segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

“Que a Paz do Senhor esteja convosco”



Quando gente como Reinaldo Azevedo e raivosos blogueiros de esquerda fazem o mesmo discurso, usando, inclusive, as mesmas palavras “alguma coisa está fora da ordem” (CV).

O fusquinha incendiado do serralheiro Itamar Santos, em São Paulo, durante os protestos contra a Copa de Mundo, bem poderia substituir a pomba como símbolo da paz mundial, já que ele conseguiu reunir a fala tresloucada de direitistas e de esquerdistas.

No pré e no pós discurso – à esquerda e à direta – ao fusquinha-incendiado-do-serralheiro a defesa do “patrimônio privado e público” e o ataque raivoso aos “vândalos anarquistas” (leia-se black blocs).

Ora pois, pois... direitistas defendendo o patrimônio público? Esquerdistas defendendo o patrimônio privado?

“Alguma coisa está fora da ordem.”

O ataque aos “vândalos” é uníssono... e velho.

Tão velho que vem do final do século 19 (já estamos no 21... “não perca a conta”) quando liberais (capitalistas) e marxistas (comunistas) em geral atacavam furibundamente os anarquistas.

No imaginário do pavor – à esquerda e à direita – o anarquista substitui com sobras o comunista-comedor-de-criancinhas e o senhor de escravos.

Mas o que está no cerne do pavor não são criancinhas degustadas (cruas ou assadas) ou as surras “corretivas” (sic) da escravocracia, mas o perigo de desestabilização do sistema, que tem como muro de arrimo o Estado.

A direta acha que o Estado deve ser o paizão, que tudo lhe deve dar (principalmente crédito), mas nada deve lhe cobrar.

A esquerda crê que o Estado pode levar a “classe operária ao paraíso”, o que na prática quer dizer ela mesma, a esquerda, estruturada em partidos políticos e em organizações sociais.

Mas em ambos os casos, o povo é plateia. Apenas bate palmas ou apupa. Nada de desfrutar, no Paraíso, de seu maná e dos cantos gregorianos.

Para quem não acompanhou a história, o fusquinha do serralheiro Itamar Santos passou por cima de um colchão incendiado (no centro de São Paulo), colchão este que ficou preso ao automóvel (que é baixo), que veio a incendiar-se.

Embora as imagens do acidente mostrem isso, não interessa: quem incendiou o fusquinha foram os “vândalos” – se diz à esquerda e à direita.

Afinal de que valem as imagens?

Para hurras e vivas à esquerda e à direita o anarquismo não é organizado (se fosse, não seria anarquismo), não é movimento (se fosse, não seria anarquismo); é apenas uma maneira de pensar, uma forma de se comportar, um “jeito de corpo” (só para citar mais uma vez o Mano Caetano).

Portanto, não tem forças para enfrentar o discurso evangelizador da direita e da esquerda.

Então sigamos em frente fazendo de conta que tudo muda sem se mudar nada.

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