quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Quando mortos famosos nos assombram pra valer


Crédito da foto: www.pdt.org.br 

No 28 de outubro último escreveu-se neste afalaire Somos nada mais que um amontoado de números (?)”, e a propósito, no subtítulo Contando cadáveres, falou-se dos livros negros do Comunismo e do Capitalismo, respectivamente dos franceses Stéphane Courtois e Gilles Perrault.

Tem-se por aqui também uma pequena contabilidade de mortos, mas de mortos famosos.

Meu primeiro dia de trabalho no Diário do Amazonas (Manaus) foi o 14 de março de 1984, véspera da posse do eleito indiretamente à Presidência da República, o mineiro Tancredo Neves.

No dia 17 de fevereiro de 1997 também era meu primeiro dia de trabalho, mas no jornal O Tempo (Belo Horizonte), e morreu o antropólogo Darcy Ribeiro, mineiro como Tancredo.

No dia 31 de agosto de 1997 eu ainda estava em O Tempo, era meu plantão e morreu a Princesa Diana.

Gostássemos ou não deles eram figuras públicas que tinham relevância em seus países e até no mundo, especialmente Darcy Ribeiro e a Princesa Diana.

Dá para imaginar o trabalhão que essas três mortes nos deram, a nós jornalistas.

Neves

Tancredo nunca vi mais gordo ou mais magro, mas sempre desconfiei daquele seu sorrisinho maroto, especialmente após os acontecimentos (ele foi primeiro-ministro temporão do Brasil) que antecederam à deposição de Jango e ao golpe militar de 1º de abril de 1964.

Na real, Tancredo Neves escafedeu-se um dia antes da posse (dizem que morreu só 39 dias depois). Herdou-lhe do Palácio do Planalto o maranhense José Sarney. Demonizado Sarney, muito por conta do rabo de foguete que teve de segurar após os 21 anos de arbítrio.

Princesa

Nunca vi “grandes coisas” (sic) na Princesa de Gales. Era meio sem sal e sem açúcar, um bocado feia, marqueteira em excesso e protocolar em demasia.

Também o marido, Príncipe Charles, não ajudava muito. O príncipe era (e é) um bocado esquisitão, e tinha umas “preferências” sexuais mais esquisitas ainda.

Se fosse britânico talvez me interessasse de algum modo pela princesa, mas sou latino-americano, meio italiano, meio português.

Dispenso.

Ribeiro

Darcy Ribeiro é um dois notáveis da cultura nacional. Era um cara ilustradíssimo, bom de conversa e com obras espetaculares, especialmente os livros “O processo civilizatório” (1968) e “As Américas e a civilização” (1970).

Quem quiser começar a entender um pouco do mundo contemporâneo deveria ler ambos.

Tive um único contato com Darcy Ribeiro, no 19 de abril de 1980 (Dia do Índio), no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Fui lhe dizer que acabara de encontrar dois remanescentes dos Ofaié-Xavante, grupo indígena que Darcy dava como extinto desde 1950. Não deu muita confiança à história.

Positivismo

Darcy Ribeiro é de Montes Claros, nas Minas Gerais, onde nasceu a 26 de outubro de 1922. Como se diz por aí, se vivo fosse estaria completando 91 anos.

E se Cristo estivesse vivo, no próximo 25 de dezembro completaria 2.013.

São poucas as homenagens que se vê a Darcy. Quem mais se dedicou a ele, no 26 de outubro, foi a revista Carta Maior, e me chamou a atenção o texto de Paulo Kliass: “Darcy Ribeiro: brasileiro e desenvolvimentista” - http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Educacao/Darcy-Ribeiro-brasileiro-e-desenvolvimentista/13/29372.

Para quem não sabe, Kliass é economista e trabalha no governo federal.

É pouco provável que se possa aceitar essa ligeireza do pensamento de Kliass sobre Darcy Ribeiro.

Para dar sustança a um Darcy desenvolvimentista, Kliass lembra de seu “projeto educacional inovador, que se materializaria na Universidade de Brasília em 1961. Não apenas o poder se interiorizaria, mas o saber buscaria nova legitimidade, fora do sul-sudeste litorâneo”.

O economista parece lembrar apenas do Darcy Ribeiro educador e político, esquecendo-se que todo o seu pensamento foi construído na Antropologia (que, aliás, lhe tomou mais da metade da existência).

Há um conflito aí: como conciliar o desenvolvimentismo (tipo Dilma Rousseff, por exemplo) com a dura realidade das comunidades indígenas que, como ninguém, Darcy conhecia?

Não dá para conciliar.

O que se pode dizer de Darcy Ribeiro é que ele foi um positivista, no rastro das especulações sociológicas de Auguste Comte, mas, e muito especialmente, das visões cristã-positivistas do Marechal Rondon.

Pés de índio

Dá para ver uma pitadinha de positivismo no desenvolvimentismo?

Um pouquinho, especialmente levando-se em consideração o que dizia Comte:
"Os céus proclamam a glória de Kepler e Newton”.

Mas é de Comte também duas outras frases que escancaram o fosso entre o Positivismo e o Desenvolvimentismo:
"Só os bons sentimentos podem vir juntos, os juros nunca forjou uma ligação duradoura.”
"Viver para os outros é não somente um ato de dever, mas também um ato de felicidade.”

Na mesma Carta Maior (“O meu Darcy” - http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Educacao/O-meu-Darcy/13/29368), o jornalista Eric Nepomuceno lembra da mania que Darcy Ribeiro tinha de tirar os sapatos assim que chegava em casa:
“Dizia que era por causa de seu sangue índio.”

Pois é, Kliass, Darcy, como tantos de nós, era índio mesmo sem sê-lo.

E desenvolvimentista é uma coisa que nenhum índio quis ou quer ser.

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