segunda-feira, 9 de junho de 2014

Não vai ter copa ou não vai ter cópula?




Crédito da foto: rebaixada.org

Um amigo indigenista deixou uma trepada pela metade enjoado e enojado com o discurso feminista da sua parceira. Simplesmente “saiu de dentro”, vestiu a roupa (sem tomar banho, o que é um pecado mortal) e foi embora.

A história é mais ou menos singular: o cara era carioca, vivia em Porto Alegre e a sua parceira em Campinas – a Cidade das andorinhas, a Princesa d'Oeste, a Campinas do Mato Grosso, em meio às Trilhas de Mato Grosso, que levavam os bandeirantes às suas incursões aos interiores brasileiros na preação de índios –; a guria estudava alguma sociologia na Unicamp e militava em um grupo feminista.

Sempre que vou por este caminho sei que minhas amigas feministas – que, aliás, contam-se às dezenas - torcem os seus narizes. Mas vou em frente assim mesmo. É a vida, baby.

Era uma relação saudável entre os dois. O amigo indigenista é quem sempre deveria se deslocar para os encontros esporádicos. Os machos sempre fazem isso; as mulheres quase nunca.

Talvez seja a nossa prova de amor, ou quem sabe de nossa pura possessão, ou, por que não?, a afloração de nossa tara sexista.

Autoritarismo

Tenho pra mim que todo movimento reivindicatório – o feminismo, o movimento negro e até mesmo o movimento indigenista, entre tantos outros – tem como sustentáculo o autoritarismo: a coisa tem de ser assim, como queremos, e não se conversa mais.

Nesse sentido, há um bom artigo na Folha de São Paulo de hoje do filósofo Luiz Felipe Pondé, uma espécie de inimigo número 1 das feministas, dos movimentos sociais e do esquerdismo em geral: “Hobbes de bike”.

Pondé contrapõe Hobbes a Rousseau para dizer que os “movimentos (o feminismo é um deles) são naturalmente oportunistas no sentido que a medicina dá a certos processos infecciosos”.

Ao final do texto, o filósofo identifica os “ativistas” como “Boko Haram da Nigéria e suas meninas raptadas”.

Há um certo exagero nas imagens criadas por Pondé?

Não saberia responder com certeza.

Domínio e aceitação

Dias atrás uma pessoa que conheço (+ -) disse ter “um amor”, que “não é fixo” e ”nos damos bem, e muito bem”.

Não é preciso conhecer com profundidade sociologia e psicanálise para saber do que se trata.

Existem palavras e expressões que definem com clareza meridiana o que está acontecendo (o que, aliás, é uma recorrência).

O macho (que tem uma parceira e/ou compromisso fixa/fixo) aparece de quando em quando para dar uma, para dizer que te amo, que você é a mulher da minha vida, que sem você não posso viver e blábláblá.

Elementar.

É a submissão ao domínio do macho. Toda moeda tem duas faces: opressão e aceitação são irmãs siamesas.

Dias antes havia alertado que ela poderia se transformar em mais uma vítima do sexismo masculino (pois sim, há sexismo feminino também). Não iria, já era.

Brutos e cruéis

O macho normalmente não entende nada de ato sexual. É brutal e cruel. Boa parte das relações sexuais (mesmo as concordes) são estupros violentos, sangrentos e que machucam a mulher.

O sexo anal (quase nunca aceito e não-consentido) está por merecer uma boa pesquisa e análise dos doutos (de preferências, das doutas). Quando isso acontecer, vamos ficar estarrecidos.

A literatura médica já indica que boa parte (praticamente a metade) dos homens tem problemas de ereção, muito em conta de sua afoiteza e de exageros com comida e bebida, quando não, com drogas.

Que mulher suporta ir para a cada com um cara que ejacula precocemente ou demora uma eternidade para erigir ou para finalizar a cópula?

Quando o cara ainda é jovem, na plenitude, ele ainda se safa praticando um sexo brutal, mais parecendo estar furando um poço de petróleo ou fixando um mourão de cerca à enxadada.


Meigas e românticas

Há um dado relegado aos cantos de páginas mostrando que mais da metade das mulheres não gosta de sexo (androfobia).

Isso deve ser fruto da educação que receberam, somada à brutalidade dos homens na cama.

Não foram poucas vezes que ouvi de mulheres com experiência sexual: “vai com calma. Seja carinhoso e delicado”.

E elas têm razão.

Mas muitas apenas gostam da companhia masculina, do ir a restaurantes, do passear de mãozinhas dadas e do flanar por praças e jardins.

É um sufoco e um novelo difícil de desenrolar esse. Já perdi a paciência diversas vezes.

Protestos e protestantes

Não creio muito nos protestos e nas boas (ou más) intenções dos protestantes.

Muito menos em protestos difusos e em reivindicações multifacetadas.

Os protestos, estes mais recentes, como o #naovaitercopa#, mais me parecem um substitutivo para a nossa incompreensão e aceitação da vida como ela é (ou deveria ser).

Um sucedâneo para nossa incapacidade de nos relacionarmos com o outro sentimental e sexualmente (principalmente esta).

Resumindo a história: na impossibilidade que nos impusemos de ter uma relação sexual efetiva, duradoura, amorosa e prazerosa, vamos às ruas protestar, seja lá contra o que for.

Até mesmo contra a copa de mundo que não “vai ter”, embora já esteja acontecendo.

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