domingo, 23 de fevereiro de 2014

O melhor da foto não sai na foto



A fotografia é um produto bidimensional (L/A), onde quase sempre a largura é maior que a altura.

Por si já é uma distorção do real por não ter a terceira dimensão (P = profundidade). Não passa de um flagrante, de um momento eternizado numa imagem sem movimento, sem vida.

Desde criança sempre tive curiosidade por saber o que estava para além das margens de uma fotografia. Desconfiava, e continuo desconfiando, que o melhor de uma fotografia está fora dela.

O número de fotografias em todo mundo deve passar fácil, fácil do quinquilhão. A maioria não serve pra nada. São ruins, malfeitas.

Há bons fotógrafos e muita gente faz da fotografia arte. O que é ótimo. Como viver sem arte?

Mas, porém, no entanto, todavia até mesmo as fotos-flagrantes podem ser falsas, montadas, manipuladas.

Um bom exemplo é a famosa foto do beijo em Times Square, para comemorar o fim da Segunda Guerra Mundial. Falsa. Montada. Posada.

Uma parte considerável das fotografias feitas em guerras, protestos, revoluções são montagens, falsificações; são maquiadas, manipuladas.

Não seja ingênuo. O mundo não começou quando você teve o primeiro orgasmo se masturbando.

Manipulação e falsificação de imagens nasceram bem antes do photoshop.

Conheci um fotógrafo profissional (não vou revelar o seu nome e nem a cidade onde ainda trabalha) que passava parte da semana “flagrando” mulheres desconhecidas tomando banho.

Da experiência ele tirou uma certeza: boa parte delas percebia a sua presença, mas mesmo assim se deixava fotografar em caras, bocas e poses sensuais de propaganda de sabonete.

Mas o que melhor resume a falsidade de uma fotografia são as de crianças cortando-bolo-no-aniversário.

Tudo ali é falso: da cara de alegria da criança à de idiota dos convidados. Dessa falsidade generalizada não escapam nem papi, nem mami que fotografam o rebento: papi e mami estão se lixando para o filhote, mas apenas interessados em vender a sua cria como uma criança saudável e feliz.

Caracoles!

A convulsionada Venezuela está no centro dos debates. Um pouco pela convulsão social e muito mais pela manipulação de imagens (fotos e vídeos): procissões católicas como protestos; prisões violentas e sangrentas em Madrid como se ocorressem em Caracas; e centenas de outras falsificações grosseiras como reproduções de cenas de Rambo e até de guerras na Ásia, como se tudo isso ocorresse aqui e agora no País vizinho.

Há quem acredite (e não são poucos os que acreditam), como há quem acredite em mula sem-cabeça e em alma de outro mundo.

Normalmente quem acredita nessas coisas todas desacredita da ciência e do conhecimento.

E isso faz um enorme sentido, e explica muita coisa.

A crendice (em alguma coisa) vem de longe e se perpetua. Mas não cometa uma injustiça: não a empurre para as sociedades primitivas do início da humanidade que aquela gente que não existe mais não acreditava em coisas imponderáveis e invisíveis.

Por exemplo, segundo Aristóteles, o conceito de alma “surge primeiro como o princípio da organização do ser vivo, sendo utilizada para explicar a complexidade da vida e para articular as diversas funções vitais”.

Ou seja, é a organização da sociedade que leva o ser humano a criar a ideologia e a sistematizar conceitos abstratos para explicar a existência e buscar entender a finitude da vida.

Quanto mais a sociedade se sofistica, mais cresce o número de abstrações, e as abstrações são, por definição, manipulações.

Um exemplo síntese é a guerra do Vietnam. Milhares de pessoas (boa parte delas voluntários) visitavam escolas e centros comunitários para convencer os jovens da importância de se alistar no exército norte-americano e assim combater o “perigo comunista” a milhares de quilômetros de suas casas.

“Nascido em 4 de Julho” (1989), de Oliver Stone (já citei esse filme em outros textos), demonstra como a manipulação da imagem leva à crença e à histeria coletiva, e manda para a morte milhares de adolescentes (muito deles menores de idade) que não passariam, em condições não-ideológicas, de liberdade e de livre arbítrio, de “bons-cidadãos”, de vendedores de máquinas e implementos agrícolas; de professores, corretores de imóveis ou mesmo de políticos ou cientistas.

Portanto, não se espante se seu parente, colega de trabalho ou vizinho mais se pareça um dom Quixote a pelear contra moinhos de ventos nas redes sociais e em rodinhas sociais.

O meio é a mensagem, e a mensagem é manipulável. E há quem acredite em tudo isso. E não são poucos.

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