domingo, 17 de novembro de 2013

Lula amarelou? Bateu fofo? Está fazendo nas calças?




Crédito da foto: commons.wikimedia.org

Em setembro do ano passado o frei Leonardo Boff escreveu um artigo – que voltou a “bombar” na internet – afirmando que o julgamento da AP 470, “Mensalão”, visava atingir o Partido dos Trabalhadores, e não necessariamente José Dirceu e os outros acusados.

É necessário contextualizar isso tudo.

O frei Boff é doutor em Filosofia e Teologia e um dos expoentes da Teologia da Libertação.

A mão pesada do Vaticano caiu-lhe sobre a cabeça e Boff teve os seus livros “indexados” no “Index Librorum Prohibitorum”.

Pois é... a igreja católica ainda usa esses artificios medievais contra os seus “inimigos”.

Saiu – mais ou menos – da igreja, mas não das lutas sociais.

Boff – nem sempre concordo com tudo o que diz, e já registrei isso aqui no afalaire – é um lutador de primeira hora das causas sociais, assim como são, por exemplo, dom Tomás Balduino, João Pedro Stédile e os Josés condenados, Dirceu e Genoíno, e não um temporão, como Lula da Silva.

O frei argumenta no artigo que há um conluio das elites que envolve empresários, mídia, corporações internacionais e parte da classe média para dinamitar os programas sociais do governo.

Criminalização

É voz corrente nos movimentos sociais que estamos em meio a uma “criminalização” dos ativistas e do ativismo de direitos humanos, ou, como diz um amigo, uma “criminalização da pobreza”, prática que se espelha em afirmações como “as favelas são lugares de bandidos” e “os direitos humanos só defendem bandidos”.

A rigor essa criminalização sempre existiu – e para que não precisemos olhar para o exterior basta que nos lembremos das conjurações baiana e mineira, de Lampião e de Antônio Conselheiro.

Portanto, o frei Leonardo Boff quis dizer mais do que disse.

Fala aí, Lula

Em artigo publicado no Diário do Centro do Mundo, ontem, o jornalista Paulo Nogueira incita o ex-presidente Lula da Silva a se pronunciar sobre a prisão dos réus da AP 470.

Em todas as medidas, o reclamo de Nogueira se conecta com o texto setembrino de Boff.

E quem melhor que Lula da Silva para dizer alguma coisa?

É de se esperar que ele fale essa “alguma coisa”?

NÃO!

Dupla-face

Há quem estranhe esses silêncios (no plural mesmo) “diante dos fatos” de Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff.

A presidente estaria moralmente impedida por seu cargo e por estar às vésperas de uma eleição (2014).

E Lula da Silva? O que o impede?

Aí teríamos que fazer uma nova conexão, e nos ligarmos à coluna de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo de hoje (veja a íntegra da coluna abaixo).

Paira sobre o “Mensalão” uma figura não-identificável.

Alguém que incitou e deflagrou todo o processo, e não seria Lula da Silva.

Mas com que propósito?

Atingir Lula da Silva? Desalojá-lo de seu pedestal? Re-arrumar os caminhos do PT em direção a um socialismo bolivariano ou cubano?

Se for isso, os Josés e Delúbio – uma espécie de gênio da lâmpada petista – participaram de uma rebelião anti-lulista?

A se conferir com a História.

Vamos ao texto de Jânio de Freitas.

“Um nome guardado”

[Dirceu, Genoíno e Delúbio estão levando para a prisão o segredo de um nome que não quiseram mencionar.

No dia em que for contada a história verdadeira dos fatos cuja versão predominante prestou-se ao chamado julgamento do mensalão, entre outros possíveis personagens novos estará ao menos um que, por si só, muda a configuração e a essência da história conhecida.

Duas observações urgentes aqui. A primeira é de que não me refiro a Lula, como o personagem de relevância especial.

A outra é a de que não conheço os fatos completos. A partir de duas inserções breves e bastante sutis, que me foram dirigidas em conversas diferentes há poucos meses, passei a rever muitas anotações feitas desde o começo do caso mensalão, interrogatórios, depoimentos e conversas memorizadas ou com pontos focais por mim registrados. Nada de excepcional no trabalho de jornalismo.

Como também consigo ser sutil às vezes, foi desse modo que testei minha constatação com um dos que poderiam derrubá-la. Sobreviveu. E, se não posso expô-la por motivo legal, basicamente falta de prova objetiva e firme, posso dizer com convicção: a cada vez que cruzarem a porta de sua reclusão, José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares estarão levando o segredo de um nome e de fatos que não quiseram mencionar. Ou, na linguagem vulgarizada pela ditadura, não quiseram entregar ou dedurar.

Os ministros do Supremo, como todos os juízes, julgaram o que foi submetido ao seu conhecimento jurídico e, mais ainda, às suas consciências. O mesmo não pode ser dito sobre a Procuradoria-Geral da República, que teve a responsabilidade de reunir e passar ao STF as informações e comprovações apuradas, as conclusões e suas acusações no caso. Ficou muito por apurar e muito por provar. A quem tiver curiosidade e paciência, sugiro começar pela leitura dos interrogatórios da CPI dos Correios, onde se encontra, ligeira e não explorada, uma pista (a primeira, creio) do que veio a ser um segredo por amizade, ou por companheirismo, ou por ética pessoal, com os mesmos ônus nas três hipóteses.

Civilização

Por falar no Supremo, sua sessão da semana passada sobre o mensalão não foi apenas uma das mais tensas nesse processo de divergências tensionantes. Voltou a ter ocasiões de hostilidade que desmoralizam o Judiciário e sobretudo o próprio Supremo. Além de não menos desmoralizantes posições como a recusa, com o argumento de que "é preciso acabar com este julgamento", a reexaminar um erro grave: o réu Jacinto Lamas foi condenado a pena maior do que o chefe dos seus atos, este também autor de maior número das condenadas lavagens de dinheiro. Isso pode ser justiça emanada do Supremo? E aquele é à altura de ministros do Supremo?

Tão grande foi a balbúrdia da sessão do outrora dito "vetusto tribunal" que ao fim o ministro Joaquim Barbosa não conseguiu dizer o que fora decidido, e precisou adiar a proclamação. Impossibilidade e causa, provavelmente, sem ocorrência, jamais, no velho Supremo.

Nada disso sequer motivado por questões relativas a petistas, como em tantas vezes. Foi só desinteligência mesmo, em qualquer sentido da palavra. Com os níveis de civilidade, entre a melhor educação e o seu oposto absoluto.

Olímpica

Uma exibição de eficiência real no Supremo. Na quarta-feira, a ministra Cármen Lúcia movimentou o processo penal movido contra Fernando Collor, passando-o ao revisor Dias Toffoli. Era um recorde. Na manhã daquele dia, o "Globo" publicara a manchete "Collor está próximo de se livrar da última ação no STF". Isto porque "o processo está parado no gabinete da ministra Cármen Lúcia desde outubro de 2009 sem qualquer movimentação". De quatro anos a algumas horas.

Tofolli não precisou de manchete, liberando prontamente o processo para votação. Mas a verdade é que a sem-cerimônia com que alguns ministros guardam determinados projetos, bem determinados, só é proporcional à rapidez com que as manchetes os apressam.

(A manchete do "Globo" por certo contrariou um terceiro ministro).

Impunes

Os comentaristas que veem, no caso mensalão, "o fim da impunidade" e outras maravilhas nacionais poderiam explicar o que se passa, então, com o mensalão do PSDB, que se espreguiça desde 1998, já com prescrições havidas e outras iminentes para seus réus. Também serve uma explicação sobre o jornalismo e aquele processo.

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