domingo, 4 de maio de 2014

Os estragos provocados pelo catolicismo na cultura indígena


Crédito da ilustração: imagenshistoricas.blogspot.com

Em meio à morte de dom Tomás Balduíno, bispo emérito da cidade de Goiás, criador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) me deparo com um intenso debate, no Facebook, no perfil de um dos grupos organizados indígenas, sobre a proposta de lei anti-homofóbica peruana.

Antes de seguir com o projeto peruano, mais algumas palavrinhas sobre dom Tomás.

Dominicano nascido em Posse (GO), dom Tomás era linha de frente da Teologia da Libertação, lutador sem-tréguas contra a ditadura militar, defensor intransigente das causas indígena e sem-terra.

Figura impar, a qual tive o prazer de entrevistar para um documentário do Instituto Brasil Central (Ibrace), de Goiânia, há alguns anos.

Crédito da foto: correiodobrasil.com.br
Não são poucos os dom-tomás-balduíno na Igreja Católica, mas, infelizmente, pouco já se pode fazer contra os estragos provocados pelo catolicismo junto às comunidades indígenas e os desvalidos da Terra de toda América.

Em seu artigo de hoje na Folha de São Paulo (O milagre da santidade) Hélio Schwartsman diz que “As relações entre ciência e religião são uma coisa complicada. Na comparação com outros credos e denominações, a Igreja Católica até que não se sai tão mal. Apesar do que fizeram com Galileu e outros cientistas, os católicos têm pontos a seu favor. Criaram as universidades e, através de algumas ordens muito atuantes na educação, ajudaram a disseminar o saber.”

Eis uma questão relevante: serão saberes (que saberes?) ou imposições de modelos concebidos no exterior e à revelia da realidade índia?

Aliás, esse é um pecadinho (pecadão) praticado não apenas pelas religiões (especialmente as hegemônicas, como o cristianismo), mas igualmente por sistemas políticos de direta e de esquerda. Vide o caso do desenvolvimentismo proposto pelo Partido dos Trabalhadores.

Talvez na latino-américa apenas Hugo Chaves (Venezuela) e, agora, José Mujica (Uruguai) tenham proposto alguma coisa que vá ao encontro do sonho de um grande pan-americanismo índio.

Voltando ao Peru

Acompanhando o debate do grupo indígena peruano a respeito da lei anti-homofóbica não me surpreendi com a “raivosidade” dos participantes.

Exceção a um sujeito que defendeu a propositura, mas em termos, o restante atacou a “ley de cabrones”.

Não apenas esse grupo (não vou revelar o nome de nenhum deles), mas muitos dos grupos organizados indígenas têm posições ditas conservadores, que mais servem aos grupos opressores, que aos interesses índios.

Posto isso, é forçoso reconhecer que 500 anos de catequese praticamente explodiram a cabeça dos índios que ainda restam nesta nossa América Latina.

Com raras exceções, esses grupos quase sempre replicam – sem se dar conta do que estão fazendo – valores alienígenas e alienantes vindos da Europa cristã.

Anos e anos de atuação de professores, pesquisadores e de ONGs não foram suficientes para alterar esse quadro, até porque, especialmente as organizações não governamentais, igualmente se pautam por valores ocidentais-cristãos.

E aí temos de voltar, necessariamente, a um dos primados da Teologia da Libertação (apesar de seu catolicismo): é preciso pegar a nossa própria história em nossas próprias mãos.

Vamos conseguir?

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