sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Bill Gates e a última fronteira do Capitalismo


Crédito da ilustração: www.indymedia.ie

O multimilionário norte-americano Bill Gates, em entrevista à agência de notícias EFE, previu esta semana que “em 2035 quase não haverá países pobres no mundo”.

Quando um sujeito importante como este diz uma besteira monumental como esta é preciso prestar atenção, pois muita gente vai repetir essa papagaiada toda pelos próximos anos.

Gente como Gates já disse que o excesso de automóveis em estacionamentos e ruas era sinal de que finalmente a luta de classes tinha acabado, pois o mundo todo se transformava, rapidamente, numa imensa comunidade de classe média.

Para um capitalista como Bill Gates o fim da pobreza é igual ao aumento de consumo.

É disso, no fundo, que ele está falando.

As pessoas vão continuar pobres, mas terão uns caraminguás a mais para consumir coisas que até então não conseguiam.

Um exemplo bem claro disso já pode ser visto em qualquer cidade brasileira, mas vou me ater aos exemplos de Brasília: carroceiros catadores de papel e guardadores de automóveis (os flanelinhas), todos eles têm celulares, usam tênis da moda, e continuam morando em favelas ou em habitações precárias na periferia da Capital Federal, onde possuem aparelho de TV e geladeira.

Esses são os ex-pobres do Bill Gates.

Mundo revolto

O mundo, no entanto, não é tão simplesinho como anseia o ilusionista que criou a Microsoft.

Se de um lado o Capitalismo começa a romper a última fronteira – as periferias pobres, para onde leva todo tipo de badulaques -, de outro movimentos de protestos espocam pelo mundo todo, embora, aparentemente, não tenham conexão um com outro: occupy / primavera árabe / guerrilha na China / resistência no Afeganistão e no Iraque / guerra pela água no Chile / revolta dos africanos na Europa Ocidental / rebelião de Angola / novo movimento Chicano´s Power nos EUA / Cabildo e Abya Yala Internacional (indígenas das Américas), movimento holístico / comunidades alternativas / protestos de junho no Brasil...

Ufa! Parece que Bill Gates não vive por aqui, mas em algum ”buraco negro”.

Bons exemplos de como o Capitalismo rompeu a última fronteira são o rap (norte-americano) e o funk ostentação (brasileiro).

Como notou recentemente um blogueiro, rappers e funqueiros não estão contestando o Sistema, mas pedindo passagem para se juntar a ele.

Querem deixar de ser periferia para se tornar “novos playboyzinhos”.

Assim que conseguem ganhar dinheiro deixam suas comunidades para morar em “bairro de bacana”, ostentar seus ouros e seus carrões.

Ao chegar nesse ponto temos de nos valer do educador pernambucano Paulo Freire: ascensão (social) sem educação transforma o oprimido em opressor.

Conhece, por acaso, algum rapper ou um funqueiro para poder desmentir Freire?

Não, né!

A título de acréscimo: por aqui, o PT – com suas políticas públicas, sem a contrapartida educacional - está colaborando um bocado com esse “maravilhoso mundo novo” de Bill Gates.

Onde está a saída?

Como se disse acima, a onda “revoltosa” no mundo aparentemente não mostra uma conexão (pelo menos visível).

Afinal do occupy aos índios pobres da América Latina, dos palestinos e curdos (sem teto e sem terra) aos guerrilheiros da Al-Qaeda há diferenças imensas de poder e influência.

Há, mas também há um ponto de convergência: os 1% que detém 54 % da riqueza do mundo.

A saída está na junção de forças díspares numa revolta planetária, diferente do movimento contracultural dos anos 50/60/70 que se resumia aos EUA (e chegava a outros países por influência/cópia) e à classe média empobrecida.

Se as atuais revoltas se proliferam (e se proliferam desde a primeira década deste século) há um movimento de convergência, movimento que se ainda é tênue, também é constante.

O repúdio ao Estado Moderno (democrático ou ditatorial), ao político tradicional (profissional), à concentração de renda e ao aumento do fosso social; ao desrespeito aos direitos humanos (sociais, econômicos, religiosos, de gênero, culturais etc.); ao discurso ideológico arcaico empurraram todos os protestantes para um centro, um núcleo convergente, com a ajuda da rede mundial de computadores (Web).

É nesse momento que gente como Bill Gates – à direita e à esquerda - começa a perder o sono.

Tá achando ruim? Então acorda que vai piorar.

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