terça-feira, 10 de junho de 2014

Esse estranhíssimo mundo chamado São Paulo



Ainda nos tempos da Vila de São Paulo, a São Paulo de Piratininga, habitar ao redor do Pátio do Colégio era uma aventura dolorosa.

Os “estrangeiros”, que tentavam, sofriam inenarráveis suplícios, que poderiam redundar, não raro, em morte.

Quem passasse mais ou menos incólume pela privação poderia ser ou não aceito “como paulista”. Tinha mais essa.

Estávamos na infância do movimento bandeirantista que estendeu as fronteiras brasileiras, preou índios e re-escravizou negros africanos fugidios.

Na sua "Carta pras Icamiabas", Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mario de Andrade, dizia que o paulista era um sujeito esquisito, que falava em uma língua e escrevia em outra.

Nós, paulistas, seríamos o “avesso, do avesso, do avesso” antropomórfico do peruano devasso e comedor de gente, Vesceslau Pietro Pietra, o gigante Piamã, com Fernão Dias Paes, Raposo Tavares e outros assassinos cruéis que tingiram o Brasil de rubro.

A explosão industrial iniciada em meados do século passado inverteu o fluxo migratório. Paus-de-arara iam buscar mineiros e nordestinos em suas terras de origem para tocar as máquinas fabris da “Paulicéia Desvairada”.

Era gente sem valor que deveria chegar a SP apenas para trabalhar e servir. Que não morressem em nossas terras e que em nossa terra não ficassem doentes.

Resmungão

Paulista que se preze é um resmungão. Um eterno insatisfeito e crítico feroz de pessoas e de coisas. Não se perdoa nem mesmo São Paulo e seus paulistas.

Quando ainda éramos adolescentes um amigo resumiu o que é ser paulista: “Isto aqui é uma merda, mas não mudo daqui nem a pau, pois o resto do Brasil é uma merda maior ainda”.

Tenho pra mim, já disse isso diversas vezes, que se de uma hora para a outra o restante do Brasil desaparecesse o paulista iria demandar umas três semanas para perceber o acontecido.

O paulista é um mix, uma mistureba do progressismo laboral com o conservadorismo político-ideológico. Isso reflete, por exemplo, nas eleições estaduais e das cidades (especialmente da capital): Ademar de Barros, Jânio Quadros, Mário Covas, Erundina, Pitta, Marta Suplicy, Kassab, Fernando Haddad.

É um vai-e-vem infernal que nem o mais paulista dos paulistas consegue entender.

Os 5 e poucos milhões de votos que separam Collor de Mello de Lula da Silva podem ser facilmente localizados nas urnas paulistas.

Ué, mas Collor de Mello não é nordestino e paulista não odeia nordestinos?

É e não é. Embora tenha os seus negócios privados nas Alagoas e por lá tenha passado parte da sua infância, o “caçador de marajás” nasceu no Rio de Janeiro, filho de gaúchos.

Nordestino, nordestino é Lula da Silva, que pra maior dos pecados ainda era peão de fábrica e comunista de carteirinha.

Nesse não! Nesse a gente não vota, porque não gosta.

Non dvcor dvco

Muita gente tem estranhado a última pesquisa DataFolha:

“Se as eleições presidenciais fossem hoje e em São Paulo, a presidente Dilma Rousseff seria derrotada pelos seus principais adversários, o senador Aécio Neves (PSDB) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), em um segundo turno.”

“A disputa ficaria em 46% a 34% com vitória para o presidenciável tucano e 43% a 34% entre Campos e Dilma, também com derrota da presidente no maior colégio eleitoral do País.”

“61% dos paulistas não votariam em Dilma de jeito nenhum."

“83% quer mudanças.”

“23% aprovam o atual governo.”

“O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, seria um cabo eleitoral mais influente do que o ex-presidente Lula: 29% votariam em alguém indicado pelo ministro e 23% que seguiriam a indicação de Lula.”

Nenhuma novidade nisso.

Novidade é o Partido dos Trabalhadores já ter elegido 3 prefeitos de São Paulo.

Isso sim é um assombro.

Traduzindo para bom português o lema da bandeira paulista.

“Nóis qué assim, e assim será.”

É ou não é um povo esquisito?

Um comentário:

  1. É, eu vi um comentário legal no FB dizendo mais ou menos assim: "não temos água, não temos mais usp, não temos metrô, não temos segurança. O jeito é reeleger esse governador".

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