segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Os europeus ainda se acham (?)




Crédito da ilustração: Patrick Chappatte / presseurop

Confesso que tive de ler diversas vezes o texto que segue abaixo, na íntegra, do jornalista italiano Angelo Panebianco para o Corriere della Sera (Milão/Itália) para tentar entender quais as intenções nele embutidas.

É um texto primoroso e sucinto de Panebianco, um  “politólogo italiano e cronista” que “escreve sobre política nacional (italiana) e relações internacionais”.

A tradução – para o ótimo sítio Presseurop – é também primorosa.

O italiano – que não se contaminou tanto assim pelos maneirismos linguísticos importados e nem por gírias locais estúpidas – assim como o português de Portugal – é de fácil tradução, o que faz com que não se perca absolutamente nada do original.

Mas é preciso ir além das elegâncias de Panebianco e da tradução, das palavras bem colocadas, das frases bem construídas, do raciocínio lógico e claro para se enxergar o arraigado eurocentrismo do autor. O velho e decadente eurocentrismo.

Que pode, de pronto, ser enxergado em algumas passagens do texto:

-  (o papa fala em) “Ocidente, sedento de lucros”;
- “Papa oriundo de um mundo muito diferente do nosso”;
- “A terra onde Bergoglio se formou (Argentina) tem uma tradição muito diferente da tradição da Europa liberal”;
- “Quando os Papas eram italianos, as outras Igrejas católicas europeias conciliavam sabiamente a fidelidade ao Bispo de Roma com a valorização das especificidades nacionais.”;
- “Cabe às diferentes Igrejas nacionais, incluindo à italiana, valorizar, aos olhos do Sumo Pontífice, aquilo que a tradição europeia tem de bom e de característico, e que não pode ser redutível a outras experiências.”;
- “Independentemente da simpatia que este Papa suscita hoje, a sua mensagem universalista poderá, a longo prazo, quebrar-se contra as barreiras e os fossos, forjados pela História, que separam a Europa dos outros mundos.”.

Vamos ao texto de Panebianco:


[Pela primeira vez em treze anos, o Papa vem de outro continente que não a Europa, e de uma cultura que não partilha obrigatoriamente os mesmos valores. Será um sinal de declínio do Velho Continente?, interroga-se o “Corriere della Sera” enquanto o Papa Francisco se reúne com o ortodoxo Vladimir Putin.

A 25 de novembro, Vladimir Putin virá a Roma, ao Vaticano, para se reunir com o Papa. Para além dos outros significados que essa visita possa ter, sobretudo para as futuras relações entre o catolicismo e o cristianismo ortodoxo, será também um encontro entre dois homens que, no ano passado, deram consigo na posição de aliados contra os Estados Unidos (e contra a França), na questão da Síria. Enquanto o indeciso Obama desfolhava o malmequer para decidir se iria ou não intervir militarmente para castigar Assad pelo uso de armas químicas, Putin e Francisco agiam em plena sintonia para bloquear a intervenção norte-americana. O Papa levou a polémica ao ponto de levantar a hipótese de a guerra civil na Síria ser deliberadamente alimentada por aqueles que tinham a ganhar com a venda de armas. Referia-se sobretudo ao Ocidente, sedento de lucros.

É urgente que a Europa reflita sobre o que significa, não só para a Europa mas também para todo o Ocidente, o facto de haver um Papa oriundo de um mundo muito diferente do nosso. Um Papa que, no que se refere à Europa, alia paradoxalmente diversidade cultural e uma grande capacidade de despertar atenção, atração e mesmo entusiasmo.

A relação entre o Papa e o seu rebanho, e a sua tentativa de reformar em profundidade a Igreja de Roma, são questões que interessam ao mundo católico e devem ser observadas com respeito por aqueles que não pertencem a esse mundo. Mas a relação do Sumo Pontífice com a Europa é uma questão que interessa a todos os europeus. Tal como lhes interessam as mudanças geopolíticas em curso. E um dos aspetos dessas mudanças, talvez um dos mais importantes, é precisamente a chegada de Jorge Mario Bergoglio à Santa Sé.

A Europa já não é a Respublica Christiana

Pode dizer-se que a chegada de um Papa oriundo da América Latina saneou uma anomalia que, década após década, se tornara cada vez mais evidente e também mais gritante. Ao mesmo tempo que se difundia e consolidava fora da Europa, o catolicismo recuava aparatosamente naquele que foi em tempos o coração da Respublica Christiana.

A Europa é sem dúvida o continente onde, década após década, a secularização (sob a forma de descristianização) atingiu maior profundidade.

Desse ponto de vista, a Europa é a exceção, em comparação com o resto do mundo (Estados Unidos incluídos). O vigor e a vitalidade persistente do catolicismo, e do cristianismo em geral, nas regiões exteriores à Europa, vieram contrabalançar o seu recuo no Velho Continente. Ao ponto de alguns sociólogos das religiões colocarem a hipótese de, se a tendência se mantiver, o cristianismo poder passar em breve a ser quase exclusivamente uma religião extraeuropeia. É nesse sentido que a eleição de Bergoglio veio sanar uma anomalia.

A terra onde Bergoglio se formou tem uma tradição muito diferente da tradição da Europa liberal

Mas, naturalmente, essa eleição teve também um significado geopolítico mais vasto. Foi um sinal, e uma ilustração, do drástico redimensionamento em curso do peso do mundo ocidental nos equilíbrios mundiais. Em benefício dos mundos não ocidentais emergentes. É normal que um homem da Igreja, seja ele Papa ou um simples padre, radique também a sua visão cristã nos valores e nas ideias próprias da sociedade da qual provém. E é um facto que a terra onde Bergoglio se formou tem uma tradição muito diferente da tradição da Europa liberal. Essa circunstância poderá, ao longo do tempo, criar alguns problemas na relação entre este Papa e a Europa: um mundo do qual sabe pouco e, pelo que se depreende das suas palavras, esse pouco não lhe agrada muito.

As Igrejas da “periferia”

A grande força do catolicismo sempre foi aliar o poder da sua mensagem universalista de salvação à capacidade de valorizar as experiências e as especificidades locais. Quando os Papas eram italianos, as outras Igrejas católicas europeias conciliavam sabiamente a fidelidade ao Bispo de Roma com a valorização das especificidades nacionais. Na presença dos Papas europeus, as Igrejas de fora da Europa faziam a mesma coisa, como era justo que fosse.

Isso acontecia ainda durante o pontificado de João Paulo II, cujo carisma não ficava nada a dever ao de Bergoglio. Mas, então, o centro do catolicismo continuava solidamente ancorado na Europa e as Igrejas extraeuropeias constituíam a “periferia”. Hoje, é a Europa que desliza para a periferia e é travada apenas pelo facto de a sede física do Papado continuar em Roma. Uma situação inédita para os católicos europeus (e, na realidade, para todos os europeus).

Cabe às diferentes Igrejas nacionais, incluindo à italiana, valorizar, aos olhos do Sumo Pontífice, aquilo que a tradição europeia tem de bom e de característico, e que não pode ser redutível a outras experiências. Sem isso, é difícil imaginar, no futuro, entendimentos duradoiros e harmonia entre a Igreja e a Europa. E a primeira não encontrará facilmente os caminhos para travar a secularização da segunda. Independentemente da simpatia que este Papa suscita hoje, a sua mensagem universalista poderá, a longo prazo, quebrar-se contra as barreiras e os fossos, forjados pela História, que separam a Europa dos outros mundos.]

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