quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Norma Bengell: o direito de enfrentar a vida e confrontar a morte



Tenho a mania ver similaridades entre as pessoas. Para mim Al Pacino e Dustin Hoffman são as mesmas pessoas; assim como eram Elvis Presley e Rock Hudson.

Parecem gentes feitas na mesma forma.

Norma Bengell e a atriz francesa Jeanne Moreau  eram as mesmas pessoas.

Envelhecidas, cada uma mudou a seu modo.

Jovens, eram lindíssimas e bastante parecidas.

Bengell, falecida ontem (Moreau  ainda está viva... pelo menos é o que consta), teve uma vida atribulada.

Teve a coragem de enfrentar a Ditadura Militar e passou uma temporada trabalhando na Europa.

Quem gosta da Ditadura não gosta de Bengell.

Quem não gosta, exagera um pouco nas qualidades da atriz e diretora recém-falecida.

Há um problema com os mortos. Para quem deles gosta, num fechar de olhos eles se transformam de figuras boníssimas, gente revolucionária, que amava a vida e as pessoas em volta – esse crécrécré todo.

O contrário também é uma verdade um bocado exagerada e irretocável.

Exageros

Bengell nunca foi uma vanguardista na arte de representar. Pode ser, no máximo, considerada uma atriz corajosa e correta, não mais que isso.

Também não protagonizou o primeiro nu frontal do cinema brasileiro, como a imprensa está dizendo.

A menos que consideremos apenas o cinema comercial feito por alguns poucos diretores, que gravitavam num mesmo centro (no eixo Rio-São Paulo).

Desde a década de 10 do século passado, “fitas” brasileiras estão coalhadas de nus  frontais, especialmente as do cinema pornográfico.

Outra figura pública, e também mulher, a respeito da qual se criou uma mitologia exagerada foi Leila Diniz.

A ex-professora é conhecida pela sua irreverência, por falar muitos palavrões, e, grávida, por ir à praia de biquíni e fumar.

Milhares de mulheres brasileiras fizeram tudo isso antes, mas não receberam o mesmo tratamento da mídia.

O que deflagrou a fama de Leila Diniz foi uma entrevista repleta de palavrões que a “musa” concedeu ao jornal “O Pasquim”.

Foi uma forma de confrontar a Ditadura Militar.

Direito de morrer

Nos jornais de hoje está que Normal Bengell se recusou a fazer tratamento contra o câncer no pulmão descoberto há seis meses.

Conheço dois casos – bastante de perto – de pessoas que igualmente se recusaram a fazer tratamento para alongar a vida e a agonia.

Um deles conseguiu resistiu por dois ou três anos.

Outro, foi mais rápido: em menos de um.

Em nenhum dos três casos – no de Norma Bengell e nos dois que conheço – se buscou a eutanásia ou o suicídio.

São pessoas que enfrentaram de frente a morte, dizendo à vida o quanto tudo isso é sem sentido e estúpido.

E se a vida é assim, sem sentido e estúpida, por que então dar-lhe a chance de se redimir em um tratamento custoso e prolongado, “que ao findar vai dar em nada / Nada, nada, nada, nada / Nada, nada, nada, nada / Nada, nada, nada, nada / Do que eu pensava encontrar” (GG)?

A vida e a morte são poderosos, mas não podem com a nossa liberdade, com o nosso livre arbítrio.

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