segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Brasil teima em não sair da barbárie



22% das pessoas que moram no Rio de Janeiro apoiam a ação dos justiceiros (pesquisa Data Folha). Mesmo que fosse um índice isolado já seria preocupante. Mas não é.

Um blogueiro, acho que do Brasil 247, resolveu embarcar na minha canoa: o brasileiro (indistintamente) é violento, sanguinário, sádico, covarde e estúpido.

Estou generalizando? Estou e tenho a história e as pesquisas ao meu lado.

No último sábado o jornalista William Waack levou para o seu programa GloboNews Painel, Oscar Vilhena, professor de direito, José Álvaro Moisés, cientista político, e Marco Antonio Villa, historiador, para debater exatamente isso: sempre fomos violentos ou nos tornamos violentos?

Waak se esmerou (durante todo o programa) em dizer que o Brasil nunca foi tão violento como agora, que as manifestações foram politizadas, que partidos políticos estão por detrás da violência das ruas e que ele está cansado de só ver notícias sobre crimes nos meios de comunicação.

Bem... partindo de um sujeito que trabalha na Rede Globo não é de se levar a sério essa preocupação toda.

Os seus convidados não caíram na armadilha waakiana, nem mesmo o historiador Villa, tido como um conservador e de ideias antipopulares.

Vilhena lembrou que os números desmentem a tese do aumento da violência, Moisés corroborou, lembrando, a título de exemplo, que a cidade de São Paulo ostenta índices de mortes violentas de 10 para cada 100 mil habitantes, índices tidos como aceitáveis pela ONU. Villa assentiu com a cabeça.

Waack ainda tentou uma última cartada, usando São Paulo como exemplo, ao dizer que as pessoas se sentem inseguras de sair às ruas. Moisés rebateu de pronto dizendo que morou em Nova York no momento em que a cidade norte-americana ostentava os mesmos índices de São Paulo (10/100.000) e que nem ele e nem ninguém se sentia “inseguro de sair às ruas”.

Em tempo: embora a relação morte violenta por 100 mil habitante tenha caído na cidade de São Paulo, em outras regiões subiu muito, passando de 25/100 mil, como são os casos da Baixada Santista (SP) e de Maceió (AL).

O índice médio nacional é de 26/100 mil.

Os três lembraram ao expedito jornalista global que o Brasil teve quase quatro séculos de escravatura, e que toda a política brasileira sempre foi marcada por muita violência (vide, lembraram, a Proclamação da República e o Estado Novo).

Notei cá eu de meu sofá dois probleminhas na fala dos convidados: a não referência à morte de índios durante estes 5 séculos da Pindorama Portuguesa e (na fala de Villa) a ideia de que a violência foi exportada para as cidades brasileiras a partir do interior.

O que ele quis dizer, em coro com os paulistas de classe média, é que São Paulo “virou” violenta a partir da migração de nordestinos e suas “peixeiras na cintura”.

Preconceito.

Voltemos aos números

Por que os 22% de apoiadores aos grupos de extermínio (eles passam disso?) preocupam (e muito!)?

Façamos um exercício de alongamento, e estendamos esse índice para o Brasil todo, e teremos 40 milhões de gente apoiando a justiça com as próprias mãos (“olho por olho, dente por dente”... já ouviram isso em algum lugar, não ouviram?).

E voltemos também ao Data Folha que, ano passado, pesquisou apenas universitários paulistas e descobriu que 75% deles (3 em cada 4) apoiam a tortura em delegacia de polícia como método de investigação. Podem acreditar: “como método de investigação”.

Ou voltemos mais para recuperar todas as pesquisas de todos os institutos de pesquisa brasileiros e vamos descobrir que mais de 80% dos luso-pindoramaenses são favoráveis à pena de prisão perpétua e que a metade (50%) é favorável à adoção da pena capital (pena de morte).

Conseguiu ligar os pontos?

Deu pra perceber o quanto somos violentos, sanguinários, sádicos, covardes e estúpidos?

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