sábado, 22 de fevereiro de 2014

O Brasil é um país inseguro, violento e sem leis (?)


Crédito da ilustração: www.terceiromilenionline.com.br

No início dos anos 90 escrevi um monólogo para um concurso de teatro. A personagem tinha pavor das pessoas e de sair à rua. Da janela de sua sala assistia a um mundo em decomposição, cruel, violento, brutal e implacável.

A peça foi de pronto recusada. Há uma boa possibilidade de que ela fosse mal escrita.

Ou que os senhores avaliadores não pegaram o espírito da coisa.

A texto foi inspirado em uma pessoa que trabalhava comigo e via um mundo incendiado diariamente, e numa senhora, cujo rosto nunca vi, mas que passava a vida espreitando com seu olhar assustadiço as pessoas de sua janela.

Passei dois anos da minha vida (1979-1980) fazendo pesquisas para a Igreja Católica (Cimi e CPT) no Mato Grosso do Sul. Boa parte dessa atividade foi dedicada a levantar áreas de conflitos e ameaças a sem-terra e a índios.

Em Campo Grande (a capital do Estado) um sujeito que estudava Direito me perguntou se eu andava armado. Disse que não. Ele disse que deveria, pois era muito perigoso o que eu fazia.

Ele também não pegou o espírito da coisa, mas eu lhe dei uma resposta mais amena: “eu sequer sei atirar. Se eu andasse armado não seria uma boa razão para que alguém me baleasse?”

Até o final do século 15 boa parte do que hoje conhecemos como europeu achava que a Terra era achatada. Essa crença, em grande parte, não permitiu, por centenas de anos, que o ser humano se aventurasse “por mares nunca dantes navegado”, pois o Planeta terminava no horizonte em um grande precipício.

O mito da Terra achatada ruiu com a viagem de Colombo (1492) que culminou na descoberta do hoje continente americano.

O pensamento europeu da época era um retrocesso, pois já no século 5 a.C. matemáticos gregos defendiam a ideia de uma Terra esférica.

1421

Gavin Menzies, um britânico que foi comandante da Marinha e depois virou pesquisador, defende no livro “1421 – O ano em que a China descobriu o mundo” que os chineses se anteciparam em mais de 70 anos aos europeus.

Menzies é alvo de muita crítica, especialmente de historiadores portugueses que têm o seu País como o iniciador das grandes navegações, muito em conta da Escola de Sagres, tão controversa e negada quanto as teorias do britânico.

O texto de Menzies é algo fantasioso e boa parte dos argumentos do escritor é fruto de deduções. Objetivamente ele não apresenta qualquer prova, e nem mesmo a reprodução de mapas antigos – como o Mapa de Cantino, por exemplo – garante o acerto de suas interpretações.

Já vimos um negócio parecido como esse durante o julgamento do Mensalão do PT.

Terra a vista

Enfim voltamos ao Brasil e a Campo Grande.

Uma terceira pessoa que fazia parte da conversa ajudou a desancar a sugestão do estudante de Direito segundo a qual eu deveria andar armado.

Contra argumentou essa terceira pessoa que a sensação de insegurança e de impunidade no Estado (e olha que estávamos falando de Mato Grosso do Sul do século passado!) era injustificada e fruto da paranoia que boa parte das pessoas gosta de cultivar.

A sensação de insegurança da qual falam centenas de pessoas para mim é tão defensável quanto a sensação térmica, ou a Escola de Sagres, ou as teorias chinesas de Gavin Menzies.

BALELA!

A mesma teoria diz também que no Brasil a lei não funciona.

Juntando lei + insegurança + violência como a gente consegue explicar que o Brasil tenha a quarta maior população carcerária do Planeta, que mais de 400 mil pessoas estão sendo processadas e esperando julgamento, que em nossas prisões estão desde o ladrãozinho pé-de-chinelo até políticos e empresários?

A única sensação na qual acredito é que brasileiro não conhece leis, não sabe a que elas se destinam e quando devem ser aplicadas.

Mas para além da sensação, tenho uma certeza: a maioria dos brasileiros apenas acredita naquilo que já traz da sua tradição familiar, do conhecimento que vem de casa (do vovô e da vovó; do papai e da mamãe), desprezando outras informações e fatos que desconstruam e neguem as suas verdades já pré-estabelecidas em seus círculos familiar e social.

Se o mundo real teima em desarrumar o seu mundinho arrumadinho ele está a um passo de se tornar uma pessoa assustadiça, medrosa, irritável e paranoica.

Conhecemos ou não conhecemos gente assim aos pacotes?

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