sábado, 9 de novembro de 2013

Os intelectuau e a curtura brasilêra




Dos fundos da Amazônia escrevi uma carta - sim, era no tempo em que se escrevia carta em papel, a caneta ou a lápis, e eu até tinha uma caligrafia inteligível (sic) – a um sujeito chamando-o de intelectuau.

Pra não receber uma carta-resposta idiota mostrando que eu não sabia grafar a palavra corretamente escrevi literalmente intelectuau au au.

O intelectuau au au é aquele cara que adora colocar uma citação erudita atrás da outra para dar sustança às suas teses, cada vez que fala ou escreve.

São muletas intelectuais de quem quer mostrar erudição e cita marxs, touraines, durkheims, camus, foucaults da vida em grande profusão, como se isso fosse mudar a ordem das coisas, alterar a rotação de terra, baixar o preço do feijão e fazer do citador um intelectual (seja lá que diabos queira dizer isso).

São artesãos de patchwork, alinhadores de retalhos. Mas nem coser direito sabem, pois não conseguem usar a própria cabeça (o intelecto) para pensar por si.

Intelectualóide

Quando morei em Pernambuco, conheci uma hiponga gaúcha – ela e seu marido chegaram a morar em casa por algumas semanas – que gostaria, dizia ela, de ser uma intelectualóide.

Eu entendi que ela acreditava ser isso – intelectualóide – uma coisa boa, algo a ser buscado ou alcançado.

Outros entenderam que era uma brincadeira, uma provocação, uma ironia da parte dela.

Meno male.

O neologismo (nem tão neo assim) remete a uma justaposição de (suposto) intelectual com debilóide.

Talvez intelectuaus e intelectualóides se mereçam, e sejam a mesma coisa.

Criacionismo

Um sujeito que se enquadra nas duas definições está com um texto em um dos portais da internet (não, não vou dizer quem são um e outro) atacando Marina Silva.

O nosso bravo intelectuau (que também parece ser cineasta ou alguma coisa próxima a isso) garante porque garante que uma eventual vitória de Marina Silva na eleição presidencial do ano que vem levará o País ao obscurantismo.

E tudo porque a política acreana é crente, neopentecostal e, consequentemente, “criacionista”.

É legal essa história de pessoas como ele usar e abusar de conceitos vagos e difusos para sair bem na foto no mundinho dos intelectuaus, rotulando pessoas das quais não gosta e nem entende.

Há público pra isso. Há quem aplauda e curta essa baboseira toda, e até ache, de verdade mesmo, que está contribuindo para a “evolução da raça (sic) humana”.

Burrice

Trata-se, porém, no entanto, todavia, de uma burrice cavalar.

O criacionismo (já se falou dele por aqui) é uma religião criada nos EUA, e que tem um sem-número de dogmas (um tanto quanto estranhos, é verdade) e a crença (fé) de que Deus criou a vida.

Ora, pois, pois. Então por que cargas d’água não se diz que o judaísmo, o islamismo, o cristianismo, o hinduísmo, o bramanismo, as centenas de milhares de religiões indígenas, africanas, de países da Oceania são todas criacionistas?

Todas acreditam que alguém, algum ser espiritual, o vento, o bode ou uma lasca de pote criou a vida e, consequentemente, o universo.

Mas cá pra nós, não dá não.

Aí já seria dar um nó na cabeça do nosso garboso intelectuau, exigir dele um esforço mental ao qual não está acostumado, e para o qual não foi preparado.

Ele apenas sabe - e isso basta para seu mundinho - o que as revistas de fofoca, o Jornal Nacional, a Folha de São Paulo disseram sobre o criacionismo, e que Marina Silva crê em Deus.

Exigir mais do que isso é desumanidade e pode ser entendido como bullying.

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