sábado, 29 de março de 2014

Das pirâmides na Amazônia às mortes na imprensa



O jornalismo deveria ser mais cuidadoso, mas não é. Melhor: nunca foi. Nos anos 70, com um bocado de estardalhaço, o jornal O Estado de São Paulo deu um baita de um furo de reportagem: a descoberta de três pirâmides em plena Amazônia brasileira.

A notícia “em primeira mão” foi passada ao correspondente do jornal em Manaus por um chileno que se dizia artista plástico.

O jornal imediatamente mandou de avião o correspondente e o chileno-artista para fotografar e testemunhar in loco a espetacular descoberta.

O avião nunca chegou ao local. O piloto disse que não havia combustível para tanto e não tinha como reabastecer a aeronave naquelas imensidões sem cidades.

Dias mais tarde foram fotografados alguns morretes lá pras bandas de Roraima, que o chileno-artista jurava serem as tais das pirâmides.

Não eram. Eram morretes já chegando lá pelos lados das escarpas na fronteira do Brasil com a Venezuela, onde, aliás, se encontra o soberbo e espetacular Monte Roraima.

Não se tratava de um furo de reportagem (notícia em primeira mão que só um veículo de informação tem), mas de uma “barriga”, notícia furada, inverídica, fake.

Em tempos de internet esse bobajal continua circulando:


Quem acredita em coisas que circulam na web deve ter uns 12 parafusos a menos na cabeça. O restante está solto.

Uns 25 anos depois o chileno-artista me procurou, em Manaus, onde eu era correspondente do jornal Folha de São Paulo com uma outra história maluquinha como essa das pirâmides.

Não me lembro mais ao certo sobre o que era: ou rios que borbulhavam ou óvnis – coisa do tipo.

Como ele não conseguia vender seus quadros pra ninguém, achava de inventar essas maluquices para “alavancar seu nome e sua arte”.

Anos mais tarde foi a vez de Veja com a história do boimate, uma mistura de boi com tomate.

Só pelo esdrúxulo nome já dava para perceber que se tratava de uma bobagem sem tamanho.


Pelé morreu

A CNN matou Pelé. Despois não matou mais, e reconsiderou. A imprensa já havia matado “Oprah Winfrey (suicídio), Céline Dion, Adam Sandler (acidente de snowboard), Miley Cyrus (suicídio causado por estresse pós-traumático), Justin Bieber (acidente de carro), Sylvester Stallone e Renato Aragão, entre outros” (http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-fabrica-de-boatos-da-internet-e-a-historia-por-tras-da-morte-de-pele-anunciada-pela-cnn/).

A melhor frase sobre as mortes não morridas continua sendo a de Mark Twain (citada na matéria do DCM) que “um dia disse que as notícias a respeito de sua morte eram bastante exageradas”.

Há uma velhíssima tirada que diz o seguinte: se você souber como são feitas a gelatina e os jornais você não consome nenhum dos dois.

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