quarta-feira, 7 de maio de 2014

Seletividade: os justiceiros chacinam pobres como eles




Crédito da fotomontagem: noticias.uol.com.br

A violência – preferencialmente – atinge mais as pessoas dos chamados grupos vulneráveis (os vários tipos de pobres). E ela, violência, não parte apenas do Estado, mas também das camadas sociais mais elevadas e, pasme, principalmente no interior das próprias comunidades carentes, vide o caso desta semana da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, justiçada em sua comunidade (Morrinhos), no Guarujá, no litoral paulista.

Há uma seletividade nesse inenarrável número de justiçamento brasileiro, como advoga bem Ariadne Natal, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), também autora de tese sobre casos de justiçamentos sumários ocorridos na cidade de São Paulo e região metropolitana, de 1980 a 2009.

A propósito de Ariadne Natal e sua tese leia mais no blog A Procura - Linchamentos não são aleatórios e atingem mais pobres, defende pesquisadora.

Você precisa ser um bocado pobre (que no Brasil somam-se aos milhões), morar numa comunidade carente (urbana e rural) e ainda ser um ponto fora da curva do moralismo vigente aí: traficante, estuprador, satanista e coisas do gênero.

Vale também pegar alguém por engano, como foi o caso de Fabiane.

Se você tem esse perfil e isso já aconteceu com você, certamente não está lendo este artigo.

Você nunca viu um cara de classe média e das classes mais altas ser justiçado, viu?

Não viu não, pois esses casos não existem.

E não existem por quê? Porque há uma ação protetiva ao redor dessas pessoas, rede protetiva que não compreende apenas os de suas classes sociais, como igualmente os aparatos repressivos do Estado e – pasme mais uma vez – as próprias comunidades vulneráveis.

Imagine executar um cidadão de bem, que trabalha muito, que paga os seus impostos e blábláblá!

Emaranhado perigoso

O próprio enunciado “cidadão de bem” já é por si só excludente, ao dividir a sociedade entre os de bem e os do mal.

E pasme pela terceira vez: as populações vulneráveis (quer dizer, os pobres) aceitam cordeiramente este senso comum.

Daí que estamos a um passo do justiçamento de nossos iguais.

Quase ninguém gosta de abordar a questão da violência por este prisma (não é politicamente correto): boa parte da violência contra a pessoa parte de pessoas tão pobres, carentes e vulneráveis como a (s) própria (s) vítima(s).

São os agentes da execução, como são agentes do atropelamento dos direitos indígenas madeireiros, coletores, vaqueiros, garimpeiros – gente tão ou mais ferrada socialmente quanto são os “nossos índios, nossos mortos”.

Vá dormir com um barulho desses!

É melhor colocar tampões nos ouvidos, fazer de conta que esse ruído não existe e dormir o sono dos justos.

Dedo na ferida

Se não colocarmos os nossos límpidos dedos nessa fétida ferida não vamos a lugar algum.

Vamos continuar acusando a ausência do Estado nas comunidades vulneráveis (o que em parte é balela pura) e apoiando ações violentas não apenas de grupos paramilitares, como da Polícia Militar.

Vamos dormir em paz até que um dos nossos seja vítima dessas atrocidades todas.

Ah, mas se a vítima for a nossa empregadinha doméstica ou um de seus parentes a gente faz cara de condolência e vai arrumar outra para fazer o trabalhinho sujo lá de casa.

É correto dizer que apenas a Educação pode nos tirar da barbárie onde estamos inseridos, e pedir ao governo mais investimentos no ensino público?

Correto é, mas não vamos perder de vista que educação mesmo começa em casa, e boa parte desses justiceiros todos (se não a totalidade) não teve nenhuma educação em suas respectivas famílias, sejam elas quais forem.

O que se quer dizer é que o buraco é bem mais embaixo.

E para tapá-lo é preciso sim uma ação enérgica de Estado, ação que passa, inclusive, pela regulamentação e saneamento das concessões públicas dos meios de informação, onde está boa parte dos apoiadores e incentivadores dessa violência toda, e de onde os justiceiros tiram razões para praticar o que praticam.

Ah... e não se esqueça de clicar no link acima para ler a matéria sobre Ariadne Natal e sua tese.

Nenhum comentário:

Postar um comentário