terça-feira, 29 de abril de 2014

SOMOS TODOS MACACOS: Uma banana do Zanin para a intolerância e a ignorância



Enquanto gente mal-humorada, mal resolvida, mal amada e vá saber de que outros males esta gente sofre (há até o anúncio de uma campanha a começar amanhã contra o # somos todos macacos # - pois sim, # somos todos macacos mesmo#) o jornalista Luiz Zanin dá uma aula de civilidade em um saboroso texto no Estadão (É só uma banana? -  http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,e-so-uma-banana,1159873,0.htm) sobre o episódio envolvendo, no último domingo, o jogador Daniel Alves do Barcelona.

Zanin não se furta a lembrar de “o absurdo da agressão racista”, de que “a atitude de Dani Alves não resolve o assunto” e de que os comportamentos racistas devem ser mais do que alvo de campanhas beneméritas, mas também de ações consistentes da justiça.

No mesmo texto Zanin fala ainda da “despedida” corintiana do Pacaembu, e de como, com o tempo, a imprensa (isso mesmo: isso é coisa da imprensa) transformou o Paulo Machado de Carvalho em casa do Corinthians, coisa que nunca foi.

“...o Estádio Municipal, como diz o nome, pertence a todos os paulistanos. Os locutores antigos se referiam a ele como ‘o próprio da municipalidade’. E é isso mesmo. Não podemos perder certas coisas de vista. Bem público não se privatiza.”

Gente inteligente, civilizada e bem resolvida é outra coisa.

Dá-lhe Zanin!

Vamos ao texto

[Amigos, o velho Freud dizia que às vezes um charuto é apenas um charuto. Quer dizer, em certas ocasiões, aqueles aromáticos havanas que ele fumava não eram símbolos fálicos, mas apenas tabaco para seu uso e gosto. Processo mental semelhante fez o Daniel Alves ao comer a banana que fora atirada em sua direção no jogo contra o Villarreal.

A simbologia racista do gesto é evidente: associar negros a macacos, retirando-lhes a humanidade. Com tranquilidade, ao comê-la, Dani reduziu a banana àquilo que ela é: apenas uma fruta, rica em potássio e açúcares. Expropriou da fruta sua conotação pejorativa e expôs ao ridículo o seu agressor. Simbolicamente, ao comer a fruta, Dani "deu uma banana" ao palhaço que tentou diminuí-lo.

O gesto do brasileiro, sabemos, percorreu as redes sociais e recebeu apoios no mundo inteiro. Imagino que Daniel Alves não o tenha planejado. De modo genial, encontrou a solução de bate-pronto, como fazem os craques. Devolveu o insulto na forma da ironia, que é a melhor maneira de fazê-lo. Usou a sintaxe e a situação do jogo para defender-se e expor o absurdo da agressão racista. E ao usar a exposição mundial das partidas do Barcelona, universalizou seu gesto altivo.

Claro que a atitude de Dani Alves não resolve o assunto. Seria ilusório achar isso. O racismo, já dissemos isso por aqui, tem de ser combatido como crime que é. Parece que existe uma preocupação da Fifa e de todas as entidades a ela filiadas de que esses atos repugnantes deixam de existir. Falta só um pouco de ação.

Nesse sentido, vejo até um certo aspecto positivo no futebol globalizado. Eu, que sou um crítico da globalização do esporte, porque entendo que não passa de exercício do poder econômico dos grandes clubes contra os fracos, tenho de admitir outro lado. É apenas pela presença de jogadores de outros continentes que as equipes europeias começaram a se tornar multirraciais.

Essa convivência multiétnica há de ter, talvez a longo prazo, a virtude civilizatória de diminuir o racismo. Se o indivíduo racista tem em seu clube do coração um grande atleta negro, haverá de pensar duas vezes antes de considerá-lo um ser inferior.

A humanidade progride aos pouquinhos. E às vezes regride, mas não podemos perder a esperança.

Outro fato do fim de semana que me tocou: a "despedida" corintiana do Pacaembu. Foi bonita a festa, pá, mesmo se levarmos em conta que o adeus pode ser de curto prazo, pois se houver jogo de volta contra o Nacional (AM) pela Copa do Brasil o velho Estádio Paulo Machado de Carvalho terá de ser usado. De qualquer forma, fica o fato de que o Corinthians vai agora para sua casa mesmo, o Itaquerão, e retornará no futuro ao Pacaembu sem ser mandante. Foi uma bela história entre o time e o estádio, mas não se pode dizer que o Corinthians tenha se despedido da "sua casa", pois o Estádio Municipal, como diz o nome, pertence a todos os paulistanos. Os locutores antigos se referiam a ele como "o próprio da municipalidade". E é isso mesmo. Não podemos perder certas coisas de vista. Bem público não se privatiza.

Como todos os torcedores paulistanos, vi meu time jogar muitas vezes no Pacaembu. Menino da capital, foi lá que me encantei definitivamente pelo futebol ao vivo, levado por tios, amantes do jogo da bola. Minha mãe contava ter desfilado na inauguração do estádio, em 1940, quando era normalista.

Cresci ouvindo histórias e as vivendo nesse velho estádio. Os mais experientes lembrarão da Concha Acústica e da Estátua de Davi. A primeira foi demolida para dar lugar ao tobogã. A estátua parece que terminou no Tatuapé, após ser removida do campo. Ficaram na nossa memória, esse espaço virtual que sobrevive à depredação da metrópole.

Numa cidade que não prima pelo gosto estético, o velho Pacaembu ocupa posição privilegiada. Encravado naquele vale, num ponto central da cidade, é modelo raro de elegância arquitetônica.

Para mim vale muito mais que dez insípidas arenas "padrão Fifa". O Pacaembu é de todos nós. Nossa casa, independente de qual seja o nosso time.]

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