terça-feira, 15 de outubro de 2013

Guerra anti-religião: afinal Jesus Cristo existiu ou não?




Crédito da foto: Divulgação/ Revista Galileu

Um sujeito me procurou há alguns anos para que eu fizesse uma análise de um texto seu sobre um profeta que vivera na época de Jesus Cristo.

Como sempre se tem de fazer nesses casos fui à busca de referências históricas.

Encontrei não apenas o profeta do texto como diversos outros que teriam vivido na Palestina na mesma época.

Aparentemente havia um surto de profetismo na região, muito provavelmente (explicariam sociólogos e psicólogos) uma reação à opressão romana.

O texto era bastante bom, bem fundamentado, bem escrito. Sugeri que procurássemos uma editora.

O sujeito recuou, pois temia perder o emprego caso publicasse o livro.

De nada adiantou argumentar que caso uma editora aceitasse o texto, poder-se-ia partir para um acordo e publicá-lo com um heterônimo.

Ele refutou a idéia, em sua paranoia, dizendo que “acabariam”, mais cedo ou mais tarde, descobrindo o nome de autor, e que ele perderia o emprego.

Não entendi qual a vantagem em trocar uma atividade que poderia lhe render um bom dinheiro, alguma fama e uma razoável polêmica por um emprego monótono do qual nunca gostou.

Anticristo

O profeta em questão seria um anticristo, mas não na versão moderna e escatológica do cristianismo, mas apenas um opositor às idéias do filho de Maria e José.

As pesquisas feitas pelo escritor indicavam, também, que alguns dos sermões de Cristo eram de seu desafeto e não do Salvador; sermões esses que teriam sido incorporados à tradição cristã anos mais tarde.

São controvérsias como essas que estão na base das dúvidas sobre a existência ou não de Cristo.

Elas alimentam, inclusive, uma campanha já antiga, mas que ganha força por estes dias: a desqualificação do cristianismo, e, de uma maneira geral, das religiões ortodoxas.

Criacionismo X cientificismo

Há uma luta encarniçada entre criacionistas (que colocam a figura divina na cena da criação) e os cientificistas (para quem o surgimento do Universo nada mais é que um mero acaso).

A desqualificação do Criador ou dos múltiplos deuses hinduístas (por exemplo) dá combustível ao niilismo contemporâneo (água na qual bebem os cientificistas), mas provoca alguns erros de análise que depõem contra o próprio cientificismo.

Por exemplo: se diz, com muita agilidade e pouca atenção, que os “crentes” (sejam eles de que confissões religiosas forem) estão a diminuir.

Parece que não é isso que mostram as ruas. Os cultos, as missas, as cerimônias religiosas são a cada dia mais procuradas.

Uma pesquisa que faço neste momento sobre as chamadas religiões new age no Planalto Central do Brasil aponta para um crescimento vertiginoso dos grupos religiosos, não apenas por aqui, mas por todo o mundo.

Usa-se “grupos religiosos” e não religião ou seita por motivos óbvios.

Religião se refere às tradicionais (judaísmo, cristianismo etc. e tal) com seus dogmas. O que essa gente new age quer é se ver livre das ortodoxias.

Seita tem uma conotação pejorativa e remete ao fanatismo. Ora, esses novos grupos religiosos são, em sua maioria, holísticos, ao unir crenças e práticas mágicas, científicas, ritualísticas, comportamentais, sociais e técnicas.

Conclusões apressadas

As conclusões que indicam uma queda no número de praticantes das religiões partem de premissas equivocadas, fruto do minimalismo cartesiano que permeia especialmente as pesquisas “populares” (não-científicas) feitas por empresas especializadas, tipo Ibope, DataFolha etc.

Por exemplo, diante da pergunta “você acredita em Deus” o que responderiam os diversos entrevistados?

Os crentes responderiam que sim.

Os ateus e os agnósticos (com suas dúvidas de sempre) responderiam que não.

E os adeptos da new age? Também quem não, muito embora professem algum tipo de crença em alguma coisa (quase sempre em mais de uma coisa) e participem de cerimônias religiosas.

Poder-se-ia catalogar essa terceira categoria como descrente e ausente de religião? Não, mas as pesquisas indicam que sim.

Jesus, uma ficção

Voltando a Jesus Cristo, quem vai colocar lenha na sua fogueira é o historiador e teólogo norte-americano, Joseph Atwill, que “no próximo dia 19 de outubro deve chocar os participantes de um simpósio em Londres chamado Covert Messiah, dedicado a compreender com mais detalhes como teria sido a vida de Cristo”, afirmando que “Jesus Cristo... foi um mito criado pelos romanos no séc. I.” (http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/1,,EMI343900-17770,00.html).

‘Jesus não teria nem sequer sido baseado em uma figura histórica específica. Ao contrário, seria uma construção - uma colcha de retalhos - feita a partir de outras histórias. "Eu comecei a notar uma sequência de paralelos entre os dois textos [o Novo Testamento e o manuscrito "A Guerra Judaica", escrito por Flávio Josefo no séc. I]", declara Atwill sobre sua descoberta mais intrigante, "e embora estudiosos cristãos tenham reconhecido por séculos que as profecias de Jesus parecem estar cheias das coisas que Josefo escreveu em seu manuscrito, eu enxerguei outras dúzias", disse.’ (Ibid).

Há, no entanto, um probleminha no argumento de Atwill:

"Até hoje, por exemplo, (o Cristianismo) é usado nos EUA para criar apoio à guerra no Oriente Médio".

Atwill faz coro a dois dos maiores polemistas anti-religiosos da atualidade - o britânico Richard Dawkins e o indiano Salman Rushdie - que a seus modos e lugares acusam a religião de estar no início do confronto atual entre o Ocidente e o Oriente.

Acusando a(s) religião(ões) se despreza duas forças históricas que ajudaram a forjar o mundo contemporâneo: o Iluminismo e o Capitalismo

E cá para nós: isso não é exatamente um bom argumento para se buscar entender o mundo contemporâneo e seus conflitos.

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