quinta-feira, 24 de julho de 2014

A gente somos ingnoranti!


Crédito da ilustração: fernandofidelix.blogspot.com

Um bom texto do professor e linguista Sírio Possenti, em seu blog no Terra Magazine.

Continuamos nos atrapalhando e confundido escrita com fala. Nos atazanamos com as regras gramaticais.

Queremos sempre mudar tudo para tentar chegar a algum lugar onde não iremos chegar.

É de tudo isso que trata o texto.

Deliciem-se.


[Tenho dificuldade em entender pessoas que (me) dizem que não conseguem compreender aulas de gramática. Confesso que, no interior de Santa Catarina, no então segundo ano primário, com 8 anos, embora tivesse um conjunto de dificuldades específicas, sobretudo para escrever certas palavras, pelo fato, entre outros, de estar aprendendo a falar português (minha língua materna é um dialeto italiano), traçava sem problemas as inúteis aulas de gramática, que se limitavam, é verdade, à análise sintática de frases simples. Mas era o segundo ano primário! Nos primeiros anos do então ginásio, aprendi latim, e a base das aulas eram os casos, as declinações, que exigiam, dado o método, que se compreendessem claramente as noções de sujeito, objeto direto, indireto, locativo etc. 

Me espanta, sobretudo, a dificuldade que (quase) todos revelam para compreender fatos rudimentares em relação à escrita.  Dou um exemplo concreto.

No dia 7/7/2014, o Jornal da Cultura (noturno) comentou que há novo projeto de reforma ortográfica (uma Comissão do Senado está analisando e há alguma simpatia por ele, em geral devida à ignorância). O texto da repórter, na rua, e também o da apresentadora, no estúdio, mostraram algumas confusões (tratar ortografia como gramática, por exemplo). Mas deixemos isso de lado.

A reportagem cita breves comentários de dois dos campeões da nova proposta. Um diz que querem “reformar a reforma” (é até um bom slogan). Só que não houve reforma recente; houve um acordo para unificar um pouco algumas grafias.  Outro declarou que “o ensino (da ortografia) poderá ficar muito fácil”. Erra redondamente, porque a maior parte dos erros de ortografia que se encontram por aí não se solucionam com a reforma proposta, porque decorrem de fatos que ela nem considera.

O referido jornal tem um formato peculiar. Lida uma notícia, dois “especialistas” a comentam. Neste dia, estavam na bancada o historiador Marco Antônio Vila (que eu achava que era funcionário do William Waak, da Globo News) e o ex-deputado e advogado Airton Soares. Eles ocupam lugares diferentes no espectro ideológico, o que resulta em avaliações conflitantes sobre os fatos noticiados, o que é bom para o espectador.

O problema foi comentarem ortografia. Vila disse que, com as sucessivas reformas, “ninguém consegue escrever direito, ninguém consegue falar”. Olhem a besteira: o que têm a ver as reformas ortográficas com fala? Já Airton Soares informou que “o inglês não tem acento, e eles pronunciam direitinho. Quem sabe possamos evoluir e não precisemos de acento para destacar o lugar em que se deve fazer a pressão vocal na palavra”.

Escrevi tudo isso para chegar a um ponto. É o melhor exemplo de que as pessoas, mesmo as cultas, não conseguem entender questões elementares de gramática.

As gramáticas e manuais são absolutamente claros sobre regras de acentuação (talvez mais do que em qualquer outro tópico). Antes de informar quais são as regras, informam o elementar sobre tonicidade: que as palavras podem ser oxítonas, paroxítonas ou proparoxítonas, isto é, ter a última, a penúltima ou a antepenúltima sílaba acentuada: “picolé / batata / esôfago” são exemplos da cada caso.

Estas sílabas são acentuadas NA FALA! E ninguém ensina acentuação na fala. E todos acertam sempre, com pouquíssimas exceções, pois há alguma variação em casos como “circuito, fluido e ibero”. As palavras em que se pode “errar” não chegam a duas dezenas. Crianças dizem maMÃE e não MAmãe (uso maiúsculas para marcar a sílaba tônica), vovÓ e não VOvó,  brinQUEdo e não BRINquedo ou brinqueDO.

O que se estuda na escola são regras para marcar GRAFICAMENTE (ou deixar de marcar) as sílabas tônicas – que são tônicas ANTES, na fala. As regras dizem que as tônicas das palavras paroxítonas não são marcadas (baTAta, tiJEla, caROço etc.) e que se marcam as tônicas das proparoxítonas (como  “paroXÍtona”)  e das oxítonas (como em “pangaRÉ”).

Assim, a observação de Airton Soares é muito estranha: ninguém precisa procurar o sinal gráfico para saber onde deve fazer o que ele chamou de “pressão vocal”. Nossa língua é basicamente paroxítona, ou seja, a maioria das palavras tem a penúltima sílaba tônica, e até por isso, por economia (ou por default), não são acentuadas na escrita.

Não consigo entender que ele(s) não entenda(m) isso!  E os senadores que vão avaliar o projeto têm esse mesmo nível de compreensão da escrita. Imagine-se onde isso pode parar!]

Nenhum comentário:

Postar um comentário