quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Ler muito nos dá saber e cultura (?)



Aprendi a ler na época em que a criançada daquele tempo aprendia a ler: dos 7 aos 8 anos.

Treinava minha leitura na Última Hora paulista. Meu pai era um aderente ao trabalhismo getulista (de Getúlio Vargas) e a UH espelhava isso em suas páginas.

Não entendia boa parte do que lia, mas o jornal tratava, em notícias rápidas e bem escritas, do cotidiano da classe trabalhadora e da iniciante classe média urbana.

Com o tempo meu pai foi para a direita. Hoje ele odeia o Lula e o PT. Na primeira eleição presidencial pós-ditadura militar, por exemplo, votou em Ulisses Guimarães (no primeiro turno) e em Collor de Mello (no segundo).

Meu primeiro livro ganhei ao final do primeiro ano primário: “As Mil e Uma Noites”, obviamente obra adaptada para a criançada e, portanto, sem a enorme carga de sensualidade que contém.

Por alguma razão a sociedade ocidental vê a criança como um ser assexuado. A modernidade militante – feministas, psicólogos, sociólogos, educadores etc. e tal – só fez aumentar essa distorção.

Até parece que a criança nasce sem libido, sem xoxotas e pintinhos, que depois serão esculpidos por algum cirurgião plástico.

Considerado o pai da filosofia ocidental, o ateniense Sócrates (470-399 a.C.) não escreveu um único livro. O que sabemos dele nos vem das obras de Platão, Aristófanes e Xenofonte.

Para Sócrates, a escrita enclausura o conhecimento; o perpetua em “afirmações inamovíveis” e o fecha numa espécie de redoma do saber petrificado.

Para ele, uma obra escrita eterniza essa distorção através de transmissões sucessivas.

O que ler?

Desde a Última Hora paulista e “As Mil de Uma Noites” (adaptada) nunca mais parei de ler. A questão é saber o que, quando ler e pra que ler.

Sem medo de cometer algum erro grosseiro tenho pra mim que das minhas leituras apenas 20% são textos de ficção (romances, contos, novelas etc. e tal). Os outros 80% são compostos por obras de filosofia, sociologia, antropologia, política, psicologia (tenho pouco apreço, por exemplo, por biografias e relatos históricos).

Há menos de uma década houve um considerável aumento nas vendas de livros no Brasil.

Muita gente saudou isso como uma coisa positiva – "enfim, o brasileiro está lendo mais” – esquecendo-se de que esse aumento se deu por três fatores:

- as histórias requentadas do Paulo Coelho;
- os manuais de autoajuda;
- os livros didáticos.

Se supunha que dessa leitura da moda ou obrigatória se pudesse evoluir para, por exemplo, Machado de Assis e Sigmund Freud.

Doce ilusão.

Consumidor cultural

No mundo todo existe uma parcela considerável da população que compra “todos” os livros, assiste a “todos” os filmes e peças de teatro; gente que está sempre antenada ao que há de mais culto e de mais cult.

Creem – e creem mesmo – que essa maratona por livrarias, cinemas e teatros lhes dá cultura e saber.

No fundo são uns chatos de galocha. Normalmente fujo desse tipo de gente que vomita erudição.

Até são eruditos mesmo. Mas um sujeito erudito é como um cara que compra um carro importado e não sabe pra que serve aquela montanha de botões do painel.

Albert Einstein já matou a charada há muito tempo: "O homem erudito é um descobridor de fatos que já existem - mas o homem sábio é um criador de valores que não existem e que ele faz existir”.

A impressão que tenho do consumidor cultural é a mesma que tenho do consumidor de badulaques: ambos acham que em estantes e gôndolas está a felicidade.

Esses caras ainda não perceberam que cultura é uma construção social, que se faz no dia a dia, independente de você saber ou não ler; se vai ou deixa de ir a cinemas e a teatros, ou a saraus e vernissages.

Ler é bom?

É, assim como viajar.

O que se precisa saber é o que se vai fazer nas viagens e com tanta erudição assim.

Corremos o risco de, como previu Sócrates, nos fecharmos numa redoma de saber petrificado.

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