociais anti-guerra nos Estados Unidos.

Se a Guarda Nacional teve papel menor no palco da Guerra do Vietnã, tornou-se uma das principais fornecedoras de homens nos conflitos recentes no Afeganistão e no Iraque. Com o fim da conscrição, em 1973, uma das vitórias dos manifestantes anti-Vietnã, os Estados Unidos passaram a depender exclusivamente de voluntários e contratados privados. Dessa forma, a Guarda Nacional se tornou um dos maiores contingentes de soldados dos EUA na Guerra ao Terror, compondo quase metade do total de forças combatentes no Iraque e no Afeganistão. Esses homens, treinados para operações de contraterrorismo e contra insurgência, são os mesmos que operam como “defensores da ordem” em protestos nos Estados Unidos. A ambiguidade de sua natureza se revela como um fenômeno mais generalizado de adoção de procedimentos militares para as forças de segurança pública. O massacre de Kent nos mostra que o fenômeno não é novo, mas a repressão às manifestações em Ferguson chama atenção ao importante crescimento desse tipo de solução para a segurança pública.

Circunstâncias diferentes, remédios iguais

O renovado vigor das manifestações em Ferguson, Missouri, como consequência do julgamento do policial responsável pela morte de Michael Brown, levou o atual governador do estado de Missouri, Jay Nixon, a convocar a Guarda Nacional para auxiliar o controle dos protestos. Essa velha conhecida dos movimentos sociais norte-americanos veio juntar-se a um contingente policial já amplamente militarizado, treinado por de empresas militares de segurança privada, e com equipamento excedente comprado das forças armadas. Em agosto, uma série de reportagens demonstrou espanto com transformação pela qual havia passado a polícia, cada vez mais parecida com tropas militares. Com a convocação da Guarda Nacional, a repressão policial militarizada se amplia em escala e em contingente.

Numa sinistra coincidência histórica, um novo Nixon repete textualmente a denúncia de Neil Young. As imagens que chegam de Ferguson são dos “soldados de chumbo de Nixon” marchando contra manifestantes desarmados. As baionetas das imagens dos protestos em Kent deram lugar a moderno equipamento de combate, incluindo rifles e carros blindados, que lembram mais os cenários dos conflitos no Afeganistão e no Iraque. Ademais, o amplo processo de crescimento da repressão social por forças de segurança pública se dá dentro de um perigoso processo de despolitização, no qual pesam a eficiência e a capacidade de controle, e pouco importam direitos e liberdades. As palavras do governador sobre a necessidade de proteger “as pessoas e a propriedade” são de um cinismo avassalador ao constatarmos que as pessoas que devem ser protegidas evidentemente não são os manifestantes. É importante lembrar que das quatro mortes em Kent pelas mãos da Guarda Nacional, duas foram de jovens que não faziam parte dos protestos.

A emoção do choro de David Crosby ao final da gravação de Ohio parece não ter se diluído com o tempo. Seu grito de “quantos mais?” parece ainda ecoar em cada episódio de violência policial. Os processos de militarização das polícias e da gestão urbana nos lembrarão por muito tempo dos tristes versos de Neil Young. Seja nos Estados Unidos, seja no Brasil, a luta é para que as vítimas, principalmente negros e pobres, não se tornem invisíveis. Nas palavras do próprio Young “como é que você pode fugir sabendo disso”?]