terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Quando Zumbi chegar quero ver o que vai acontecer*


Crédito da foto: Folhapress

A jornalista Eliane Cantanhêde até estava indo bem em seu artigo de hoje na Folha de São Paulo (‘"Rolezinho" na elite’ - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/147601-quotrolezinhoquot-na-elite.shtml). Estava... até cometer um “ato falho”.

Mas deixemos a jornalista e seu ato falho para mais tarde.

É bom lembrar que os rolezinhos não são exatamente uma novidade.

Eu presenciei um em 1997, em Belo Horizonte.

Os rolezinhos acontecem no Rio de Janeiro desde o ano de 2000.

E já aconteceram várias vezes em shopping centers de Salvador, Recife e Fortaleza.

A colunista do jornal O Estado de São Paulo, Sonia Racy, registra hoje, em sua coluna Direto da Fonte (“Rolezinho” - http://blogs.estadao.com.br/sonia-racy/rolezinho/) que:

Não se trata de novidade. Em 1838, o rolezinho já preocupava a polícia carioca. O regulamento do Jardim Botânico, por exemplo, proibia “alaridos e dar gritos, sem ser objecto de necessidade”, praticar “acção que seja evidentemente offensiva da moral e dos bons costumes” e a entrada no parque de “indivíduos notoriamente embriagados ou loucos” ou que “tragam armas prohibidas”.
O texto atual, de 2011, mudou. Mas nem tanto. Não é permitido o acesso de pessoas “em estado físico ou psíquico que possa perturbar a boa ordem, tais como embriagadas, sob o efeito de substâncias entorpecentes ou portando armas de fogo ou instrumentos perfurantes” e as que pratiquem… “ato ofensivo à moral e aos bons costumes”.

Em comum: pretos, pobres e gente da periferia de um lado; de outro, proibições, repressão e pavor.

Lundu

A Casa Grande não quer a Senzala por perto.

Entre as milhares de medidas arbitrárias que tomou enquanto secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra de Portugal (lá por volta de 1758/1759) o marquês de Pombal proibiu o Lundu na colônia de ultramar.

O lundu (lundu colonial) é uma dança “tipicamente brasileira de natureza híbrida, criada a partir dos batuques dos escravos bantos trazidos ao Brasil de Angola e de ritmos portugueses” (WP).

O argumento do marquês era que a algazarra provocada pelos negros não deixava os senhores descansarem em paz.

O poeta Solano Trindade (1908-1974) tem outra versão: segundo ele, os senhores de escravos estavam assustados com a promiscuidade sexual envolvendo homens negros (escravos) e as senhorinhas brancas (donas dos escravos).

O lundu se dança encostando-se o ventre do homem ao da mulher (e vice versa).

Num misto de ingenuidade e assanhamento as senhorinhas desciam para o pátio da Casa Grande para dançar o lundu com os pretos.

Já viu no que dá essa esfregação toda.

Ato falho

Voltemos ao texto de Cantanhêde e ao seu ato falho.

Ato falho ou lapso freudiano ou parapráxis é um erro na fala, na memória ou em uma ação física supostamente causada pelo inconsciente.

Sigmund Freud descreveu o fenômeno em seu livro “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” (1901) onde diz que através do ato falho o desejo do inconsciente é realizado.

Freud quer dizer, com isso, que nenhum gesto, pensamento ou palavra acontece acidentalmente.

Para ele, os atos falhos são sintomas e constituições de compromisso entre o intuito consciente da pessoa e o reprimido.

Como se disse acima, a jornalista ia até bem em seu texto quando, porém, de repente escreveu que:

Os que agora invadem os shoppings contra a discriminação e o preconceito refletem a grande maioria e se organizam, também sem líderes, para "zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras" ou "tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos"’.

O “sem líderes” da jornalista nos remete a um tempo em que o general abria sua braguilha, tirava o pau pra fora e batia na mesa.

Não estaríamos em outro momento da história?

Talvez ela não tenha percebido (como tanta gente ainda não percebeu) que os tempos são outros, que as “pedras estão rolando”, como disse Bob Dylan.

Talvez ela faça (como tanta gente faz) das suas férias um tour pelo exterior, provavelmente por Nova York e Paris.

Mas que tal “feriar” nas periferias brasileiras, para saber o que estão pensando e fazendo pretos pobres, jovens, índios, quilombolas etc. e tal.

Será esse um movimento tão acéfalo assim, tão sem líderes? E quem precisa de líderes? E quem precisa de um general batendo o pau na mesa?

Já vimos essa história antes, não vimos?

No Caracazo da década de 80 e na invasão de Lima (nos anos 70) pelos índios do altiplano peruano.

Mas Cantanhêde não fecha o seu artigo sem antes botar terror pra cima a presidente Dilma:

E a Copa vem aí.

OK! E quando zumbi chegar? O que será que irá acontecer?

A classe média vai se refugiar onde? Em Miami?

* O título é uma referência à música Zumbi, de Jorge Ben Jor: http://letras.mus.br/jorge-ben-jor/86395/.

OBS. Gerais 


  1. Gente como a jornalista da Folha não acompanhou ou acompanhou precariamente as reuniões do Fórum Social Mundial.
  2. Gente como a jornalista da Folha não entendeu ou não quis entender o lema do Fórum Social Mundial: “Outro mundo é possível”.
  3. Gente como a jornalista da Folha não sabe ou finge não saber que a parte da sociedade das periferias brasileiras está há muito tempo organizada e protestando.
  4.  Gente como a jornalista da Folha não entende ou não quer entender que quando se fala de “periferias” está se falando de pessoas – rurais e urbanas – que vivem à margem do sistema capitalista.
  5. Gente como a jornalista de Folha não entende ou não quer entender que as lutas e as reivindicações das periferias são contra o sistema de exclusão e de opressão, do qual, inclusive, faz parte o governo do Partido dos Trabalhadores.
 

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