quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Viver e morrer em São Paulo



Desde o ano passado o Estado de São Paulo está assistindo – entre incomodado e indiferente – a uma onda de assassinatos entre familiares.
Da ex-garota de programa de mata e retalha o marido, ao estudante que assassina toda a família e se suicida, passando pela mãe que fulmina duas filhas e o PM que atira no filho e na esposa.
Parece que um surto psicótico tomou conta do “Estado mais rico da Federação”, não bastassem os crimes provocados por bandidos organizados, a violência da PM, o trânsito amalucado e por aí vai.
Viver ou morrer?
Viver em São Paulo nunca foi fácil, especialmente na capital, mais especialmente ainda na Região Metropolitana, a “Grande Ameba”.
Uma pesquisa encomendada pelo Jornal da Tarde (que não existe mais), do mesmo grupo de O Estado de São Paulo, na década de 70, já indicava que mais da metade das pessoas que lá viviam, se pudessem, teriam caído fora.
Muita gente até saiu, mas a maioria permaneceu e milhares de pessoas chegaram.
A desculpa que sempre se usa para justificar a permanência na região passa por frases conformistas e autoindulgentes: “aqui tem de tudo”, “se não tem aqui, não tem em lugar nenhum”, “se aqui está ruim, imagina em outro lugar”.
É o tipo de conformismo que explica pouco, e não diz nada.
Razão e saída
A questão não é exatamente deixar a região e fugir do(s) problema(s).
Quem fica tem suas razões. São razões respeitáveis. Há história em cada vida, há familiares; há cultura, emprego, amigos.
Não é fácil deixar tudo e começar uma nova aventura, independente da idade que se tenha.
O que incomoda nos paulistas – nascidos ou migrados para lá – é a passividade diante de um cotidiano cada vez mais caótico e violento.
A população faz pouco para mudar esse estado de coisa. Prefere reclamar “das autoridades” e se refugiar em seus bunkers particulares, mesmo que este seja um casebre ou uma vilazinha insegura.
Aparentemente o paulista está num beco sem saída. E dele não sairá se não reagir.
Essa apatia, no entanto, é sintoma de alguma coisa mais grave: o desconhecimento do que seja cidadania.
Ao preferir reclamar ao invés de participar, o “cidadão” está esperando que uma autoridade resolva o seu destino, abrindo mão de participar da vida pública da sua cidade, do seu Estado, do seu País.
Isso tem um nome: alienação
Quem estragou São Paulo?
Desde o início da sua formação, São Paulo nunca recebeu bem “os de fora”, os estrangeiros (do exterior e de outras partes do Brasil).
Do final do século 16 até o 17, rumar para São Paulo era um suplício.
O estrangeiro era submetido a toda sorte de atrocidades e violência.
Quem suportava, sobrevivia, mas mesmo assim ainda teria que ser aceito pelos paulistas para ficar.
 O paulista sempre viu o “estrangeiro” com reserva e desconfiança, inclusive os portugueses. A capitania de São Vicente mantinha uma relação ríspida com a Coroa Portuguesa: pagava os seus impostos religiosamente, mas não admitia tropas coloniais pelas terras bandeirantes.
Passados os tempos da monarquia, São Paulo começa a receber – para as suas fazendas de café, em substituição ao escravo africano – levas de migrantes italianos e japoneses (isso já pelo fim do século 19, início do 20).
Essa gente – italianos e japoneses – “comeu o pão que o Diabo amassou”: violência, assassinatos, estupros, preconceito, prisões arbitrárias, deportações.
Talvez o que melhor defina o preconceito paulista com os de fora sejam os rótulos colocados nos migrantes:
italiano = raça porca;
japoneses = falsos e dissimulados.
Nordeste toma SP
Se italianos e japoneses resistiram o quanto puderam à fúria paulista, e “subiram” na vida, e se misturaram aos grupos sociais de São Paulo, com o boom industrial o Estado, a partir do final dos anos 50, precisava de uma nova mão de obra que se submetesse à exploração e às humilhações.
Esta estava mais perto: em Minas Gerais e no Nordeste.
 Há uma frase extraordinariamente preconceituosa e minimalista que resume o atual preconceito paulista: “passou de São Paulo é tudo baiano”. Inclusive os baianos.
Se não tem tu, vai tu mesmo
Se formos navegar pela história das relações humanas no Brasil, mas mais especificamente na de São Paulo, nota-se que de início o indolente, o falso, o perigoso, o bandido, o atrasado era o índio.
Índio que no imaginário paulista, a partir do final do século 17, foi substituído pelo negro africano; que foi substituído já no século 20 por japoneses e italianos, que por fim foram substituídos pelos nordestinos.
Parafraseando Sartre, para o paulista, o inferno são os outros.
Hostilizados e humilhados essa gente acabou por permanecer em São Paulo, ajudando o paulista na construção de sua grandeza e dos seus infortúnios.
Infortúnios que se expressam no ar poluído, na feiura das cidades, na pressa e na neurose das pessoas; na violência do trânsito, do crime organizado, da polícia brutal...
São milhões de vítimas vivendo espremidas, vilipendiadas, exploradas, desrespeitadas; são paulistas e neo-paulistas, são brasileiros e neo-brasileiros, são baianos e corintianos.
Será que não está aí a chave do problema?

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