domingo, 15 de dezembro de 2013

Fio da Navalha: a linha que limita o crime da estupidez humana



O blog Luis Nassif Online acaba de publicar uma matéria interessante sobre a “pornografia da vingança”.

O assunto é interessante, escabroso e incomoda um bocado.

É difícil colocar o dedo na ferida sem, (quase) necessariamente, tomar partido ou da bandidada ou da vítima.

Mas mesmo assim vamos nessa.

Só para resumir a história, repetindo o que está no início de ‘Estados Unidos já redigem lei "anti pornografia da vingança"

A chamada ‘pornografia da vingança’, um fenômeno pós-internet que tem feito cada vez mais vítimas, poderão ter finalmente um final à altura. Nos Estados Unidos, pessoas que tiveram fotos sem roupa publicadas na rede contra a sua vontade já buscam mudanças na lei para punir responsáveis.”


A arma moral apontada para estas mulheres, em geral, são das mais improváveis: câmeras de celulares e mensagens para produzir, trocar e armazenar conteúdo íntimo. Um assalto da própria identidade quase à mão armada, e que já fez milhares de vítimas - inclusive fatais - ao redor do planeta.”

Imprecisões

Há, no entanto, que se apontar algumas imprecisões e incorreções não apenas no texto do Nassif como igualmente na argumentação de quem pede uma lei dura e específica para esse tipo de crime.

Pornografia da vingança – No mais das vezes esse tipo de exposição indevida e não consentida pode ser classificada como vingança, mas não apenas.

Há todo tipo de desiquilibrado que faz isso por outras razões que vão do gozo à provocação, passando pelo achaque e pelo constrangimento puro e simples.

Reduzir o crime a simples vingança é estúpido e sem sentido.

Mulheres -  as vítimas não são apenas mulheres. Talvez sejam a maioria. Mas há que se notar um profundo minimalismo nessa identificação que alija, a priori, homens (héteros e homo), mulheres (homo), crianças e adolescentes (masculino e feminino)

Liberdade de expressão – advogados e proprietários de sítios pornográficos (inclusive aqueles que envolvem imagens de crianças e adolescentes) voltam com a velha arenga da “liberdade de expressão”.

Já se discutiu um bocado isto por este afalaire, quando, principalmente, da polêmica sobre as biografias não autorizadas.

A intimidade de qualquer pessoa – famosa ou não – não diz respeito a ninguém.

Argumento equivocado

A ativista norte-americana Charlotte Laws argumenta, para se contrapor a advogados e proprietários de sítio pornográficos, que  "30 ou 40 anos atrás as pessoas tiravam polaroides, mas se alguém entrasse em sua casa e roubasse as fotos, não acho que a sociedade consideraria isso culpa delas. É chocante querer culpar a vítima."

Laws está tentando equiparar invasão de domicílio seguida de furto com apropriação indevida de bens de uma pessoa (foto ou vídeo) que já circulam (antecipadamente) pelo mundo virtual.

Argumento cafajeste

Hunter Moore, ex-dono de um site de pornografia da vingança nos EUA, reclama da iniciativa, argumentando que "Ah, a menina reclama porque mandou fotos nuas para algum idiota que as colocou na internet. Por que proteger essas pessoas? Assuma responsabilidade por suas ações e pare de culpar os outros".

A resposta de Moore remete ao que se disse acima, mas deixa uma pulga atrás da nossa orelha: que tipo de gente idiota tira fotos ou faz vídeos de si mesma e ainda os envia por e-mail, ou os expõe nas redes sociais, ou os deixa armazenados em seus badulaques eletrônicos?

Cafajeste, criminoso, estúpido, Moore deixa, mesmo que de maneira canhestra, exposta uma ferida dos tempos atuais: a estupidez humana.