quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Se errar é humano imagine persistir no erro


Reprodução da capa da revista Veja de outubro 2012, edição 2.290.

Tive uma aluna na escola de jornalismo da Universidade do Amazonas (Manaus) que também era repórter de um dos jornais no qual eu trabalhava na capital amazonense, nos anos 80.

Ela era uma espécie de pré-coxinha, e além de jornalista e estudante era também aeromoça.

Não me pergunte como ela conseguia conciliar essas coisas todas.

Um dia ela chega toda eufórica na redação do jornal querendo espinafrar “o português” desses pichadores de rua (em Portugal se chama pinta-paredes), pois um deles escrevera em um muro da cidade: “herrar é umano”.

Como se vê, Deus não é nada benevolente e justo.

Para Marx, "a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

Entre golpes e contragolpes, ditaduras e ditabrandas, recuos e avanços, dissoluções de gabinetes e fechamento de congressos o Brasil viveu um leve espasmo democrático durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961).

JK foi sucedido pelo “homem da vassoura”, Jânio Quadros, uma espécie de Sílvio Santos da época, que esparramava farinha de trigo pelos ombros de seu paletó para simular caspa e comia sanduiches de mortadela tirados do bolso do mesmo paletó.

Tudo para se mostrar tal e qual à massa de pobres que o elegiam.

Funcionava.

Mas o grande achado de JQ foi a vassoura que iria limpar o Brasil da corrupção.

Com o inestimável apoio das Organizações Globo, especialmente do Jornal Nacional, a estratégia janista foi repetida em 1989 com Fernando Collor de Mello, o “caçador de marajás”.

Nas duas cruzadas sebastianistas contra a “imoralidade pública” brasileira só faltou mesmo D. Sebastião, cuja alma ainda pena e vaga por Alcácer-Quibir.

Mas nunca faltaram os messiânicos, os prestidigitadores, os ledores de mãos e de vontades.

Assim como não faltaram os crentes e os crédulos para testemunhar os milagres.

O santo

A aventura moralista do homem da vassoura terminou em um impasse político e num golpe militar, colocando um fim à “breve aventura democrática brasileira”.

A do caçador de marajás acabou nas passeatas dos cara-pintadas e num pedido de renúncia.

D. Sebastião se deu mal com os maometanos, acabou morto e nunca seu corpo foi sequer encontrado.

Mas que Karl Marx descanse em paz, pois, por aqui, nesta Pindorama Portuguesa, teimamos em repetir a história como uma farsa-tragédia.

No último final de semana a revista Veja lançou o presidente do STF, Joaquim Barbosa, “o menino pobre que mudou o Brasil”, candidato à presidência da República.

Barbosa já divulgou uma nota dizendo que não será “candidato à nada, meu negócio é a madruga”, mas Eduardo Campos (PSB) quer porque quer que o presidente do Supremo se candidate ao Senado pelo Rio de Janeiro.

Menos por Campos – que aparenta ser um sujeito sensato que apenas está tentando uma última cartada para alavancar a sua candidatura à Presidência da República - o “lançamento de Veja” (escudada pela Classe Média, especialmente a paulista) é de um primarismo farsesco que só mesmo no Brasil pode ocorrer.

OK! Veja conta com o moralismo histérico de parte dos brasileiros e com a infindável ignorância de nosso povo.

Poderia até funcionar... poderia... se Barbosa se predispusesse a tal aventura, o que não parece que vá ocorrer.

Gostemos ou não de Barbosa, com uma coisa a gente tem de concordar: irresponsável e idiota o presidente do Supremo não é!

Já com a imprensa e a Classe Média não devemos ser tão complacentes assim: “Errare humanum est”... mas...

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