quinta-feira, 31 de julho de 2014

A vida é chata e sem sentido mesmo (?)


Crédito da ilustração: umgostinhodequeromais.blogs.sapo.pt

Nestes tempos hedonistas e niilistas o mundo parece de uma chatice infernal. Nada parece fazer sentido, especialmente a nossa existência. Daí procurarmos o prazer a todo custo, pois a vida é breve e inútil.

Parte dessa descrença costumo atribuir ao Renascimento que desalojou os deuses de seus lugares e nos legou um mundo inútil e tedioso.

Mas pode estar nas religiões – sejam elas quais forem – o germe dessa descrença generalizada.

Estudos recentes indicam que a guinada para o vácuo existencial se deu há mais ou menos 3 mil anos, quando apareceram os primeiros xamãs, ou que nome se dê a essa gente.

Até então – e lá se vão 27 mil anos – o ser humano vivia mais ou menos concorde com a natureza, sem sequer conhecer a divisão de trabalho (homem versus mulheres).

Taí uma boa história para as feministas começarem a resmungar mais ainda.

Um dos raros pensadores modernos que rema contra a maré é o jesuíta francês Pierre Teilhard de Chardin que fala numa evolução (humana) a ser construída, e não deixada à revelia da natureza como defende o naturalista britânico Charles Darwin.

É bom não confundir, no entanto, o pensamento de Chardin com o evolucionismo social, que tende a associar certas sociedades a comportamentos “animalísticos” e outras a um outro estágio civilizatório, como a cultura europeia (sic) por exemplo.

A gente já viu em que merda deu isso.

Planuras

Crédito da ilustração: piensa-luegoexiste.blogspot.com
A tendência a entender que o mundo um dia vai ser uma coisa horrenda, plano, amorfo e sem graça acabou por contaminar praticamente todas as áreas do conhecimento.

Me lembro bem de uma professora de geografia no ginasial que defendia uma tese pra lá de esquisita: que o desgaste natural, provocado por ventos e chuvas, levaria um dia a Terra a ter uma paisagem única.

Como sempre fui um sujeito chatinho, perguntei se ela não estava se esquecendo dos furações, dos vulcões, dos terremotos, dos deslocamento naturais dos continentes, é até mesmo da intervenção humana e de outros animais.

Ela não soube responder, mas ficou brava para danar comigo.

Livre arbítrio

Crédito da ilustração: www.revistanudelot.com.ar
Tenho uma amiga psiquiatra (e psicótica, eu, aliás, fui o editor do único livro que ela escreveu) que embarcou nessa história do livre arbítrio.

Segundo ela (católica ferrenha) ao expulsar Adão e Eva do Paraíso Deus só teria legado ao casal o livre arbítrio: “fizeram merda, se virem agora”.

A tese é boa (mesmo que apenas alegórica para os ateus e agnósticos) e eu a complemento com a minha: “o ser humano ter pavor da liberdade”.

Sem Deus ou sem um ente superior a guiar os seus passos, o ser humano não dá conta da própria existência, daí essa montanha de leis, estados, da porra da Moral e da merda da Ética.

Somos – defendo eu – seres amorais, mas a sociedade acabou por nos transformar em seres imorais (ou pelo menos parte de nós, eu incluso).

Daí termos de voltar ao jesuíta e à sua teorização sobre a construção humana (não por acaso ele teve problemas com o Vaticano).

Chardin acaba por provocar uma outra reflexão: como nos construir (e evoluir) enquanto seres humanos se estamos apegados às normatizações impostas pela sociedade (religião, leis e o diabo a quatro)?

Sinuca de bico!

Grunhido

O escritor português José Saramago dizia que a sociedade está rumando para o grunhido. O que ele quis dizer é que se hoje em dia mal sabemos falar, como faremos para expressar nossas ideias.

E vamos mais fundo: mal sabemos formular um único pensamento até para dizer que tudo isso não passa de uma grande bobagem (“grande bobagem” é uma de minhas expressões prediletas) e retornarmos ao hedonismo.

A questão que foi formulada no artigo  Precisamos voltar a Woodstock correndo. JÁ!  neste afalaire (veja mais abaixo) causou um certo desconforto em alguns leitores, que acabaram por me acusar de não reconhecer que a juventude atual também protesta, e vai às ruas para fazer isso.

Na verdade eu não disse que os jovens de hoje não protestam, mas sim que eles não têm utopias (ideologia), até para fazer frente à expulsão do Paraíso e pegar “a história nas próprias mãos” (e construí-la, obviamente).

Quem sabe Saramago tenha razão mesmo?

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