sábado, 30 de novembro de 2013

Gaste muito, mas não se esqueça do troco


Pelourinho, por Jean Baptiste Debret, 1827 - ambiente.kohn.eco.br

Um desses comentadores-de-TV e professor-de-universidade estava, ontem à noite, reclamando do clima de radicalização que se estabeleceu no País com o julgamento da AP 470 (“Mensalão do PT”) e a prisão dos “mensaleiros do PT” na Papuda.

Teme ele que esse clima “de radicalização” se estenda até o ano que vem, ano da eleição presidencial, e que isso venha a ser prejudicial ao País e “principalmente à Democracia”.

Outros comentadores já disseram isso e continuarão dizendo.

Ele, como os outros todos, começou falando da radicalização esquerda-direita, mas no meio do discurso cedeu (como todos os outros cederam, cedem e continuarão a ceder): a culpa é dos petistas, do PT.

1/3

É possível concordar com um terço dessa falação toda.

Realmente a coisa está pegando e muito provavelmente se chegue a um grau de confronto poucas vezes visto no Brasil.

Não se sabe se se chega às escaramuças nas ruas, atentados e agressões (físicas).

Aparentemente não. É bem provável que tudo fique nos discursos, nas falas e especialmente circunscrito às redes sociais.

Restante maior

Já sobre o restante não dá para concordar não.

Comecemos pela “culpa” do PT e dos petistas.

Essas historinhas não vi em aulas de História até porque elas não estão por lá. Vi como jornalista e como batedor-de-perna pelo Brasil por esses anos todos (e vou continuar).

Primeira historinha – numa eleição qualquer ao governo do Estado de São Paulo o PT tinha razoáveis chances de vencer, mas eis porém que de repente explode na mídia o assassinato de um fazendeiro e mais um ou dois empregados, num interior desses lá por perto das barrancas do rio Paraná.

Culpa de quem? Culpa de quem? Obviamente de petistas e de militantes do MST (petistas, pois não?).

Maluf eleito após a contagem dos votos eis que a sempre expedita e nobre polícia de SP vem a público para dizer que o crime foi o resultado de uma disputa de terras entre fazendeiros.

Aí Inês é...

Segunda historinha – semanas antes da eleição presidencial que levou Collor de Mello ao Palácio do Planalto a polícia paulista estoura o cativeiro e liberta o empresário Abílio Dinis.

Na cena do crime camisetas e material de divulgação do Partido dos Trabalhadores.

Culpa de quem?...

Anos depois da vitória e da posse collorida, a própria expedita e nobre polícia de SP vem a público para dizer que as camisetas e o material de divulgação “foram plantados” na cena do crime.

Aí Inês é...

Pulemos de cena

Por fim, vamos ao último 1/3 das preocupações do professor-comentador: o perigo para o Brasil e para a Democracia.

Como assim? Não é no confronto que se cresce? Que se refina o pensamento? Que se evolui? Que se aparam as arestas?

O que será que o professor-comentador está querendo dizer?

Que melhor seria para o futuro deste “Brasil varonil” que voltássemos à escravidão, quando o escravizador prendia o preto-escravo no pelourinho e tome-lhe chibatada, e “nem um pio aí, seu preto desgraçado”?

Será que o professor-comentador (e todos os outros) acham que a evolução chega a chibatadas?

O professor-comentador (e todos os outros comentadores) parece não ter aprendido uma lição elementar da saga humana: NA VIDA TUDO TEM TROCO.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Esse é o legado que a UnB vai deixar para a História?


Crédito da foto: UnB

Alguns meses após mudarmos para Brasília fui a São Paulo e visitei um casal de amigos.

A filha mais velha deles (na época estudante de Direito no Largo de São Francisco) me questionou, perguntando se eu deixaria minhas filhas estudarem por aqui.

Disse que sim, que agora morávamos em Brasília e que a educação por aqui não era nem pior, nem melhor que a do restante do País.

A preocupação dela, no entanto, era com a universidade. Respondi que não daria palpite nas escolhas delas, que elas estudariam onde quisessem.

Senti uma indisfarçável pontinha de provincianismo nos questionamentos – todos nós, em alguma medida, somos provincianos.

Mas em sua defesa acrescente-se que a irmã estudava biologia em um campus da USP no interior do Estado, a mãe era professora e desenvolvia projetos importantes de reinserção de jovens na educação de base, e o pai era (e é) um renomado físico brasileiro que fora, inclusive, chefe do departamento de Física da USP.

Prestígio

O questionamento da futura advogada, porém, dá uma boa medida do prestígio do ensino universitário de Brasília em outras regiões brasileiras – especialmente no Sudeste e no Sul.

Não me parece que alguém se descabele vindo de Picos (PI), de Santa do Livramento (RS) ou de Patos de Minas (MG) para lutar por uma vaga na UnB, por exemplo.

Também não tenho notícias de alguém que voltou aos prantos para casa após “não passar” no vestibular da principal universidade da Capital Federal.

Mas também não nos fiemos nesses rankings universitários (nos quais a UnB quase nunca aparece), pois ranking de universidade é coisa parecida com escolha de miss ou premiação do Oscar.

Os médicos

A decisão do presidente do STF, Joaquim Barbosa, de escolher uma junta médica (cinco) para examinar José Genoíno também não ajuda muito a resgatar o prestígio da Universidade de Brasília.

O preso foi avaliado pelos cinco “doutores” da UnB em condições especiais: após estar “em casa” com seus familiares, após tomar sua medicação no tempo previsto e após se alimentar corretamente.

Convenhamos: comparar o estado clínico de Genoíno detido “em casa”, com o estado clínico de Genoíno preso na Papuda é como comparar água do mar com leite de coco.

E mesmo assim a junta médica unebesista viu por bem afirmar que o preso não precisa de tratamento especial e diferenciado.

Equívoco

Se Joaquim Barbosa apenas quis dar prestígio à universidade na qual estudou ou se apenas foi mais uma de suas decisões monocráticas que pelo menos escolhesse melhor os “doutores” e não apenas gente de militância declarada e ativa anti-petista.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

“O mal é bom e o bem cruel” (*)


Crédito da ilustração: www.meupapeldeparedegratis.net 

Países em que as pessoas sequer olham para sua cara “em sinal de respeito” e de não intrusão na vida alheia costumam ter grupos neonazistas ativos e violentos.

Quem acha que o mundo deveria ser todo arrumadinho, sem guerras e violências, sem conflitos e discussões nasceu no lugar errado.

Bons exemplos de que essa vidinha bucólica, pacata e meio bobona não existe e nunca existiu, estão na raiz de todas as religiões: é luta, traições, mortes violentas para todo que é lado.

Não escapa nenhuma: das “grandes religiões” às ditas religiões primitivas.

A cobra, a sedução de Eva e Caim, por exemplo, não estão em Gênesis fazendo figuração.

São atores principais da saga humana.

Podemos nos tornar civilizadinhos, não discutir nem brigar com mais ninguém?

Podemos. Basta criar um regime totalitário que nos ministre doses diárias de soma (a droga do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley).

Estamos quase chegando lá.

Idiocracy

Quem quiser “aprofundar” um pouco mais a reflexão sobre a violência e a evolução humana nem precisa ler Huxley ou os textos religiosos sobre a criação do mundo.

Basta assistir Idiocracy (2006), de Mike Judge, com Luke Wilson e (a ótima) Maya Rudolph.

O filme é classificado como de “humor negro” (negro? Que preconceito!), mas o que mostra mesmo é que o mundo está se afundando numa pasmaceira “antes nunca vista” - para usar um mote do governo de Lula - , “desconcentrado numa distopia onde marketing, consumismo e anti-intelectualismo cultural funcionam desenfreadas e que a pressão disgênica resultou numa sociedade humana uniformemente estúpida” (WP).

Está se vendo nesse mundo quinhentos anos à frente do seu tempo?

Debaixo da saia

E nem tente se esconder debaixo das saias da ciência atual. Ela nos mostra que nascemos de uma grande explosão (Big Bang). E alguns cientistas enxergam o dedo de Deus apertando o botão.

E nem vá procurar consolo nos cientistas-revisionistas do Big Bang. Eles dizem que não foi uma explosão, mas que foram várias: num eterno explode, expande, envelhece, retrocede, volta ao ponto original para explodir de novo.

Os brâmanes já haviam descoberto isso um bocado de tempo antes dos cientistas.

É o “eterno retorno” – essa espécie de bombril de 1001 utilidades.

FlaXFlu

O clima social e político brasileiro atual é de confronto exacerbado entre esquerdistas e direitistas.

Isso é bom ou ruim?

É ótimo. É no confronto, nas escaramuças que se separa o joio do trigo (para usar mais uma imagem bíblica).

Mesmo em meio às trocas de acusações, mentiras, ameaças, recuos e avanços... vamo que vamo.

Ninguém é santo nessa história. A porrada canta da esquerda para a direita (e vice-versa) e de cima para baixo (e vice versa).

Podemos amenizar isso, e retirar do confronto os exageros e a violência?

É provável que consigamos isso num futuro que está mais distante que o da Idiocracy.

Mas só se chega lá na base do confronto e das lutas.

Quem não quiser participar disso que vá tomar a sua dose diária de soma.