quinta-feira, 19 de junho de 2014

A merda da elite escorre para mocambos e favelas




Crédito da ilustração: br.freepik.com

Em nossa lógica cartesiana tudo tem um início. E se tem um início terá um fim. Isso vale inclusive para a Criação, embora detestemos e nos desesperemos com a ideia.

Na eleição presidencial de 1989, que levou Fernando Collor de Mello ao Palácio do Planalto, Mário Amatto, então presidente da ex-poderosa Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), disse que se Lula da Silva vencesse 800 mil empresários deixariam o Brasil imediatamente.

Anos mais tarde, com o PT no poder, ele, pelo menos, fez isso. Foi morar em Miami, o paraíso coxo-cucarachas. Os outros 799.999 preferiram ficar no Brasil, explorando nossos recursos naturais e nossos trabalhadores, e desviando recursos para os paraísos fiscais.

Pode estar aí o germe da desconstrução do PT.

Mas na linha do tempo há um outro ponto importante: a criação do Movimento Cansei, em 2007. É ali que começa a associação do Partido dos Trabalhadores com a incompetência administrativa, com o aparelhamento do Estado (seja lá o que isso queira dizer) e com a corrupção. Segundo essa visão de mundo, antes a corrupção não existia. Ela foi criada por petistas no poder.

Então tá então!

O papel da imprensa

A elite brasileira pode ser acusada de muita coisa: escravocrata, perdulária, exploradora, desumana, cruel, vendida etc. e tal.

Mas pelo menos uma parte dela não tem a virtude da burrice. Muito pelo contrário.

Percebendo que as oposições brasileiras (especialmente PSDB e DEM) estavam sendo “varridas do mapa”, sem capacidade de reação, foi a vez de entrar em cena a Associação Nacional de Jornais (ANJ); e a sua presidente (presidenta?), Judith Brito (2010-2012), não teve pejo em declarar que no Brasil a única oposição que existe é a imprensa.

Dito e feito. De lá para cá foi uma saraivada diária de notícias negativas.

“Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.”

O Brasil é uma merda que o PT conseguiu fazer feder mais ainda. O melhor é ir embora (de preferência para Miami).

Mas quem disse que ela, a elite, queria fazer isso? Vamos ficar por aqui, mas é necessário destronar o PT do poder central.

Pelo menos em parte está dando certo.

O que era um discurso apenas da elite, desceu rapidamente para as estratificações médias da população brasileira, e começa a chegar, pasmem!, aos 3 Ps= os Pretos, os Pobres, as Putas; essa gente largamente beneficiada pelos programas sociais petistas.

Vá entender! Seriam os pobres uma espécie de Marcelo, a marcar gol contra a própria meta? A se conferir na eleição de outubro, mas não se espantem se o resultado for esse mesmo.

Não se ganha eleição presidencial no Brasil sem os votos (majoritários) dos pobres.

Nó górdio

O ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) pegou, finalmente, a coisa: não foi apenas a elite quem mandou a Dilma Rousseff tomar no cu.

"Me permitam, pessoal, no Itaquerão não tinha só elite branca não. Não fui pro jogo, mas estive ao lado [do Itaquerão], numa escola (...), fui e voltei de metrô. Não tinha só elite no metrô. Tinha muito moleque gritando palavrão dentro do metrô que não tinha nada a ver com elite branca".

Eis aí a questão mais relevante dessa história toda: a merda das elites está escorrendo, consistente, para os andares de baixo da sociedade brasileira.

Culpa das elites?

Necas de pitibiriba! Ela está no papel dela.

A culpa é do PT que é frouxo, tíbio, que morre de medo da elite, especialmente da imprensa.

Quem não se lembra do beija-mão de Lula da Silva em Roberto Marinho? Quem não se lembra de Dilma Rousseff no programa da Ana Maria Braga?

Recentemente, coisa de uma ou duas semanas, Lula da Silva, percebendo que a água está batendo na bunda do Partido dos Trabalhadores, e que pode chegar até a sua boca em outubro, durante a eleição presidencial, resolveu sair na porrada com a imprensa (enquanto Dilma Rousseff lança mais um saco de bondades em direção à classe empresarial brasileira).

Vai resolver? Vai dar tempo? Tenho cá minhas dúvidas.

Como se diz no mundo do futebol, o PT deixou de fazer a lição de casa (12 anos é tempo pra caralho, não é não PT?), de educar o população, de explicitar quem é explorado e quem é explorador.

Mas aí o perigo seria perder os ricos caraminguás dos apoiadores ocasionais.

Então tá então! Tudo pelo dindin!

Mas se o barco petista primeiro adernar e depois submergir não me venha colocar tudo na conta da tal da elite.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Como estamos quentando o ovo e reinventando o nazi fascismo



Nós brasileiros gostamos de dizer que foi aqui - e só aqui - que ocorreu essa “mistura de raça e de cor”.

Culpa em parte (ou culpa total) cabe ao hiper-conservador sociológico Gilberto Freyre, e seus devaneios afro-tropicalistas.

Apenas um cara teve coragem de detonar o pensador (sic) pernambucano: Fernando Henrique Cardoso.

Aqui, na Colômbia e no Peru – só para citar mais dois exemplos – aconteceu a mesma “mistura de raça e de cor”, o que não nos faz melhor ou pior que outros povos e nações.

Na híbrida América há países marcados pelo privilégio índio: México e Equador são dois ótimos exemplos.

Ou pela prevalência branca, com manchas esmaecidas de indianidade e de negritude, como na Argentina e no Uruguai.

Essa mistureba cultural atraiu, nos maluquissímos anos 50,60 e 70, os olhos e as vindas de pensadores e gentes comuns, especialmente da Europa.

Era nóis, mano, frente a um mundo embasbacado.

A coisa mudou muito antes de retornar, mas antes um pouquinho de Cuba.

Cuba Libre

Naqueles anos falar mal de Cuba equivalia a falar bem de Cuba nestes tempos atuais, cruéis e tenebrosos.

Ai de quem ousasse.

As camadas médias e populares, estudantes de classe média, intelectuais e artistas se movimentavam pela luz da Revolução Cubana e pelos olhares do mítico Ernesto Che Guevara.

OK! Já existiam os coxinhas, mas eram insignificantes e medrosos.

Jovens norte-americanos e canadenses venciam 400 km do mar do Caribe, em balsas e em barcos improvisados para ajudar na colheita da cana-de-açúcar cubana.

E viva la revolución!

Revertério

Já nos anos 60 o subcontinente latino-americano começou a ser sacudido por um sem-número de golpes militares (de estado) todos eles, sem exceção, patrocinados pelos Estados Unidos.

Era preciso matar o mítico Che. Era preciso acabar com Cuba. Era preciso deter e exterminar a utopia igualitária, mais índia, que branca ou negra.

Ditadores, prisões, assassinatos, torturas, desparecimentos tornaram o subcontinente latino-americano estéril e espantaram daqui os pensadores e as gentes estrangeiras comuns.

O golpe final veio com o fim da União Soviética e com o sufocamento das utopias igualitárias.

O subcontinente ficou árido e nós viramos cucarachas prontos para migrar para a América nos braços de um coyote.

A reviravolta

A virada do milênio encontra milhões de cucarachas subempregados nos EUA e o neoliberalismo destroçado pela própria incompetência.

É nesse cenário que surge gente como Hugo Chaves e Lula da Silva.

Mas surgem pianinhos, admitindo todas as teses, modos e feitos do moribundo capitalismo.

As teses revolucionárias e revolucionadas foram mantidas no quartinho da empregada.

A ordem é consumir. É fazer do índio, do pobre, do preto mais um consumidor de bens não duráveis e os de durabilidade efêmera.

É a revolução proto-burguesa petista, chavista, bolivariana.

Fidel quase teve um piripaque. Che revirou na tumba.

Mas mesmo assim Chaves e Lula assustam.

Nossos estanceiros e nossos senhores de engenho não estão acostumados com tanto pobre na fila dos supermercados, passeando em shopping center e viajando de avião.

O renascimento da direita latino-americana vem desse confronto de alteridades.

Nas oropas

Assim como na Europa acossada pela migração de pretos africanos, gentes do Leste Europeu e barbudos islâmicos.

Michael Löwy, na Ilustríssima deste último domingo, destrincha “Dez teses sobre a ascensão da extrema direita europeia“.

“O novo fascismo espreita o Velho Continente”
[O resultado das eleições para o Parlamento Europeu, no fim de maio, registrou na prática o fortalecimento dos partidos de extrema direita no continente. Para sociólogo, discurso com que esquerda explica o crescimento do fascismo pela via da crise econômica reduz fenômeno e deixa de lado suas raízes históricas.].

Bem a propósito, pois vem pouquíssimos dias depois do “Dilma, vá tomar no cu”, na Arena Corinthians, em São Paulo.

Assim nasce e cresce o nazi fascismo.

É muito fácil encontrar nas ruas alemãs, na antevéspera da ascensão de Hitler, gente como Mainardi, Azevedo, Aécio, Serra, Gentilli.

Estamos quentando o ovo.

O ovo da serpente.

Depois não reclame.

domingo, 15 de junho de 2014

Como adquirir educação com cartão de crédito



Em Manaus, por quase seis anos, trabalhei com um sujeito chamado Renato Andrade. Ele tinha grana, não precisava trabalhar, mas assim mesmo trabalhava no antigo Banco do Estado do Amazonas (BEA), do qual eu era assessor de comunicação e ele do cerimonial da instituição.

Homossexual, Andrade não tomou os cuidados devidos. Foi um dos primeiros sujeitos que conheci portador de HIV e faleceu prematuramente, abatido por uma doença oportunista qualquer.

Era um cara que gostava da vida, sempre alegre, brincalhão, inteligentíssimo, e apesar de amazonense preferiu morrer no Rio de Janeiro, cidade que adorava.

Além do Rio, adorava também Nova York e Paris para onde ia todo ano.

Após as férias e as viagens aos EUA e à França, a volta de Renatinho ao trabalho era sempre uma delícia.

Centenas de histórias divertidas a contar, observações argutas sobre os países, as cidades e seus moradores.

Mas o melhor Renatinho dedicava aos brasileiros que encontrava nas salas de embarque dos aeroportos.

“Uns jecas, que falam alto, se exibem o tempo todo numa disputa barulhenta para ver quem tinha pago mais caro por um badulaque qualquer comprado de Nova York ou em Paris.”

Assim como Renatinho, um sujeito mais velho que conheci em SP e que ia com regularidade a Londres procurava não se identificar como brasileiro quando por acaso cruzava com essas hordas de brazucas endinheirados em algum canto da capital inglesa.

Renato Andrade leu como poucos a alma grosseira e ignorante do brasileiro que subiu na vida sabe–se lá ancorado em que degrau da economia e dos privilégios escusos.

Dilma

É essa gente diferenciada e endinheirada quem mandou a presidente Dilma Rousseff tomar no cu na abertura do mundial, semana passada, em São Paulo.

Gente grosseira, sem argumentos porque ignorante, agressiva porque se acha acima do bem e do mal, porque imagina que a grana vai lhe salvar das garras de justiça, assim como lhe salva por não pagar impostos, por corromper pessoas, por remunerar mal os seus empregados e por desviar dinheiro para paraísos fiscais.

Como lembrou Luiz Caversan, as gentes pobres e humildes da Zona Leste paulistana (onde ocorreu a ofensa) não fazem isso, porque se fizerem vão acabar “levando um tapa na boca”.

Pobre não sonega, não desvia dinheiro para paraísos fiscais e ainda paga regiamente as suas contas.

E não manda mulheres, muito menos as idosas, as mães e as avós, e ainda por cima presidente de uma nação tomar no cu.

Educação não se compra em supermercado, nem em shopping center; não chega por delivery e nem é possível parcelar no cartão de crédito.

Ela vem de casa. Vem do berço. Vem da mãe e do pai. Dos avós, dos tios e dos vizinhos.

Quem tem tudo isso, tem. Quem não tem, nunca terá.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Ofender a presidente Dilma não tem mistério: é burrice simples mesmo




Vaiar a Dilma é válido, agredi-la é escatologia pura. A esquerda está chorosa e se socorrendo de um dos maiores reacionários que esta Pindorama já produziu, Nelson Rodrigues, e aquela sua cretinice do “complexo de cachorro vira-lata”.

Na hora do desespero vale tudo. Até unir as pontas do novelo ideológico.

Mas usar Nelson Rodrigues para atacar “as elites” é estúpido.

Não se trata de complexo de vira-lata. É mais complexo e mais sério que a vã filosofia esquerdista possa imaginar.

Se conheço bem Dilma Rousseff, e conheço, ela está furiosa. Ou melhor, furiosíssima.

Rousseff disse entre seus botões ou debaixo de seu cabelo: “que grandessíssimos filhos da puta. Foi pra isso que me torturaram, que me violentaram, que me julgaram, que me condenaram e que me deram dois anos de cana-dura? Que porra!”

Todo brasileiro e todos estrangeiros que moram no Brasil deveriam beijar os dois pés de Dilma todos os dias, por vários motivos.

O primeiro e o maior deles porque Dilma é mulher.

Não é fácil ser mulher num País de miseráveis machistas como este.

O segundo porque é a presidente, a primeira presidenta (como gosta de dizer) deste País pleno de miseráveis machistas.

O terceiro porque é uma boa presidente, apesar de alguns pecadilhos que comete, como cometeu Lula da Silva e, por que não?, Fernando Henrique Cardoso.

Na boa. Quem deveria ter ido tomar no cu era o Lula da Silva, que é meio canastrão e meio cafajeste, e foi quem armou todo esse circo da Copa sozinho, deixando que a bomba explodisse no colo de Dilma.

Mas, esperto, ele nem estava lá. Estava em casa ouvindo o vai tomar no cu pela TV.

Assim não dói.

Dilma, quase em final de primeiro mandato, falhou nas duas pontas sociais.

Desprezou os pobres, com sua megalomania desenvolvimentista. Como lembrou bem recentemente uma líder indígena, Dilma quer que os pobres tomem banho de chuveiro quente, andem de carro próprio e possam comprar porcarias e desnecessidades no supermercado da esquina.

Insuflou a gastança do outro lado da sociedade, que é pouco lida, pouco culta, nada inteligente, que só gosta de se exibir e de gastar dinheiro.

Quem levou essa branquelada de classe média para as cadeiras do Itaquerão foi o PT ao aceitar as “regras herméticas” (JBJ) da Fifa.

Quem sustenta essa cambada de inúteis despolitizados que admira Miami e roupa de grife é o PT , que se pendura no agronegócio, na destruição da natureza, nos evangélicos, no desrespeito e na violência contra as camadas mais vulneráveis da população.

É o PT quem enche as burras da rede Globo, do Estadão, da Folha, da Veja...

Tomar o cu não é nada higiênico, dói e é uma insensatez.

Mas quem sabe seja necessário para que o Partido dos Trabalhadores veja onde vai amarrar direito o seu burrinho nos próximos anos (sem estuprá-lo, por favor!).