quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os ingênuos são chatos pra cacete


Crédito da ilustração: www.layoutsparks.com

Acho o ingenuidade (credulidade?) um pé no saco, assim como a timidez. Mas não vou fazer nenhum discurso caretão sobre.

Bastam as matérias abaixo, uma que está no Carta Maior e outra no Diário do Centro do Mundo.

Se mesmo assim alguém ainda não entender, pode tirar o cavalinho da chuva que eu não vou desenhar.

Até sei pintar, mas desenhar sei não.

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“A guerra contra os pobres nos EUA”


[Estudo mostra que bases republicanas são conscientes de sua condição de brancos em um país no qual isso é cada vez mais minoritário. Por Paul Krugman

Ultimamente John Kasich, governador republicano de Ohio, tem feito algumas coisas surpreendentes. Em primeiro lugar, driblou a assembleia legislativa de seu Estado — controlada por seu próprio partido — para levar adiante o programa Medicaid, financiado com fundos federais e uma peça importante da reforma sanitária de Obama. Depois, em defesa de sua atuação, disparou contra seus aliados dizendo: “Me preocupa o fato de que, aparentemente, está sendo travada uma guerra contra os pobres. Ou seja, que se você é pobre é porque, de alguma maneira, você é um incompetente e um vagabundo”.

Evidentemente, Kasich não é o primeiro a fazer essa observação. Mas o fato de que venha de um republicano respeitado (ainda que já nem tanto), precisamente de alguém que tinha fama de ser um agitador de ideias conservadoras, é revelador. A hostilidade republicana para com os pobres e os desfavorecidos se exacerbou até tal ponto que, na verdade, o partido já não defende outra coisa, e só um observador obstinado e em sua cegueira pode ser incapaz de vê-lo.

A grande pergunta é: “Por quê?”. Mas antes vamos falar um pouco do que está corroendo a direita.

Às vezes ainda vejo alguns especialistas declararem que o que move o Tea Party é, basicamente, a preocupação pelos déficits orçamentários. Fantasias. Leiam as cascatas de Rick Santelli, da CNBC: não há uma só menção aos déficits. Existe, sim, um bombardeio contra a possibilidade de que o Governo ajude os “perdedores” a evitar a execução de suas hipotecas. Ou leiam as transcrições de Rush Limbaugh ou de outros convidados radiofônicos da direita. Não contém muito sobre a responsabilidade fiscal, mas sim sobre como o Governo recompensa os vagabundos que não merecem.

Os líderes republicanos tentam moderar um tanto sua linguagem, mas é questão mais de tom que de conteúdo. Não cabe dúvida de que continua enaltecendo a ideia de assegurar-se de que os pobres e os desafortunados recebem a menor ajuda possível, e de que — tal como o expressou o deputado Paul Ryan, presidente da Comissão Orçamentária da Câmara de Representantes — o colchão de proteção social está se transformando em “uma rede na qual se balançam as pessoas fisicamente sãs para que vivam da dependência e da complacência”. Suas propostas orçamentárias incluem cortes selvagens dos programas de proteção social como os cupons para alimentos ou o programa Medicaid.

Toda essa hostilidade contra os pobres culminou com a negativa verdadeiramente incrível de muitos Estados em participar na ampliação do Medicaid. Lembrem que o Governo federal pagaria esta ampliação, e que o dinheiro que se gastasse iria em benefício dos hospitais e da economia local tanto como dos receptores diretos. Mas acontece que a maioria dos Governos dos Estados sob controle republicano estão dispostos a pagar um alto preço econômico e fiscal para garantir que a ajuda não chegue aos pobres.

A questão é que as coisas nem sempre foram assim. Retrocedamos por um momento a 1936, quando Alf Landon foi nomeado candidato a presidente pelos republicanos. Em muitos sentidos, seu discurso de investidura antecipava temas que os conservadores fazem seus hoje em dia. Se lamentava de que a recuperação econômica era incompleta e pela persistência do desemprego elevado, e atribuía a debilidade crônica da economia a uma excessiva intervenção do Estado e à incerteza que, segundo ele, esta provocava.

Mas também disse: “Da Depressão se desprende não apenas a dificuldade da recuperação, mas também o problema igualmente grave da proteção dos desempregados até que se alcance a recuperação. Dar assistência em todo momento é simplesmente um dever. Nós, os membros de meu partido, nos comprometemos a não descuidar nunca desta obrigação”.

Podem imaginar um candidato republicano dizer algo assim hoje em dia? Desde já, não em um partido comprometido com a ideia de que os desempregados ganham tudo muito fácil; de que o seguro de desemprego e os vales-alimentação os deixam tão satisfeitos que não encontram nenhuma motivação para sair e buscar trabalho.

Então, qual é o xis da questão? Em um recente ensaio, o sociólogo Daniel Little insinuava que uma das razões é a ideologia do mercado: se o mercado sempre tem razão, então as pessoas que acabam na pobreza é porque merecem ser pobres. E eu acrescentaria que alguns dirigentes republicanos representam em suas mentes fantasias libertárias adolescentes. “É como se neste momento estivéssemos vivendo em uma novela de Ayn Rand”, dizia Paul Ryan em 2009. Mas, como afirma Little, também está o estigma que nunca se apaga: a raça.

Em um relatório recente citado em múltiplas ocasiões, a Democracy Corps, uma organização de tendências democratas dedicada aos estudos de opinião, expunha as conclusões dos grupos de debate com membros de diferentes facções republicanas. Descobriram que as bases republicanas são “muito conscientes de sua condição de brancos em um país no qual isso é cada vez mais minoritário”, e que consideravam que o sistema de proteção social ajuda aos outros, não as pessoas como eles, e vincula a população não branca ao Partido Democrata. E, efetivamente, a ampliação do programa Medicare que muitos Estados estão recusando teria favorecido de forma desproporcional os negros pobres.

Assim que é verdade que se está travando uma guerra contra os pobres, coincidindo com — e aprofundando em — o padecimento que ocasiona uma economia com problemas. E essa guerra é agora o assunto central e definidor da política nos Estados Unidos.]

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“O rottweiler americano: quem é o republicano Ted Cruz”


[O senador Ted Cruz, prodígio republicano do Texas, decidiu revelar -se o guardião sagrado da ortodoxia do Tea Party, um homem com a missão de salvar a  América de Obama e sua horda marxista. Raramente um senador novato surgiu no cenário político americano com tanto talento e fervor como Cruz. Sua vontade de tomar o controle da direita republicana o transformou num dos homens mais odiados da política. A marca de bajulador do populismo puritano provocou comparações com o falecido Joseph McCarthy, outro grande demagogo cuja tática era espalhar o terror no início dos anos 50.

Mas a paranóia é apenas uma das táticas empregadas por Cruz. Ex aluno de Princeton, debatedor reconhecido, Cruz tem a retórica escorregadia e o charme brega de um vendedor de óleo de cobra. Felizmente para o mundo, seus argumentos ideológicos não são páreo para sua oratória – há uma base limitada de fãs para alguém que se opõe ao aborto, a programas saúde e a praticamente toda iniciativa de ajudar os pobres, proteger o meio ambiente e limitar os efeitos mais extremos do capitalismo de livre mercado. Além disso, Cruz usa seus argumentos de tal forma reptiliana que fez de si mesmo um alvo fácil para a caricatura, ao invés da adoração. Há algo terrivelmente perturbador em seu estilo, que lembra um fundamentalista cristão prepotente dando sermão para seu rebanho.

No centro de sua ladainha populista está a desconfiança nas instituições democráticas. Sua obstrução infame ao ObamaCare deixou furiosos colegas da velha guarda republicana, como John McCain, que o chamou de “pássaro maluco” por ter ajudado a atirar a popularidade do Partido Republicano a seus níveis mais baixos em décadas.

A verdade é que Ted Cruz é uma aberração política, um auto-intitulado “libertador” que acredita que só Ele tem a verdade e só Ele pode conduzir sua nação à terra prometida.

O verdadeiro perigo que Cruz representa está em sua capacidade de agitar a histeria conservadora em uma paisagem política americana cada vez mais polarizada. Desde 2009, o Partido Republicano foi arrastado mais para a direita por causa do Tea Party, financiado por uma quantidade enorme de dinheiro fornecida pelos irmãos Koch e outros industriais covardes.

O fator Cruz

Cruz envenena o clima político sem oferecer quaisquer objetivos políticos coerentes além do enxugamento do estado e de reduzir o debate a afirmações selvagens de ideologia que não deixam espaço para um terreno comum.

De acordo com Cruz, o Partido Republicano deve reafirmar-se como o partido da promessa econômica e, portanto, de maior mobilidade social, apesar de toda a evidência econômica sugerir que a desregulamentação desenfreada serve apenas para aumentar o fosso entre ricos e pobres.

A conseqüência disso é que, enquanto democratas e republicanos eram capazes de discutir compromissos, agora é praticamente impossível. Liderados pelo irresponsável John Boehner, esses congressistas estão cada vez mais ligados ao mantra da direita de não aumentar impostos e não se opor a qualquer medida contra Wall Street ou ao combate a emissões de carbono.

A marca do narcisismo político de Cruz pode muito bem ter vida curta. Os eleitores provavelmente vão cansar da arrogância viscosa, da pausa calculada e do arsenal de expressões faciais e gestos que parecem ter sido praticados na frente de um espelho no circo.

Mas, até lá, a coisa vai piorar. O Obamacare, por exemplo, foi aprovado por lei em 2010, quando os democratas controlavam tanto o Senado quanto a Câmara. É quase inédito para qualquer partido de oposição tentar, como Cruz tentou, forçar a revogação ou a anulação de legislação aprovada em governos anteriores. Ele e seus companheiros talebãs do Tea Party se recusam a admitir o absurdo de suas reivindicações.

Ele sabe que seus argumentos são sofismas. É por isso que se trata de um demagogo mais perigoso do que Joe McCarthy, que estava tão cego pelo ódio aos comunistas que acreditava em grande parte de seu próprio discurso de duplo sentido. Apesar de seu objetivo declarado de limpar a nação norte-americana de elementos comunistas – reais ou imaginários -, o macarthismo empregava os mesmos métodos que os governos nazistas e de estilo soviético na Europa Oriental para se livrar de “inimigos do Estado”.

Antes que se pense que as comparações com McCarthy são exageradas, precisamos apenas recordar os ataques de Cruz ao indicado de Obama para secretário da Defesa, Chuck Hagel, durante sua audiência de confirmação no início do ano. Cruz havia sido empossado como senador do Texas um mês antes, mas estava ansioso para crescer em cima de Hagel — ex-senador republicano, aliás. Cruz especulou que Hagel tinha recebido um suborno de US$ 200 000 de um governo estrangeiro como a Coreia do Norte ou a Arábia Saudita. Esta alegação foi tão insidiosa que ele recebeu uma reprimenda da colega Lindsay Graham, acusando-o de ultrapassar todos os limites.

Detonando o Obamacare

Cruz e seus companheiros republicanos talibãs estão com as cepas mais antidemocráticas do mundo. Seu populismo não é muito diferente do movimento de extrema-direita liderado pelo primeiro-ministro húngaro Victor Orban, que chegou ao poder em 2010, e que corre o risco de ressurgir na Polônia.

A mensagem de Cruz consiste em empregar táticas para convencer os americanos raivoso de que Obama é um muçulmano no armário, empenhado em transformar a América em um estado socialista.

Não são ameaças vazias. Graças à enorme riqueza de vários doadores do Partido Republicano, como os irmãos Koch, muitos republicanos moderados se desviaram para a direita a fim de passar no teste de pureza ideológica do Tea Party. É como na Alemanha. Sob Hitler, os alemães foram pressionados a fazer um juramento de lealdade ao partido nazista, método escolhido pelo Führer para impor disciplina partidária rígida.

Sua conduta oscila entre a perturbação e a traição, na medida em que tenta minar a autoridade do presidente dos EUA e questionar sua lealdade e motivações ao tentar introduzir um modelo de saúde pública mais abrangente.

A doutrina constitucional americana de “razoabilidade”, que manteve os partidos Democrata e Republicano em um estado de simbiose mútua, está agora à beira de um colapso.

Historicamente, o Partido Republicano tem defendido os direitos do indivíduo à vida, à liberdade e à busca da felicidade em um país que minimiza o papel do governo federal na regulação de tais práxis. Entretanto, ao atacar o princípio do governo da maioria, Cruz e o Tea Party estão invocando o tipo de intolerância antidemocrática mais comum na extrema direita europeia.

Pode-se apenas esperar que, assim como na era McCarthy, sempre haverá homens suficientemente razoáveis, ​​em ambos os lados do espectro político, dispostos a expor o mal e a mentira no coração e na mente de um palhaço perigoso como Ted Cruz.]

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