segunda-feira, 4 de novembro de 2013

E não é que eu vi o Diabo?




Crédito da foto: www.historiadomundo.com.br 

No antigo ginasial tínhamos "aulas de religião”.

Não eram “aulas de religião”. Eram aulas de Catolicismo. Eram “catequeses” pra falar a verdade.

Catequese é o ensino oral da religião cristã, de seus mistérios, de seus princípios e de seu código moral.

Os “professores” ou eram padres, ou eram freiras, ou eram algum tipo de carola de igreja.

Eles não queriam nem saber se entre os alunos havia ateus, agnósticos, budistas, judeus, crentes de outras confissões cristãs.

Eles mandavam ver e ai de quem não prestasse atenção.

Reza diária

Tive uma professora no primário que nos fazia rezar a ave maria e o pai nosso antes do início das aulas, na saída para o recreio (intervalo), na volta do recreio e ao final de cada aula (dia).

E no 1º de novembro (dia de todos os santos) ainda nos levava para o cemitério da cidade para que rezássemos para os mortos.

Evangelização

A catequese é uma forma de evangelização, usada à larga por portugueses e espanhóis nas Américas, por exemplo.

A evangelização é o ato de pregar a mensagem salvacionista do cristianismo, mas tem outras coisas embutidas aí, que não necessariamente a salvação da alma.

A prática é tão poderosa que acabou por se entranhar na cultura ocidental, e entrar para o campo das ciências, em geral, e da filosofia, em particular.

Disse eu isso para um amigo que é filósofo e ele ficou bravo.

Ficou bravo à toa, pois não passa de um São João Evangelista destes tempos pós-modernos.

“A verdade vos libertará”, dizem todos: crentes e ateus.

Fé na academia

Na faculdade de jornalismo tivemos uma cadeira chamada “história da religião”.

O professor era um sujeito já idoso (acho que da TFP) que falava pelos cotovelos e adotou apenas um livro (a bibliografia).

Um livretinho que (se me lembro bem) tinha 24 páginas, incluindo-se aí capa e contracapas.

Dezoito delas eram sobre o cristianismo católico. O resto... bem o resto...

O diabo

Obviamente que o título deste texto é uma forçação de barra para atrair parcos e incautos leitores.

Não vi diabo algum, mas ontem conversei (longamente) com o sujeito que acredita na sua existência.

Essas coisas não me surpreendem mesmo vindo de um sujeito razoavelmente ilustrado e com uma vida bastante boa.

O que chama atenção é que o Iluminismo – que remonta a meado do século 17 – continue perdendo a sua única batalha, que é justamente combater as religiões, as crenças, os dogmas e a fé.

Black bloc

O diabo é uma espécie de black bloc dos tempos bíblicos. De anjo querubim o diabolôs (latim) ou  διάβολος (grego) agastou-se com Deus, foi expulso do céu e passou a personificar todo o Mal.

E parece que é aí que está a chave da história.

O diabo é um ser amoral (muito mais que imoral, até porque ele sempre me pareceu um bocado caretão).

O cristianismo, como todas as religiões dogmáticas, centra fogo em demasia na Moral.

Mas nós somos seres morais, ou a moralidade nos é imposta não apenas pelas religiões, mas pela família e pela sociedade (adulta) em geral?

O psicanalista austríaco (hoje seria tcheco) Sigmund Freud já destruiu, há um bocado de tempo, essa ilusão de que nascemos seres dotados de moralidade.

Quer um bicho pior, mais perverso que uma criança?

Tem não né?

Buscando o diabo

A crença no diabo me parece uma consequência natural do zelo excessivo do cristianismo para com a Moral.

É um contraponto à doutrinação do e pelo Bem (sabe-se lá que diabos isso quer dizer).

Ao não dar conta dos “dogmas da fé” o moralista religioso busca na figura do diabo a razão para os seus deslizes e pecados.

No fundo, no fundo o que ele busca é encontrar os seus diabinhos internos para, quem sabe?, domesticá-los, e, enfim, encontrar o caminho da salvação.

Miriam Leitão ataca rottweiller e a esquerda vibra


Crédito da foto: www.hdwallpapersinn.com

A jornalista Miriam Leitão (O Globo / Rede Globo) foi ativista de esquerda; foi presa, torturada e processada.

Hoje é uma das starlets do jornalismo econômico brasileiro, e odiada/demonizada pela esquerda, especialmente por petistas.

Tudo por conta das suas críticas à política econômica dos governos Lula/Dilma. Da política social do PT a jornalista gosta.

O ódio que alguns blogueiros petistas têm de Leitão já lhe valeu o apelido de “urubóloga”.

A jornalista das Organizações Globo realmente não entende muito de economia, e suas previsões catastróficas (caos nos aeroportos, escalada inflacionária, fim de linha para Lula da Silva etc.) não são a melhor coisa que qualquer cabeça humana já possa ter produzido.

Pode-se até acusá-la de fazer o joguinho dos patrões para sobreviver no árduo mercado jornalístico.

Mas é uma senhora de coragem, tem opiniões fortes, contundentes e bem fundamentadas.

Particularmente não sou seu leitor nem ouvinte. Acho-a um bocado repetitiva e enfadonha. Parece sempre seguir um script escrito por alguém acima dela.

Não creio que um estrangeiro que queira conhecer a economia brasileira vá tirar alguma coisa de proveitoso lendo-a ou ouvindo-a.

Esquerda exultante

De demônio de saia, de uma hora para a outra, Miriam Leitão está recebendo afagos à esquerda: “a boa filha à casa torna?”

Na sua mais recente coluna no jornal O Globo, Miriam Leitão mandou bala em duas “figurinhas carimbadas” da direita brasileira: o jornalista Reinaldo Azevedo e o economista Rodrigo Constantino.

Mas mandou bala nos blogueiros de esquerda também.

Entusiasmado (e um pouco desatento?) um dos blogueiros petista postou o texto de Leitão (não sem antes alguns comentários) com o titulo: “Miriam: Constantino e Reinaldo emburrecem o País”.

A rigor, vejam abaixo, a jornalista não cita os nomes de Azevedo e Constantino, mas o seu petardo tem como alvo os dois, a quem (assim como a esquerda) identifica como rottweiller.

Coitado do cachorrinho. Por que será que as pessoas sempre usam animais para identificar os idiotas?

Bem, voltemos a Miriam Leitão.

Segue abaixo o texto, na íntegra, da jornalista.

Os destaques em CAIXA ALTA no texto são deste afalaire.


O Brasil não está ficando burro. MAS PARECE, PELA INDIGÊNCIA DE CERTOS DEBATEDORES QUE TRANSFORMARAM A OFENSA E AS AGRESSÕES ESPETACULOSAS EM ARGUMENTOS. Por falta de argumentos. Esses seres surgem na suposta esquerda, muito bem patrocinada pelos anúncios de estatais, ou na direita hidrófoba que ganha cada vez mais espaço nos grandes jornais.


É tão falso achar que todo o mal está no PT quanto o pensamento que demoniza o PSDB. O PT tem defeitos que ficaram mais evidentes depois de dez anos de poder, mas adotou políticas sociais que ajudam o país a atenuar velhas perversidades. O PSDB não é neoliberal, basta entender o que a expressão significa para concluir isso.


A ele, o Brasil deve a estabilização e conquistas institucionais inegáveis. A privatização teve defeitos pontuais, mas, no geral, permitiu progressos consideráveis no país e é uma política vencedora, tanto que continuou sendo usada pelo governo petista. O PT não se resume ao mensalão, ainda que as tramas de alguns de seus dirigentes tenham que ser punidas para haver alguma chance na luta contra a corrupção. Um dos grandes ganhos do governo do Partido dos Trabalhadores foi mirar no ataque à pobreza e à pobreza extrema.


OS EPÍTETOS “PETRALHAS” E “PRIVATARIA” SE IGUALAM NA ESTUPIDEZ REDUCIONISTA. São ofensas desqualificadoras que nada acrescentam ao debate. São maniqueísmos que não veem nuances e complexidades. São emburrecedores, mas rendem aos seus inventores a notoriedade que buscam. Ou algo bem mais sonante. Tenho sido alvo dos dois lados e, em geral, eu os ignoro por dois motivos: o que dizem não é instigante o suficiente para merecer resposta e acho que jornalismo é aquilo que a gente faz para os leitores, ouvintes, telespectadores e não para o outro jornalista. Ou protojornalista. Desta vez, abrirei uma exceção, apenas para ilustrar nossa conversa.


Recentemente, Suzana Singer foi muito feliz ao definir como “rottweiller” um recém- contratado pela “Folha de S.Paulo” para escrever uma coluna semanal. A ombudsman usou essa expressão forte porque o jornalista em questão escolheu esse estilo. Ele já rosnou para mim várias vezes, depois se cansou, como fazem os que ladram atrás das caravanas.


CERTA VEZ, ESCREVEU UMA COLUNA EM QUE CONCLUÍA: “DESCULPE-SE COM O SENADOR, MIRIAM”. O SENADOR AO QUAL EU DEVIA UM PEDIDO DE DESCULPAS, NA OPINIÃO DELE, ERA DEMÓSTENES TORRES. Não costumo ler indigências mentais, porque há sempre muita leitura relevante para escolher, mas outro dia uma amiga me enviou o texto de um desses articulistas que buscam a fama. Ele escreveu contra uma coluna em que eu comemorava o fato de que, um século depois de criado, o Fed terá uma mulher no comando.


Além de exibir um constrangedor desconhecimento do pensamento econômico contemporâneo, ele escreveu uma grosseria: “O que importa o que a liderança do Fed tem entre as pernas?” Mostrou que nada tem na cabeça. Não acho que sou importante a ponto de ser tema de artigos. Cito esses casos apenas para ilustrar o que me incomoda: o debate tem emburrecido no Brasil. Bom é quando os jornalistas divergem e ficam no campo das ideias: com dados, fatos e argumentos.


Isso ajuda o leitor a pensar, escolher, refutar, acrescentar, formar seu próprio pensamento, que pode ser equidistante dos dois lados. O QUE TEM FEITO FALTA NO BRASIL É A CONTUNDÊNCIA CULTA E A IRONIA FINA. Uma boa polêmica sempre enriquece o debate. MAS PENSAMENTOS RASTEIROS, ARGUMENTOS DESQUALIFICADORES, OFENSAS PESSOAIS, DE NADA SERVEM. SÃO LIXO, MAS MUITO RENTÁVEL PARA QUEM O PRODUZ.