segunda-feira, 3 de março de 2014

A fé, a inteligência e a moda lutam no mundo moderno





O número de ateus está crescendo em todo o mundo, certo?

ERRADO!

O número de ateus e agnósticos (agnóstico é um cara para quem é inútil discutir temas metafísicos, pois são realidades não atingíveis através do conhecimento) tem decrescido de forma cavalar nestas últimas duas décadas (já voltamos aos números).

A grande pedra no sapato dos ateus é justamente um agnóstico: o filósofo, matemático e físico francês, Blaise Pascal (século 17), autor da obra póstuma Pensées.

Na obra, Pascal inverte a proposição ateia, instigando o ateu, em um desafio, a reconhecer “a sua incapacidade de acreditar, já que a razão te trouxe a isto, e você não consegue acreditar. Esforce-se para convencer a si mesmo, não através de mais provas de Deus, mas pela redução de suas paixões. Você gostaria de ter fé, mas não sabe o caminho; você quer se curar da descrença, e pede um remédio para isto. Aprenda com aqueles que estiveram presos como você, e que agora apostam todas as suas posses. Existem pessoas que sabem o caminho que você vai seguir, e que se curaram de todas as doenças que você ainda será curado...”.

O filósofo e ensaísta brasileiro Luiz Felipe Pondé, autor de o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, é um pascalino na essência, e estuda, entre outras coisas, as religiões.

É de seu artigo de hoje na Folha de São Paulo (Sociologia do ateísmo) que nos vêm os números a que se referiu acima.

[Suécia: em 1999, 85% se diziam ateus; em 2001, 69%; em 2003, 74%; em 2004, 64%. De 1999 até 2004 há uma variação para baixo dos ateus assumidos.
Dinamarca: em 2000, 80% se diziam ateus; em 2003, 43%, e em 2004, 48%. Ainda que tenha havido um pequeno crescimento entre 2003 e 2004, a queda entre 2000 e 2004 é evidente.
Noruega: em 2000, 72% se diziam ateus; em 2003, entre 54% e 41%; em 2004, 31%. Também queda.
Finlândia: em 2000, 60% se diziam ateus; em 2001, 41%; em 2004, 28%. Também vemos uma redução dos ateus assumidos.]

Ora pois, pois, pode-se acusar Pondé de muita coisa – de antifeminista, de odiador dos movimentos sociais, de conservador e até (às vezes) de reacionário -, mas não de um pensador desonesto; de um falseador de números e dados.

Selando o gado

A enumeração de suecos, dinamarqueses, noruegueses e finlandeses é proposital e correta, pois, reza o senso comum (ah... o maldito senso comum!), que os seus países chegaram ao ápice do Iluminismo, portanto da civilização humana.

Pelo jeito chegaram, não gostaram do que viram e voltaram pra trás.

Não é preciso grande contorcionismo intelectual para perceber que a tese do crescimento do número de ateus e agnósticos é desonesta e inconsistente.

Basta olhar ao redor, e ver a quantidade de pessoas que frequentam missas e cultos cristãos; que aderem ao que hoje em dia se convencionou chamar “religiões new age”; e ver, ainda, o crescimento exponencial do islamismo e do budismo (nas suas várias vertentes) no mundo ocidental e na África.

Menos ateus e mais agnósticos, na verdade os defensores do decréscimo da crença e da fé são os “inteligentinhos”.

E aí temos de voltar a Pondé, pois a expressão é dele: “inteligentinho” é aquele sujeito (homem ou mulher) moderninho/a, antenado/a às últimas tendências do “mundo civilizado”, gente que faz campanha pela internet por índios e mico estrela; que se indigna com pobres sendo espancados por playboys nas ruas; que vai a todos os lançamentos de livros, a vernissages e a exposições de vanguarda; e que até tem bom gosto na literatura e no cinema.

Mas que eu não me aventure a defender o direito de minha mãe de ser evangélica, ou a dizer que os nossos bravos e indômitos índios são indisciplinados, ou que os afrodescendentes são mais machistas que os brancos.

É bem capaz de os “inteligentinhos” deixarem a sua modernidade hedonista de lado e se armarem de paus e pedras.

Antes que Pondé forjasse o seu “inteligentinho” já corria solta pelas ruas a expressão “modinha” que quer dizer exatamente a mesma coisa: o hedonista que quer sempre estar antenado com o discurso da moda (de preferência, de vanguarda; de preferência politicamente correto), seja a moda (da hora) que porra de moda for.

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