quinta-feira, 15 de maio de 2014

Proseando: violência, desesperança e vida




Crédito da ilustração: www.influx.com.br

Andar por estes estradões goianos é sempre uma experiência interessante. É fácil encontrar algum proseador, e hoje foi a vez de um taxista, razoavelmente jovem, que está um bocado assustado com a violência, com a barbárie dos linchamentos e com o pouco caso do governo.

Disse ter hora pensar em deixar o País.

Não vai fazer isso não, apenas pensa: tem família, um carro, um emprego de onde tira o seu ganha pão.

O discurso dele é recorrente. O País parece ter perdido o prumo. “É falta de religião, de Deus”.

Em grande medida tem razão. Sem referências e sem regras fazemos o que nos vem à cabeça.

Mas a fala dele – e dos outros também – espelha uma outra realidade sobre a qual teimamos em não refletir – até porque não sabemos, até porque não podemos: para sobreviver é preciso trabalhar. Gastar a vida em empregos e ocupações, criar nossas famílias e esperar que a velhice nos seja leve e a morte calma.

Nunca perguntamos por quê. Que valor tem isso tudo?

Talvez pouco – ou nada – saibamos do “ócio criativo”, do qual fala Domenico De Masi, ou das sociedades primitivas que sequer conhecem o trabalho e o seu valor.

Estamos aqui para trabalhar e criar proles que vão fazer exatamente a mesma coisa que fazemos?

O guru zen-budista Bhagwan Shree Rajneesh (Osho) – veja mais aqui e aqui – prega a busca da ascese, da iluminação, do satori, da libertação – seja lá que nome se dê a isso – pelo sexo.

Em resumo: faça sexo todos os dias, de preferência mais de uma vez por dia.

Uma amiga – com o casamento todo atrapalhado – procurou um dos grupos do Osho. Saiu correndo quando lhe pegaram nos peitos e acariciaram a sua xoxota.

Não entendi o que ela foi fazer lá. Buscar a iluminação olhando para a chama de uma vela?

O máximo que conseguiria era perder a visão.

Sexo... sexo... sexo

Quando estava de mudança para a Amazônia um sujeito me procurou perguntando se eu não poderia trazer para ele – quando voltasse – “umas coisinhas de índio. É que eu já estou com problemas de ereção”.

“Uma índia?”, perguntei.

Ele queria umas beberagens, uns afrodisíacos.

Disse-lhe que isso tudo era uma grande besteira. Que arrumasse (ele tinha dinheiro para isso) umas amantes (até porque a mulher dele era chata pra cacete), comprasse um apartamento para cada uma delas que tudo estaria resolvido.

Trabalhei com uma loura, daquelas esvoaçantes, que tinha o cabelo avermelhado, e mais sulcos na face do que a Amazônia de igarapés.

Perguntei-lhe há quanto tempo não transava. “Há três anos”.

Um belo dia chegou toda alegre, com um sorrisão orelha-a-orelha, sem mais da metade das rugas na cara.

Disse-lhe que tinha trepado.

“E muito! A noite toda. Mas como você sabe?”

Tínhamos uma colega em estágio mais avançado de debilidade. Fiz a mesma pergunta.

“Há 10 anos.”

Disse-lhe que tinha de voltar a usar logo se não o trem fechava, cicatrizava e ficava só um risquinho cercado de pelos por todo lado.

Foi o que fez. Mas desandou. Tive de intervir de novo, lembrando que o que não falta nesse mundo são psicopatas que retalham mulheres ou as atiram da janela do apartamento.

Moderou, mas não parou. É toda felicidade.

O meu amigo da beberagem indígena provavelmente aderiu ao viagra.

Isso é uma estupidez. Um outro cara que conheci usava viagra toda semana. Eu alertei, mas ele não levou em consideração. Seu coração explodiu e ele nem 50 anos havia completado.

Pomadinhas vaginais, viagras, estimulantes... nada disso resolve coisa alguma. Nada como umas preliminares de Osho para que tudo volte ao normal, tenha lá que idade você tiver.

Tem um preto velho na praia de Pipa, no sul do Rio Grande do Norte, que é um assombro: come todas as turistas.

Há um turismo sexual invertido (por duas razões). É o peixe? O camarão? Os crustáceos em geral? Sei lá. Sei que faz fila.

Neurose

A questão é que viramos todos uns neuróticos, ou mais precisamente, uns neurastênicos, que só pensamos em trabalhar (mais e mais e mais), pagar a nossas malditas contas e nos esquecemos de viver.

Nos nossos contratos, nas nossas carteiras de trabalho deveria constar uma advertência do Ministério da Saúde. “Trabalhe com moderação. Mas se der, esqueça essa porra do trabalho e vá viver”.

Os últimos sete versos de “Se eu quiser falar com Deus” (Gilberto Gil/1980) são soberbos:

Dar as costas, caminhar /
Decidido, pela estrada /
Que ao findar vai dar em nada /
Nada, nada, nada, nada /
Nada, nada, nada, nada /
Nada, nada, nada, nada /
Do que eu pensava encontrar.

Não pense. Faça. Pensar muito dá dor de cabeça e broxa.

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