sábado, 16 de novembro de 2013

Triste sociedade que não reconhece os seus próprios símbolos



Uma amiga sofreu violência sexual em plena avenida Paulista, o tal do coração financeiro de São Paulo e do Brasil.

A violência foi praticada em “plena luz do dia” (ainda não era 1 da tarde, 13 horas), em um ônibus repleto de pessoas.

Quando ela me contou, já conhecia a história. Uma amiga comum já havia me dito.

Ela apenas contou os detalhes, as minúcias, em um bar em Araras (há cento e tantos quilômetros de São Paulo).

Contou sem mágoas, sem ressentimentos, sem traumas. Não demonizou o agressor. Não fez discurso feminista. Não pediu a prisão, nem a morte do “tarado”. Não se insurgiu contra os pobres, contra os nordestinos, contra os trabalhadores de baixa renda.

Apenas contou o fato.

O fato

Ao tomar um ônibus “lotado”, após as aulas, ela “deu” o seu material escolar para um sujeito segurar.

Ela era uma mulher enorme, jovem, bonita. Na ocasião usava uma minissaia, calcinha e meia-calça.

Empurra daqui, empurra dali. Freia daqui, freia dali, as suas pernas e sua xoxota em algum momento resvalavam na mão do “gentil homem” que segurava seu material escolar.

O troglodita não contou até dez: enfiou-lhe a mão coxas acima, chegando a rasgar a sua meia calça e a calcinha.

Minha amiga agarrou sua cabeça com suas “unhas de felina”, rasgou-lhe o rosto, o couro cabeludo e o pescoço.

Outros passageiros entraram na confusão, agrediram o agressor e colocaram o gajo a pontapés pra fora.

A ninguém passou pela cabeça “chamar a polícia”. Até porque todos tinham alguma coisa que fazer durante a tarde.

Marcha das vadias

Um dos símbolos da Marcha das Vadias é uma foto de uma jovem com um “generoso” decote.

Não são poucos os idiotas-machistas que não entendem, ou fazem de conta que não entendem a simbologia dessa imagem.

Chovem aos borbotões comentários do tipo: “elas estão se exibindo”, “estão se oferecendo”.

Vá lá que exista um certo exibicionismo nas minissaias e nos decotes.

Mas e daí? Por acaso isso é um oferecimento? Um convite? Um passaporte para o crime e a violência?

José Genoíno

Ao se entregar ontem à Polícia Federal José Genoíno levantou uma das mãos com o punho cerrado.

Trata-se de um gesto usado pelo movimento black power norte-americano.

Um gesto de afirmação. Uma revolta contra um País e uma sociedade que ainda discrimina os afrodescendentes (como eles mesmos gostam de dizer).

Esse mesmo gesto era usado pelo centroavante Reinaldo, do Atlético Mineiro, toda vez que comemorava um gol.

Era sua forma de protestar contra a Ditadura Militar brasileira (1964-1985).

As mídias – especialmente as eletrônicas – estão coalhas de comentários idiotas e estúpidos desferidos e desfechados contra José Genoíno.

Há quem até diga que ele perdeu o juízo, e que o melhor (e mais seguro?) é a PF encarcerá-lo em algum manicômio judiciário.

Idiotas

São idiotas que não entendem nada de nada. Pobres ignorantes. Recalcados. Impotentes, socialmente impotentes.

Levantar o punho em direção ao céu é um ato de afirmação, de (re) ligação com o infinito e com a Criação – mesmo que o sujeito em nada acredite.

É um gesto que se opõe à saudação nazifascista, do braço estirado à frente do corpo com a mão espalmada.

O gesto nazista representa a supressão da individualidade e a supremacia de uma raça, de um credo, de uma ideologia sobre o ser humano, a quem cabe, tão e somente, segui-la (a supremacia) e não afirmar-se enquanto indivíduo ou pertencente a um grupo social.

Triste sociedade que não reconhece os seus próprios símbolos.