quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A prisão pegou fogo, mas ninguém tem as chaves das celas


Crédito da ilustração: www.charleshaddonspurgeon.com

Retomando ao que se disse na postagem de ontem: “Quem alimenta a boca de Rachel Sheherazade?” (http://afalaire.blogspot.com.br/2014/02/quem-alimenta-boca-de-rachel-sheherazade.html) hoje me deparo, no sítio Passa Palavra, com um excepcional artigo de Anselm Jappe, com tradução de Bruna Bernacchio (Protestos: falta um horizonte pós-capitalista - http://outraspalavras.net/destaques/protestos-falta-um-horizonte-pos-capitalista/).

Jappe é filósofo, nasceu na Alemanha e é colaborador da revista  Krisis.

A revista faz uma crítica severa do valor (da sociedade atual erigida sob o valor da mercadoria) e busca um pensamento para além de Marx, ou seja, pós-pós-marxista, o que a coloca à esquerda da esquerda.

No texto de ontem neste afalaire se disse que:

Acho que já está na hora de deixarmos a nossa condescendência um pouco de lado e encarar o enorme buraco moral e educacional no qual o País está metido.

Sou eu e você que saímos pelas ruas pregando a pena de morte, espancando homossexuais, criminalizando “mulheres de decote e saia curta", ou é essa gente que está doida para voltar para árvore para comer folha verde e gafanhoto em companhia da Rachel Sheherazade?

No texto Jappe, mais culto, mais erudito, mais profundo e mais internacionalista, portanto mais universal, diz-se que:

É por isso que a assinatura “Somos os 99%”, que segundo se disse foi inventada por um ex-publicitário passado à anti-publicidade (Adbusters), Kalle Lasn, e que os meios consideram como “genial”, me parece delirante. Bastaria libertar-se do domínio dos 1% mais rico e mais poderoso da população para que todos os demais vivamos felizes? Entre esses 99%, quantos passam horas em frente a sua televisão, exploram seus empregados, roubam seus clientes, estacionam seu carro na calçada, comem no McDonald’s, batem em sua mulher, deixam seus filhos jogar videogames, fazem turismo sexual, gastam seu dinheiro comprando roupa de marca, consultam seus celulares a cada dois minutos — ou seja são parte integrante da sociedade capitalista? Herbert Marcuse já havia definido com muita clareza o paradoxo do verdadeiro círculo vicioso de qualquer esforço de libertação que, desde então, não deixou de se reiterar: para alcançar sua libertação, os escravos têm que ser livres.

O que Jappe diz é o seguinte: os protestos são bons, mas estamos protestando contra o que e por que, se estamos imersos no Capitalismo?

Se a ele pagamos nossos dízimos diários em “pensamentos, palavras e atos”, para surripiar aqui uma máxima da Igreja Católica?

A questão é: vamos superá-lo? Queremos superá-lo ou apenas reclamamos, porque parte do naco do Capital, ao qual acreditamos ter direito, nos está sendo negado?

Apenas o Brasil, por exemplo, tem alguns milhares de grupos alternativos e ditos autossuficientes?

São mesmos as duas coisas? São pelo menos uma delas? Ou não são nenhuma coisa e nem outra?

O Capitalismo está ruindo. Parece, o pensamento é de Jappe, uma prisão que pegou fogo, mas ninguém tem a chave das celas, ou as celas podem ser abertas mas para um precipício.

Para voltarmos ao Brasil, a superação do Capitalismo não se fará batendo panelas, dando rolezinhos em shopping ou protestando contra a Copa do Mundo.

Muito menos se continuarmos na frente da TV.

Se continuarmos explorando os nossos empregados.

Se continuarmos roubando nossos clientes.

Se continuarmos estacionando nossos carros na calçada.

Se continuarmos comendo no McDonald’s.

Se continuarmos batendo em nossas mulheres.

Se continuarmos deixando nossos filhos jogarem videogames.

Se continuarmos fazendo turismo sexual.

Se continuarmos gastando nosso dinheiro comprando roupa de marca.

Se continuarmos consultando nossos celulares a cada dois minutos.

Se eu fosse você leria com calma e atenção o artigo de Anselm Jappe.

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