quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Matar é justo? Bem... depende


Crédito da foto: g1.globo.com 

Como muito bem registrou no seu blog (http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/ - O policial cumpriu seu dever. As redes sociais é que estão fora de si) o sociólogo e jornalista Leonardo Sakamoto:

vi nas redes sociais após o caso foi uma catarse, com hordas celebrando que uma pessoa foi abatida. Li gente pedindo sangue, literalmente. E, apesar de não ser um caso de “justiça com as próprias mãos”, mas sim de ação da força policial, vi quem se aproveitasse da situação para exigir que julgamentos sumários sejam feitos para acabar com a criminalidade.

O caso se refere ao assaltante baleado por um policial numa rua qualquer de São Paulo.

Talvez um dos problemas do Sakamoto seja levar a sério o que esse tipo de gente diz “nas redes sociais”.

Mas há uma outra questão embutida aí (e tangenciada pelo blogueiro): “bandido bom é bandido morto”.

É? Mais ou menos.

“De olhos vendados”

Não vimos, e não vamos ver, a mesma histeria pelo assassinato do promotor Thiago Faria Soares, em Itaíba, no interior de Pernambuco.

A primeira notícia que li sobre Soares insinuava uma “guerra de famílias”.

Imaginei que estivéssemos voltando às tradicionais guerras entre famílias que foram comuns até boa parte do século passado em certos municípios brasileiros.

Essas guerras nos levam à nossa ancestralidade tribal (muito embora alguns antropólogos atuais digam que os primitivos não eram tão violentos assim), passam pela Idade Média europeia e chegam às famílias latino-americanas no pós-descobrimento.

No atual estágio da investigação, a polícia pernambucana indica que o matador agiu a mando de “donos de terra” na região de Itaíba.

Nada que a caboclada brasileira não conheça de perto.

Outro subtexto

Outra leitura que se pode fazer da não-repercussão do assassinato de Soares indica que defensores de direitos humanos são defensores de bandidos.

Daí então, por que as redes sociais iriam se preocupar com a morte de Soares?

“Bandido bom, é bandido morto”, e isso vale também para os “defensores de bandidos”; muito embora Soares não fosse um defensor, mas um promotor de Justiça.

Sem repercussão e repressão a pistolagem, a mando de fazendeiros, age com destreza pelo Brasil, vide o caso de Unaí.

Não fosse por outra razão, a bancada ruralista na Câmara dos Deputados tenta barrar a homenagem que a Comissão da Amazônia quer fazer ao líder seringueiro e ativista ambiental Chico Mendes.

Mendes foi assassinado, em dezembro de 1988, em Xapuri, no Acre, pelos fazendeiros Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira.

Assassinato em massa

Desde que entrei para o MNDH, há coisa de 7 anos, Soares é o 15º ou o 16º defensor assassinado no Brasil.

Não que o promotor pernambucano fosse ativista do Movimento, mas atuava, digamos assim, na sintonia da “causa”.

Nada disso repercute ou repercutiu na imprensa e nas redes sociais - como ocorreu no caso do assaltante baleado pela PM em SP.

“Elementar, meu caro Watson.”

A sociedade mais sintonizada com as facilidades tecnológicas vive num mundo a parte, tão a parte que não lhe permite enxergar nem mesmo o que acontece na sua própria periferia.

E pior do que isso: as redes sociais agudizam um problema bastante sério e aparentemente sem solução: a criminalização dos movimentos sociais.

Quem já não ouviu falar que “os militantes do MST são bandidos e vagabundos que querem invadir terras produtivas” ou que no Brasil “há terra de mais para índios de menos”?

Talvez a preocupação de Sakamoto com as redes sociais comece a fazer algum sentido.

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