terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Parte do Brasil está do outro lado do espelho


Crédito da foto: muraldecristal.blogspot.com 

As mais recentes pesquisas do instituto DataFolha mostram com clareza uma coisa que a rigor todos nós já sabemos (e discutimos) há décadas: há um Brasil real, prático e objetivo, e há um Brasil que mal consegue olhar de lado, “porque Narciso acha feio tudo o que não é espelho”. (CV).

Quase a metade dos brasileiros (45%) acha que o Brasil está mudando para melhor e que o grande responsável por essa melhora é o governo.

Nos 55% restantes estão aqueles que não sabem responder (minoria), os que acham exatamente o contrário (grupo maior que a minoria, coisa de 10%) e o restante (a maioria) que acha que as mudanças são positivas, mas insuficientes.

Eis a questão

Tirando fora uma longa rememoração sobre as origens do Brasil (País escravocrata e submetido à exploração extrativista intensiva – que, aliás, persiste até hoje) não fica difícil encontrar as razões do porque parte do Brasil está de um lado do espelho, outra, de outro.

Insuflada pelas elites empresarias (que veem o país como um grande campo exploratório e o governo como um financiador fiel e cordato da exploração) e por parte da classe média (especialmente a que tem formação universitária e um bom saldo bancário) a imprensa (PIG?), há anos, tem se dedicado a dois tipos de informação:

- a violência;
- as crises sociais e econômicas.

Com baixo nível de leitura e uma educação precária, o brasileiro é presa fácil do discurso unilateral da mídia.

A maioria absoluta dos brasileiros “se informa” pela TV, o que provocou, esta semana, uma observação contundente do jornalista e apresentador Serginho Groisman (insuspeitíssimo por trabalhar onde trabalha e fazer o que faz): “o brasileiro assiste televisão demais”.

Fora do penico

Quem costuma remar contra a maré do rame-rame unilateral da imprensa (PIG) é o jornalista Vinicius Torres (Folha de São Paulo).

Ainda no auge das denúncias do Mensalão, em 2005, Torres – contrariando os dedos acusadores que em caso de corrupção sempre são apontados para Brasília – fez um levantamento dos escândalos políticos e financeiros do País e demonstrou, por A e mais B que todos eles passavam ou se iniciavam em São Paulo.

O texto mais contundente de Torres, no entanto, veio esta semana – “Lá no Brasil invisível” - http://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2013/12/1382461-la-no-brasil-invisivel.shtml.

Constrangido de sua ignorância, o jornalista diz que:

Daqui do centro rico de São Paulo, o Brasil, esse país longínquo, e muitas ações do governo parecem invisíveis. Quase ninguém "daqui" dá muita bola para programas populares dos governos do PT até que o povo miúdo apareça satisfeito em pesquisas eleitorais.’

Juntos, tais programas afetam a vida de dezenas de milhões de pessoas, tanto faz a qualidade dessas políticas, umas melhores, outras nem tanto, embora nenhuma delas seja nem de longe tão ruim quanto a política econômica.

(Vale a pena clicar no link acima e seguir o testemunho de Torres sobre o “interior mais pobrezinho do Nordeste”.)

Torres fecha o artigo dizendo que ‘A gente "daqui" precisa visitar mais o Brasil’.

É pouco provável que isso venha a acontecer, “porque Narciso acha feio tudo o que não é espelho”.

Esse desprezo pelo “Brasil real” é uma mistura de narcisismo, arrogância e intolerância.

Melhor enfrentar essa gente nas lutas sociais e nas urnas.

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