sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Papuda: “tem uma pedra no meio do caminho”



O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade passou boa parte de sua vida explicando a pedra no meio do caminho (Revista de Antropofagia, 1928 / Alguma poesia, 1930).

Drummond disse, n vezes, que realmente existia uma pedra em frente à sua janela de menino em Itabira, que se interpunha em meio ao caminho que deixava da cidade.

No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
tinha uma pedra 
no meio do caminho tinha uma pedra. 
Nunca me esquecerei desse acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas. 
Nunca me esquecerei que no meio do caminho 
tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
no meio do caminho tinha uma pedra

As digressões filosóficas, sociológicas e psicanalíticas frente à arte (e que arte!) são apenas digressões.

Pedra-Papuda

Pois não é que quase um século depois o presidente do STF, Joaquim Barbosa, mineiro como Drummond, jogou uma baita pedra em meio ao caminho que liga o lugar onde nasceu à capital federal?

Quem conhece estas bandas planaltinas há de saber que se traçarmos uma linha unindo Paracatu (onde nasceu Barbosa) a Brasília (onde estão presos os Josés do PT) se descobre em meio dela uma baita pedra: a Papuda.

A prisão dos Josés – enquanto simbolismo, e aí voltamos às digressões filosóficas, sociológicas e psicanalíticas – foi um baita de um tiro no pé, seo Joaquim.

Mas não se preocupe não. Não apenas o seu pé foi alvejado. Foram também os pés dos conservadores, dos raivosos, dos inclementes, dos estúpidos.

Mesmo levando-se em consideração que nem Genoíno, nem Dirceu cumprirão pena na Papuda, a merda já está posta na mesa, seo Joaquim.

Ou melhor, seo Joaquim, a pedra já foi lançada no meio do caminho.

Agora não tem mais volta. Nem que queira.

“Coitadismo”


Ainda se vilipendia sobre a saúde de Genoíno. Os inclementes são inclementes.

Mas Genoíno – dentro de mais alguns dias – estará em São Paulo, cumprindo pena domiciliar na sua estrondosa mansão assobradada e geminada.

Alguém já teve notícia de uma mansão geminada em algum canto do mundo?

Vai para o Butantã, mas continuará preso na Papuda.

E vai candidato, pois o professor Wanderley Guilherme dos Santos já o lançou para a sucessão de Dilma Rousseff.

Não, não se trata de uma afronta à presidente (em quem o professor deve voltar a votar).

Trata-se de um desafio-achincalhe ao presidente do STF e aos conservadores, aos raivosos, aos inclementes, aos estúpidos.

Viu o que o senhor arrumou, seo Joaquim?

“Raposa velha”


Se Genoíno vai a São Paulo cuidar da saúde, Dirceu (mineiro como Drummond e Barbosa) fica por aqui.

Mas também não fica na Papuda.

Ou melhor, simbolicamente fica, mas, na real, vai para a unidade prisional para detentos em regime semiaberto no SIA (Setor de Indústria e Abastecimento), na Asa Sul da capital federal.

E vai mais: vai voltar a estudar, vai frequentar a Universidade de Brasília (UnB) e escrever.

Viu o que o senhor arrumou, seo Joaquim?

Dirceu tem lá sua desculpa de face para cumprir o semiaberto em Brasília e não em São Paulo: “minha filha”.

Hum... eu poderia acrescentar a sua nova namorada que deve ter idade próxima à filhota.

Mas seria isso?

É não.

Dirceu vai ficar no centro do palco, escrevendo, roteirizando e interpretando a peça.

E que peça!

Uma peça que é uma pedra no meio do caminho dos conservadores, dos raivosos, dos inclementes, dos estúpidos.

Viu o que o senhor arrumou, seo Joaquim?

Será por isso que a Globo e o Estadão (os demais virão em seguida) já começaram a cascar-lhe uns cascudos na cabeça?

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