quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Divulgação científica virou uma salada russa de egos, dinheiro, interesses e influências


Crédito da ilustração: prismacientifico.wordpress.com

Fraudes científicas, plágio de teses, de estudos; revistas e jornais prestigiados em declínio.

O mundo da divulgação científica está em franco reboliço.

O que é ótimo.

Com década e meia de atuação em divulgação em ciência e tecnologia (C&T) tenho lá meus pitaquinhos a dar.

Mesmo ao largo do interesse da “grande imprensa” e da pasmaceira da tal da opinião pública talvez seja este o evento mais importante deste início de milênio.

Informação, divulgação e difusão de C&T não deveriam descer ao nível do noticiário sobre ricos & famosos, mas estão quase chegando lá.

“Os editores não são cientistas profissionais. São jornalistas, o que não representa, necessariamente, o maior problema, mas eles enfatizam prioritariamente a novidade, e não o trabalho sólido”, dispara Sebastian Springer, bioquímico da Universidade de Jacobs, em Bremen (Alemanha), in “Ganhador do Nobel boicota periódicos científicos”, Observatório da Imprensa, reproduzido do jornal britânico The Guardian, 9/12/2013; título original: “Nobel winner declares boycott of top Science journals”; tradução de Felipe A.P.L. Costa - http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed777_ganhador_do_nobel_boicota_periodicos_cientificos.

Randy Schekman – o ganhador do Nobel citado no título no The Guardian - disse que “não enviaria mais artigos de pesquisa aos periódicos de alto nível Nature, Cell e Science”.

Schekman disse que a pressão para publicar em revistas de ‘luxo’ levou pesquisadores a cortar arestas e a seguir áreas científicas na moda, em vez de fazerem o trabalho mais importante. O problema, disse ele, foi agravado pelos editores, que não são cientistas ativos, mas profissionais que favoreceram os estudos com mais chances de causar furor.”

Poder, fama e muito dinheiro

O que estão dizendo Springer e Schekman é que muito mais que o interesse pelo conhecimento o que está valendo, em grande parte, é uma enorme corrida pelo poder, pela fama e por muito, muito dinheiro.

Muita gente deve estar lembrada da enorme pendenga em que se envolveram norte-americanos e franceses pelo Projeto Genoma, que prometia desvendar – até o ano 2000 – as minucias da genética e, a partir daí, nos livrar de todos os males das doenças e do envelhecimento.

Há até quem prometa vida eterna a partir da decodificação total da genética humana.

Não se pode dizer – após mais de década e meia de pesquisa e de milhões de dólares e de euros – que o Projeto Genoma seja um fiasco completo. Até porque não é não.

Mas poderíamos compará-lo àquele carro que nos promete levar em segurança e com conforto de Porto Alegre a Natal, mas falha na altura de Salvador, e por lá fica para a revisão.

E os jornais e as revistas “científicas” têm se especializado em difundir esses “estudos com mais chances de causar furor”, que são, de maneira acrítica, repetidos pela mídia tradicional, e assim chegam à opinião pública.

 Revisão geral

Assim como o carro que nos deixou na mão em Salvador, as “pesquisas cientificas” (me perdoem a reducionismo aspeado) passam, neste momento, por uma revisão geral, especialmente no que toca ao seu financiamento e à sua oportunidade e interesse.

Pelo menos o mundo científico está caindo na real e caindo fora do discurso neoliberal, muito em voga nos anos 80/90 do século passado, e na primeira década deste ano.

Não é possível fazer ciência sem a presença constante e maciça do Estado.

Isso quer dizer simplesmente que a ciência é coisa séria demais para ser deixada nas mãos dos interesses privados.

E quer dizer, também, que o interesse da ciência deve ser pautado pelas necessidades e pelas vicissitudes das pessoas, da população, da cidadania.

E em nossos bolsos não cabem os lucros das empresas, mesmo daquelas com a tintura da boa intenção, como ocorre, fundamentalmente, nos países de cultura anglo-saxã (vide EUA e Grã-Bretanha).

A nós interessa saber que o capo di tutti capi de aglomerados da informática, pesos pesados da indústria farmacêutica ou do setor automobilístico doam milhões de dólares às universidades e aos centros de pesquisa?

Claro que interessa, pois o que está por detrás dessas robustas doações não são a vida e a saúde do ser humano, mas o abatimento no imposto de renda e o rendimento futuro no mercado de capital.

Muda ou acaba

Ou a mídia especializada em C&T muda ou o movimento de Springer e Schekman se alastra (já está se alastrando) e ela será liquidada, riscada do mapa.

O que interessa à sociedade é uma mídia especializada crítica e atenta, que consiga não apenas difundir o conhecimento, mas que nos possa mostrar o que está por trás das pesquisas e o que move universidades e centros de pesquisa.

“Que saiba separar os estudos” sérios daqueles que apenas têm “mais chances de causar furor”.