quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Matadores profissionais são gente boa (?)




Tenho mais duas, mas vou deixar para outro dia.

Normalmente esses caras são malvados. É bom não brincar com eles.

Conheci um bocado de “matadores profissionais” na minha vida.

Conversei com vários deles. Sobre um até fiz, juntamente com um camarada jornalista, uma matéria. Com os devidos cuidados e respeito que isso requer.

O cara era colombiano e trabalhava para o mega traficante Pablo Escobar.

Ele nem quis conversar comigo. Não confiava. Preferiu conversar com meu colega e eu escrevi o texto.

Obviamente que a matéria não teve fotos ou qualquer tipo de ilustração.

Conheci alguns outros “matadores estrangeiros”.

No Brasil, sai certa vez com um grupo deles (brasileiros) para ir a uma área de conflito.

Me trataram bem e um deles cozinhava que era uma beleza.

Nessas andanças dois caras me impressionaram.

Um deles se chamava Zé da Grama, um sarará pernambucano de olho verde (herança da invasão holandesa) que morava no Mato Grosso do Sul.

O cara era frio como um picolé, mas não era burro. Esses caras nunca são burros.

Eles entendem do ofício. Não ameaçam. Não contam bravatas. Não falam pelos cotovelos Apenas executam o serviço quando tem de ser.

Matador profissional falastrão e metido a filósofo é coisa de filme do Tarantino.

O velhinho do Derby

Outro cara que me impressionou foi um senhor, com mal de Alzheimer, que passava o dia sentado na pracinha do Derby, no Recife, tomando sol.

Na praça fica (ou ficava) um quartel da PM pernambucana.

Muito apropriado. Era sua proteção. Ele deve ter prestado bons serviços aos poderosos locais, e nada mais justo que a PM cuidasse dos seus últimos dias.

Ele quase não falava. A única coisa que consegui tirar dele foi que fizera, ao longo da vida, 32 serviços. Mas nunca descobri se foram 32 serviços e 32 mortos, ou 32 serviços e mais de 32 mortos.

Ele me olhava com um olhar profundo, mas opaco. Me sentia um vidro transparente.

Nunca me pareceu com raiva ou desconfiado, mesmo quando eu perguntava alguma coisa.

Apenas sorria e me olhava como se eu fosse um bobão.

Também nunca me pareceu desesperado ou arrependido.

A lógica desses caras é uma só: “o que tem de ser será”.

O seu conterrâneo Zé da Grama me assustou mais que ele. Era mais jovem (bem mais jovem) dominava todos os movimentos e estava no auge da idade.

Nunca me ameaçou diretamente. Também não precisava.

Tivemos alguns encontros/desencontros. O mais tenso deles foi quando íamos viajar pelo interior do Mato Grosso do Sul no mesmo ônibus e dividindo os bancos.

Quando ele me viu, sorriu, me reconheceu e me cumprimentou. Era educado.

Já tínhamos tido dois encontros anteriores não muito amistosos.

O que me salvou foi um telefonema de última hora. O “patrão” estava chegando ao MS “daqui a pouco” e queria falar com o Zé da Grama.

Ele sorriu de novo, se despediu, me desejou boa viagem e desceu do ônibus.

Também não sei se ele faria alguma coisa durante a viagem.

É provável que não.

Esse tipo de gente não é idiota. Não faz coisas por emoção ou oportunidade.

Apenas a mando.

Embora tenha conversado com muitos deles, a única pergunta que nunca fiz foi “Por que (você faz isso)”?

Não tenho esse senso moral.

Talvez eu o tenha perdido quando me afoguei, aos dois anos, na banheira da casa de meu avô materno e fui salvo por uma de minhas primas.

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