terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Protestos anti-Copa, rolezinhos e outras expressões sociais


Crédito da foto: www.esmaelmorais.com.br

Dois bons artigos no jornal Folha de São Paulo hoje: um da demonizada (pelos blogueiros raivosos do lulopetismo) jornalista Eliane Cantanhêde, outro do neodemonizado (pelos blogueiros raivosos do lulopetismo) filósofo Vladimir Safatle.

Ambos os textos tratam basicamente do “modelo de representatividade popular na República (que) está esgotado”, conforme se lembrou ontem neste afalaire em “Dilma tem de escolher: o PMDB ou o povo” - http://afalaire.blogspot.com.br/2014/01/dilma-tem-de-escolher-o-pmdb-ou-o-povo.html)

Para quem não verte bílis pelos poros, vale a pena a leitura, incluindo-se aí as sugestões que estão ao final dos dois artigos.

“Vai que a moda pega...”

[Comerciantes deram um passa-fora em políticos que votaram a favor da im(p)unidade de um senador corrupto: afixaram cartazes avisando que eles não seriam bem-vindos e cumpriram a ameaça. Uma embaixatriz europeia viu quando sua cabeleireira botou uma parlamentar para correr.

Foi no Paraguai, mas vai que a moda pega por aqui?! Muita gente não poderia mais ir a bar, restaurante, posto de gasolina, shopping --nem cortar os novos cabelos implantados.

Essa conscientização de comerciantes e fregueses paraguaios --profissionais liberais, professores, estudantes, funcionários-- vem crescendo já há algum tempo e resultou, por exemplo, na emocionante eleição do ex-bispo Fernando Lugo para presidente. Ele fracassou por incompetência política e administrativa, mas deixou a lição de que, quando o povo quer, muita coisa pode acontecer.

O Paraguai continua sendo um "pleonasmo" --é um dos países mais corruptos e com mais pobreza do continente--, mas a efervescência cívica, a vitória de Lugo e, depois, a eleição de um governo mais pragmático já produzem ventos alvissareiros e resultados: o país se descola do tutor Brasil e, segundo o Banco Mundial, tem 14,1% de crescimento, o terceiro maior do mundo em 2013.

Há uma sincronia: enquanto os paraguaios descobrem sua força, o país se moderniza e o crescimento dispara. O contraponto é a Argentina, que se jogou na teia imperial dos Kirchner e convive com corrupção, câmbio e inflação fora de controle. A sensação é de caos.

Esses contrastes estarão pairando na Celac (cúpula de América Latina e Caribe), hoje, em Cuba, com a presença de Dilma. Sem Chávez, com a Venezuela afundando e a Argentina fazendo água, o equilíbrio da região está mudando e o pequeno Paraguai, sempre o primo pobre, é um bom "case" dessa mudança.

Em tempo: com o boicote do comércio, os políticos paraguaios refizeram o voto e o senador foi cassado.]

“O retorno”

[Neste final de semana, o Brasil voltou a ver manifestantes nas ruas. Era de esperar que, em algum momento, a insatisfação voltasse a explodir, pois, se há algo que caracteriza a política brasileira pós-junho, é a tentativa autista de fingir que nada aconteceu no país.

Um exemplo maior e quase cômico é o destino dado às exigências populares de uma "outra política". Elas pararam na lata de lixo mais próxima. Depois de apresentar com uma mão um projeto de Assembleia Constituinte para a reforma política e retirá-lo com a outra, o governo prometera pressionar o Congresso Nacional para debater as propostas. O resultado foi cosmético, se quisermos ter um mínimo de generosidade. Não há nenhuma reflexão sobre o aprofundamento da participação popular na pauta. Não há nada sobre democracia direta, nem sequer como promessa de campanha de algum candidato. Ou seja, não há coisa alguma.

Já a revolta popular contra a inexistência de um segundo ciclo de políticas contra a desigualdade baseadas na universalização de serviços públicos de qualidade também passou em silêncio.

Ações pontuais não são mudanças estruturais e, se existe algo que os brasileiros conhecem muito bem, é a arte milenar do ajuste aqui e ali ou a recente nova arte de tentar abaixar o fogo da panela de pressão com a cantilena do "quando o pré-sal chegar, tudo será diferente".

Quando o pré-sal chegar, teremos dinheiro para resolver os problemas da educação, mesmo que isso signifique prometer algo em um prazo em que os governos serão outros e em cima de um pretenso rendimento que não sabemos nem sequer de quanto ele realmente será. Não parece que isso possa ser chamado de "solução" para problemas. Por isso, nada mais sábio do que manifestantes que gritam: "Se não houver direitos, não haverá Copa".

A Copa do Mundo virou a melhor expressão da irracionalidade econômica brasileira. Dinheiro gasto em vários estádios de futebol que servirão para nada, promessas de melhoria na mobilidade urbana que ninguém verá, aeroportos de lona que durarão o tempo de as comitivas passarem, índios desalojados para sair da frente dos tratores e, principalmente, desconsideração sobre o que a população realmente entende como prioridades.

Alguém deveria lembrar que talvez os brasileiros não tenham nascido para ser figurantes de campanhas de patrocinadores da Copa.

Mas, ao que parece, nós vamos precisar ainda de muita vitrine de banco quebra- da e de muita pedra atirada contra a polícia para que certas insatisfações sejam realmente ouvidas.]

Outras leituras

O que o sábado mostrou (Editorial do jornal O Estado de São Paulo)

Máscaras em manifestações públicas (Kleber Leyser de Aquino, no jornal O Estado de São Paulo)

Onda incendiária (Editorial do jornal Folha de São Paulo)

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