segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Honestidade e correção, segundo Eduardo Coutinho



Morto ontem a facadas pelo filho esquizofrênico, o festejado pauli-carioca, Eduardo Coutinho, era considerado um bom cineasta e um ótimo documentarista. “O melhor de todos”, dizem.

Era?

ERA!

Muita gente, bovinamente, repete os elogios a Coutinho sem ter a dimensão de sua obra, e sem ao menos ter visto uma delas.

Fala-se muito de “Cabra Marcado para Morrer” – que por conta da Ditatura Militar ele demorou décadas para concluir – e de “Edifício Master” - que vive passando na TV, especialmente na TV fechada - mas pouca gente viu ambas ou uma delas sequer.

Coutinho praticava uma correção que pouca gente percebe, mas que é fundamental em documentários: explicitava as negociações que fazia com os entrevistados.

Não tem sentido algum fazer um documentário onde diretor não diga o que conseguiu fazer para convencer (ou não) os entrevistados a participarem direta ou indiretamente da obra.

Não fazer isso é desonestidade.

E Coutinho era, antes de cineasta e documentarista, um sujeito correto e honesto.

Quando Spike Lee veio ao Brasil com Michael Jackson a tiracolo para um clipe, ele deixou explicita a negociação que fez com a bandidagem carioca e baiana para conseguir filmar em paz.

Não, não era um documentário. Era apenas um clipe, mas mesmo assim Lee explicitou o que deveria ser explicitado.

O festejado (especialmente pela esquerda) documentarista norte-americano Michael Moore não costuma fazer isso. É badalado. É premiado. Mas nem sempre deixa claro como conseguiu “convencer” as pessoas a participar de suas obras cinematográficas.

Um outro paralelo (negativo) que se pode fazer com a correção nas obras de Eduardo Coutinho é o documentário “Loki”, sobre a vida do mutante Arnaldo Baptista. O documentário é do cineasta Paulo Henrique Fontenelle.

Concordo que seja um bom documentário, bastante sensível, mas tem uma falha grotesca: o cineasta não deixa claras as razões da ausência de Rita Lee, que foi mulher de Baptista e seria a catalizadora da série de problemas pelos quais o mutante passou.

Quem assiste ao documentário de Fontenelle fica com a impressão – correta – de que está faltando alguma coisa na obra.

Que Rita Lee não quisesse dar um simples depoimento, ok! É um direito dela. Mas o cineasta tinha a obrigação de deixar  isso claro ao espectador.

A correção de Eduardo Coutinho bem poderia “contaminar” o jornalismo brasileiro.

Essa história de “minha fonte” e outras derivações não convencem ninguém, especialmente sabendo, como sabemos, que essa “minha fonte” não passa de dossiês quase sempre forjados e costurados na medida dos interesses de quem os fez.

O jornalismo apenas faz o jogo sujo dos poderosos.

Que os anjos lhe acompanhem grande Eduardo Coutinho.

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