terça-feira, 31 de dezembro de 2013

“Vamos A La Playa oh o-o-o-oh”


Crédito da foto: sindicatodosmotoristas.com.br 

Todo “feriadão” (e até em feriadinhos e finais-de-semana) as pessoas se descabelam rumo à praia.

“Vamos a la playa oh o-o-o-oh”.

Os cariocas se descabelam para a região dos Lagos, um dos lugares mais feios e cafonas que conheço.

Outros brasileiros se descabelam para a “cidade maravilhosa” e para suas praias hiperpoluídas.

Os paulistas se descabelam para Santos (tudo que tem praia pra paulista é Santos).

Os mineiros se descabelam para o Espírito Santo e suas águas geladas e comidas horrorosas.

Os nordestinos se descabelam para Natal, Recife, Fortaleza...

Os brasilienses e goianos se descabelam para o sul da Bahia.

Quanta criatividade!

Mesmices

Para fugir do cotidiano, para fugir da rotina as pessoas repetem seus cotidianos, criam novas-velhas rotinas.

Quanta criatividade!

Conheci - na verdade trabalhei com ela – uma jovem mãe – linda, por sinal – que todo ano, em janeiro, saia de Manaus rumo ao Rio de Janeiro.

E todo ano voltava reclamando das chuvas, das cheias e das enchentes.

E todo ano voltava reclamando que não pode “aproveitar o melhor do Rio” por conta das chuvas, das cheias e das enchentes.

Isso sempre me pareceu meio estranho. Pra falar a verdade, incompreensível.

Um dia, meio cansado de tanta reclamação, perguntei se ela já fora com a família para Recife ou para Fortaleza. Disse que não. Que nem conhecia.

Isso me pareceu meio estranho. Pra falar a verdade, incompreensível.

Num País que tem 9.198 km de litoral e milhares de praias, por que as pessoas sempre vão para os mesmos lugares nos feriadões, nos feriadinhos, nos finais-de-semana, nos finais-de-ano?

Isso sempre me pareceu meio estranho. Pra falar a verdade, incompreensível.

Num País que tem centenas e centenas de rios, cidades históricas aos pacotes, cachoeiras e cascatas aos borbotões, por que as pessoas sempre vão para os mesmos lugares nos feriadões, nos feriadinhos, nos finais-de-semana, nos finais-de-ano?

Isso sempre me pareceu meio estranho. Pra falar a verdade, incompreensível.

Mas, enfim, quem sabe seja esta a tal da criatividade do brasileiro na qual muita gente acredita (e até festeja).

Portanto, “Vamos A La Playa” -  http://letras.mus.br/righeira/32938/#selecoes/32938/.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

“Um outro mundo é possível” (?)



2013 fecha-se para ficar na memória da população e da História como um ano paradigmático.

Seria um ano previsível (de que acontecesse tal como aconteceu), mas, mesmo assim pegou de surpresa a mídia (como sempre pouco atenta), as elites (empresariais e políticas que pouco prestam atenção às movimentações populares) e a própria população (em grande parte alheia aos movimentos que lhe dizem respeito, perdendo como está seu tempo e gastando a sua vida tentando sobreviver da melhor forma que lhe permitirem).

É isso que discute o jornalista Luciano Martins Costa nos dois textos abaixo, para o Observatório da Imprensa.

Fixa-se ele no comportamento das mídias, mas a extensão das suas análises para os outros grupos sociais se faz naturalmente.

A pergunta que fica e que está em um dos textos é “um outro mundo é possível” – o mote é do Fórum Social Mundial?

Talvez a questão tenha de ser reposta.

Para o brasileiro um outro mundo é possível e desejável, ou, como quase sempre acontece, vamos apenas ficar a reboque dos movimentos e acontecimentos internacionais, para que depois nos posicionemos, com as naturais perdas e com os naturais atrasos?

Vamos aos textos

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“O ano partido ao meio”
Por Luciano Martins Costa - http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/o_ano_partido_ao_meio - em 28/12/2013 na edição 778. Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 27/12/2013.

[O ano que se encerra deixa lições interessantes para quem observa o ambiente da mídia e a sociedade no Brasil. Foi um ano que se dividiu ao meio, exatamente no mês de junho, quando uma onda de manifestações colocou nas ruas a pauta das insatisfações que assombram principalmente os mais jovens. O ponto de conjunção desses descontentamentos é a mobilidade urbana, sem a qual tudo se torna mais penoso: a conquista da educação, a saúde, a segurança, a cultura e o lazer.

A imprensa, como todas as instituições, foi apanhada de surpresa, porque não acompanhou o desenvolvimento dos debates que vinham acontecendo desde os primeiros encontros do Fórum Social Mundial, em 2001. A ideia que se consolidava nessas reuniões de organizações sociais era que “um outro mundo é possível”.

A necessidade de romper a barreira da mídia institucional se tornou explícita durante o evento realizado em 2005, em Porto Alegre. Foi nessa ocasião que as organizações sociais empenhadas na agenda de mudanças se deram conta de que era preciso sair da reflexão para a ação. O processo se deu segundo o padrão das flash mobs, ou mobilizações instantâneas, que se tornaram possíveis com o crescimento e popularização das redes sociais digitais.

Talvez por trabalhar em estruturas hierarquizadas, e sem conexão com as redes capilares e complexas da sociedade, a mídia tradicional foi tão surpreendida quanto as instituições do poder público, quando os manifestantes saíram às ruas. Depois, foi o que se viu: apropriada por grupos organizados e facilmente manipuláveis, a onda de protestos se esvaziou em meio aos atos de violência policial e vandalismo.

No entanto, o processo ainda não se completou. A agenda básica das manifestações foi apenas parcialmente atendida, com o congelamento das tarifas de transporte público na maioria das grandes cidades, mas as razões para descontentamento não foram removidas.
Apesar de as ruas terem sido ocupadas por grupos oportunistas em favor de seus interesses específicos, o núcleo original das manifestações de junho volta a se articular.

Ano dos estilhaços

A possibilidade da volta das grandes manifestações deverá se tornar mais concreta após o período de festas, quando os estudantes retornarem às aulas e se derem conta de que, embora as tarifas tenham sido congeladas há seis meses, o transporte público segue sendo um tormento na maioria das cidades. Nas metrópoles, pelo excesso de veículos nas ruas e pela precariedade histórica do sistema de coletivos; nas cidades médias e pequenas, pela insuficiência e baixa frequência das redes. Junte-se a isso o recrudescimento do radicalismo político na imprensa, que acontece nos períodos eleitorais, e teremos o cenário perfeito para as tempestades sociais.

Em junho, quando as ondas de protesto tomaram as ruas, a mídia desviou a responsabilidade pelos descontentamentos para os poderes Executivo e Legislativo, ao mesmo tempo em que exaltava aquilo que era tido como o ponto de mutação do poder Judiciário.

As autoridades responderam a algumas das demandas, com medidas de impacto, como o lançamento do Programa Mais Médicos, o congelamento das tarifas de transporte e cortes de R$ 260 milhões nos gastos anuais do Senado. Na semana passada, uma nota na imprensa registrou que 95% dos médicos formados no exterior que se inscreveram no programa foram aprovados na segunda etapa do exame de proficiência.

O cenário apresenta um desafio interessante para a imprensa: se continuar priorizando declarações, que simplesmente aquecem a temperatura política, sem oferecer alternativas para os problemas nacionais, poderá estar dando uma força para os grupos que têm interesse na volta dos distúrbios. Se apostar num jornalismo crítico, mas fundado na análise dos desafios que se apresentam, poderá contribuir para o apaziguamento das ruas, mas estará poupando o governo federal, ao qual se opõe.

O ano que se inaugura promete uma complexidade nunca antes vista por aqui, com a realização da Copa do Mundo no Brasil, cujo encerramento irá coincidir com o início oficial da campanha eleitoral que, segundo as pesquisas, poderá definir a permanência, no poder federal, da aliança que governa o país desde 2003.

Por outro lado, a imprensa estará trabalhando com duas realidades econômicas antagônicas: aquela dos indicadores pessimistas, que costumam frequentar as manchetes, e a percepção das ruas, com desemprego em baixa, salários em alta e consumo aquecido.

Se 2013 foi um ano partido ao meio, 2014 poderá ser o ano dos estilhaços.]

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“Ilusão e utopia na imprensa”

Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa 

['Os jornais e revistas destes dias festivos trazem suas próprias versões dos fatos que consideraram mais relevantes no ano que termina. Em geral, são os acontecimentos que eles mesmos selecionaram ao longo do tempo, com os quais tentaram influenciar a opinião dos cidadãos.

Como a imprensa, de modo geral, há muito mergulhou no processo de espetacularização da notícia, tudo tem um certo ar de banalidade, como se o excesso de informações transformasse toda novidade em um ato a ser superado no momento seguinte.

As imagens remetem a um mundo de emoções misturadas: o lutador com a perna fraturada, a presidente da República denunciando guerra psicológica na economia, ruas vazias e praias lotadas, tudo acaba na conta do entretenimento.

Um olhar sobre o conjunto do universo mediado, que alguns chamam de hipermediado, passa a convicção de que o ambiente social, ou seja, o espaço público onde nos realizamos como seres sociais, está vazio de significados.

Se, como dizia Norbert Wiener, criador do conceito de Cibernética, o ciclo da comunicação reorganiza o mundo dos homens e das máquinas, criando uma resistência ao processo natural de nulificação, é preciso pensar se o que recebemos dos sistemas da mídia ainda é informação.

Boa parte do que a mídia apresenta como relevante não passa do conjunto de ilusões que formulam a estrutura simbólica da cultura de massa. Esse sistema institucional compõe um campo político próprio, com suas doutrinas e dogmas, e pode-se dizer que se assemelha muito ao sistema das religiões, onde a racionalidade é condicionada pelas crenças. Faz parte desse processo, por exemplo, tratar como ilusão as utopias coletivas, quase sempre apresentadas como objetivos inalcançáveis, em contraposição às potencialidades da vontade individual.

Uma dessas fantasias é exatamente a ideia de que existem seres superiores, capazes de produzir, por sua iniciativa particular, o paraíso capitalista. O ano de 2013 trouxe um exemplo catastrófico dessa ilusão específica, na figura do empresário Eike Batista.

Erigido a super-herói da iniciativa privada, ele montou um conglomerado de negócios com apoio do Estado, e tudo desmoronou quando se revelou que havia errado os cálculos de riscos numa empresa de petróleo. Quando foi à bancarrota, e sua fortuna caiu do patamar dos bilhões para “meras” centenas de milhões de reais, a imprensa passa a tratá-lo como um pária.

O padrão residual

Esse fato específico, visto a partir do final desastroso, dissimula o que se passa no dia a dia da imprensa. Em geral, se olharmos para trás, acompanhando a retrospectiva proposta por jornais e revistas, o que vamos ver é uma coleção de erros da própria mídia, com previsões que nunca se realizaram, avaliações que acabaram negadas pelos fatos, e análises que o tempo desmentiu. 

No entanto, no apanhado seletivo do passado recente, omitem-se os erros e renova-se a crença na capacidade do sistema de produzir reflexões lineares que possam se amoldar à realidade complexa e multifacetada. Como em todo processo comunicacional se produz sempre um padrão residual de informações que se convenciona chamar de realidade, a imprensa trabalha esse resultado como se fosse a completa realidade.

O curioso exercício de ler as retrospectivas tendo ao lado aquilo que a mídia apresentou sobre cada fato em seu tempo mostra como esses padrões residuais se distanciam dos fatos reais.

Sabemos que o processo de educação de uma sociedade passa quase sempre pela capacidade de seus indivíduos de identificar os sinais de realidade em meio aos eventos ilusórios da vida. Um povo alienado dificilmente aprenderá a reconhecer e exercer seus direitos e deveres de cidadania e um dos papéis da imprensa é colocar na agenda pública as informações socialmente mais relevantes e os meios para sua compreensão.

Até que ponto a manutenção de ilusões favorece o conservadorismo? O que impede o sistema da mídia, poder estruturante da indústria cultural, de propor uma visão mais progressista do mundo?

Quando o ano termina e as pessoas se abrem a manifestações de boa vontade, os balanços de notícias poderiam ser úteis para captar o que seria o desejo coletivo de uma sociedade melhor. Mas a seleção da mídia é centrada em sua própria versão da história, uma versão particular que prefere a manutenção das coisas como elas sempre foram.

“Muda o calendário, mas os dias são iguais."]

sábado, 28 de dezembro de 2013

Os índios são invisíveis, feios, sujos e malvados


Crédito: Sede da Funai incendiada em Humaitá (AM) – Foto Folhapress

Não é difícil entender o que está acontecendo em Humaitá, no interior do Estado do Amazonas.

As pessoas estão atacando os indígenas da região. As pessoas fazem isso desde 1500, então por que seria diferente em 2013?

Os índios não existem. Ou melhor, existem 800 e poucos mil indígenas, mas eles vivem ou em aldeias, pelados e sem produzir nada, ou andam perambulando por aí, com roupa, bêbados, se prostituindo e sem produzir nada.

Invisibilidade

Você certamente não conhece nenhum índio. Nunca viu um. Só ouviu falar.

Pudera... eles são invisíveis!

Você já ouviu falar de filhos de índios? De índio-descendentes?

Não tem. Além dos 800 e poucos mil indígenas que vivem por aí, não existem filhos de índios, netos de índios, bisnetos de índios.

Quem atesta isso é o IBGE (e também o IPEA).

Você já ouviu falar de negros, de brancos e de pardos (os moreninhos), estes todos afrodescendentes, não ouviu?

Mas de nenhum índio-descendente.

Curioso, não?

Morenice

Sabe essa morenice brasileira do cabelo escorrido e preto, da cara ovalada, dos olhos amendoados ligeiramente repuxados?

Como o IBGE e o IPEA não sabem de onde tudo isso vem, eles colocam tudo na conta da Mama África.

Afinal os índios não existem, são invisíveis, sequer têm filhos, netos e bisnetos.

Apenas vivem por aí; vagabundando por aí.

Curioso, não?

Estorvo

Recentemente conversei com um político da região.

Ele não gosta de índio.

Não gosta da Funai.

Não gosta das ONGs indigenistas.

“Eu não tenho nada contra os índios. Mas eles atrapalham pra danar”, me disse.

Foi também o que disseram a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e a Faea (Federação de Agricultura e Pecuária do Amazonas).

Eles estão preocupados com “o paradeiro dos três homens na reserva indígena em Humaitá”, pedem "providências urgentes", "mudanças imediatas na condução da política indigenista" e dizem que existem "fortes suspeitas de que os índios teriam atentado contra a vida de três pessoas”.

E?????

Elas, as instituições, os políticos, o povo de Humaitá só não explicam o que os três – um funcionário da Eletrobrás, um representante comercial e um professor – estavam fazendo numa reserva indígena.

Não é uma reserva?

Se é uma reserva está reservada a alguma coisa ou a alguém.

E seria para passeios de funcionários da Eletrobrás, de representantes comerciais e de professores?

Tenho cá minhas dúvidas.

Mas quem liga pra isso?

Os índios não existem, e ainda são feios, sujos e malvados.