sábado, 19 de outubro de 2013

Como a Igreja Católica colaborou com a ditadura militar


Zuzu Angel, estilista carioca (foto pt.wikipedia.org), que acusou Dom Eugênio de omissão no caso seu filho Stuart Angel.

Meses após eu entrar para uma organização não-governamental, na década de 70, incorporou-se ao grupo uma garota vinda do Rio de Janeiro.

Deixo de fora da historieta abaixo o nome da organização (uma das mais ativas e atuantes na causa indígena), pois ela tem pouca ou nenhuma responsabilidade sobre o fato.

A garota era irritadiça, algo nervosa e um pouco violenta. Dizia ser “contadora” e que também atuava numa Comunidade Eclesial de Base carioca.

Tempos depois soube que fora enviada para Boca do Acre (interior do Amazonas), onde acabou por sair da organização e “tornar-se” professora no município.

Onde está neste momento, o que faz da vida, se está viva ou morta não sei.

Perplexidades

Desde a sua chegada nos chamou atenção os seus modos de tratar as pessoas e as opiniões (aparentemente conflitantes com a “causa”) que tinha.

O primeiro entrevero que o grupo teve com a garota ocorreu no dia de sua chegada.

Porto Alegre, onde estávamos, explodia em greves, marchas e passeatas – costureiras, bancários, metalúrgicos, taxistas, gente do setor do transporte e do comércio.

A Brigada Militar gaúcha agia com a delicadeza de sempre: porrada, bombas de efeito moral, prisões e espancamentos.

Queríamos pelo menos ver a muvuca. Ela não... queria ir para a casa descansar, pois a viagem Rio-Porto Alegre fora longa.

Conexões

Era arcebispo do Rio de Janeiro à época o potiguar Dom Eugênio Salles (que por lá ficou durante 30 anos).

Dom Eugênio chegou ao Rio numa manobra do Vaticano para deslocar Dom Helder Câmara de um dos epicentros da resistência ao regime ditatorial.

Sobre Dom Eugênio pairam muitas histórias e um bocado de folclore. É, provável, a figura mais controversa da Igreja Católica durante a ditadura militar.

Mais abaixo voltamos a ele.

Agressividade

Após vários atritos da garota carioca com o grupo, chegou-se ao auge, quando a questionamos sobre o papel de Dom Eugênio e certa inoperância das CEBs cariocas frente às acusações que já à época eram dirigidas ao religioso.

Ela ficou furiosa. Gritou, berrou e chegou a pegar uma cadeira estofada para atirar contra o grupo.

Outras conexões

Mais recentemente mantive contato com um ativista de Direitos Humanos cuja origem é a mesma da (ex)garota “nervosa”. Creio que tenham a mesma idade ou coisa próxima disso.

A despeito de ser uma importante figura do ativismo social no Brasil (por motivos óbvios seu nome também fica de fora) me chama atenção as suas posições antifeministas, anti-gays e lésbicas, anti-ambientalismo.

Me permito concluir que o “problema” de ambos está na iniciação da militância, que tem nada a ver com o local (Rio de Janeiro), mas muito com a liderança religiosa (Dom Eugênio)

Dom Eugênio traíra?

Como já se disse acima – com os exageros, os acréscimos e as lacunas de sempre – sobre Dom Eugênio pairam acusações de ter colaborado com a ditadura militar.

Vale um registro rápido aqui.

A Igreja Católica na América Latina, muito por conta da Teologia da Libertação, desde há muito é tida “como de esquerda”.

Olhando-a mais de perto – como tive oportunidade de fazê-lo – ela pode ser vista sob três prismas que se completam:

- um grupo mais à esquerda;
- um grupo mais à direta;
- um grupo (o maior de todos), moderado.

Uma matéria que está na revista Carta Capital esta semana (“Documentos inéditos provam a colaboração do primaz com a ditadura” - http://www.cartacapital.com.br/revista/770/dom-eugenio-agente-duplo-6767.html), da jornalista Marsílea Gombata, coloca um bocado de lenha na fogueira de Dom Eugênio, e corrobora com aquilo que, de uma forma ou de outra, todos nós já sabíamos desde então.

Vamos ao texto

(Mantem-se aqui as grafias originais de algumas palavras, como também as manteve o texto de Marsílea Gombata).

[Em 1976, sob a égide do Ato Institucional nº 5 e cercada por denúncias de torturas, prisões, desaparecimentos e mortes de presos políticos, como a do jornalista Vladimir Herzog, a ditadura começava a ruir em meio à transição “lenta, gradual e segura” anunciada pelo general Ernesto Geisel. A Igreja Católica, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cobrava do governo informações e esclarecimentos sobre os abusos e condenava o caráter arbitrário do regime militar.

Acuados, os generais buscavam minar o ímpeto das lideranças católicas dentro da própria CNBB. Contaram, para isso, com uma das figuras mais influentes do clero: o cardeal e então arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eugênio Salles. É o que revelam documentos oficiais obtidos por CartaCapital junto ao Arquivo Nacional em Brasília. Em relatório de 14 de março de 1976, o I Exército do Rio de Janeiro relata ao Serviço Nacional de Informações (SNI) como o cardeal conseguiu conter os esforços da própria CNBB de lançar uma campanha contra a repressão. Ao se referir ao “clero católico”, o documento dizia: “A CNBB pretendia fazer declarações sobre as atuais prisões, envolvendo elementos do PCB, no RJ/RJ. Dom Eugênio Salles conseguiu esvaziar o movimento da CNBB. Irah a Roma ET, no seu retorno ao país, farah declarações favoráveis”.

A evidência fica clara em outro documento do SNI, também parte do acervo do Arquivo Nacional. A carta da CNBB, endereçada ao general Ernesto Geisel em 24 de setembro de 1975, pedia esclarecimentos sobre o paradeiro de presos políticos. Preocupada em obter esclarecimentos “alviçareiros ou trágicos, mas definitivos” sobre casos de militantes desaparecidos, a entidade dizia ao então ditador: “Permanece, no entanto, um determinado número de desaparecimentos para os quais ainda não se obteve informações satisfatórias. (…) Até esta data, no entanto, os esclarecimentos não foram satisfatórios. Isto é motivo de desespero para as famílias dos desaparecidos e de angústia para nós pastores”. O então presidente da CNBB, Aloísio Lorscheider, termina a carta com uma súplica: “Gostaríamos de receber melhores esclarecimentos, bem como qualquer retificação, sobre imprecisão dos dados ou fatos aí contidos”.

Diante da pressão, os militares usavam dom Eugênio – arcebispo primaz do Brasil desde 1968 – como uma espécie de garoto de recados, de acordo com o documento do I Exército do Rio de Janeiro ao SNI, de 1976. À época da prisão de jornalistas ligados ao PCB, como Oscar Maurício de Lima Azêdo e Luiz Paulo Machado, foram coletados depoimentos de outros profissionais de imprensa, como Fichel Davit Chargel e Ancelmo Gois, por meio dos quais seriam reveladas operações do PCB no Rio. Com tais informações nas mãos, os militares pressionaram o fotógrafo Luiz Paulo Machado para que redigisse uma carta de repúdio ao comunismo, a fim de demonstrar arrependimento pela militância. A existência da carta de próprio punho, ressalta o documento oficial, era para ser mantida sob “alta compartimentação” (sigilo).

Apesar da carta escrita na madrugada de 13 para 14 de março, os militares queriam mais. Pediram, como relata o documento da Operação Grande-Rio – que visava “buscar intimidar ou desencorajar livre manifestação subversiva VG especialmente por meio de prisões de subversivos selecionadas por suas atuações destacadas” –, que dom Eugênio conversasse com a mulher do fotógrafo, Elaine Cintra Machado, para sugerir procurar o comandante do I Exército e obter informações sobre o detido. Era de extrema importância, no entanto, que o arcebispo deixasse transparecer o mínimo sobre a relação próxima que tinha com os militares. “Dom Eugênio Salles, por solicitação do CMT do I EX, fazendo transparecer ser iniciativa sua, aconselhou a Elaine que procurasse o CMT do I EX, dando a crer, também que soh o Exército poderia cooperar com ela.”

O objetivo seria pressioná-la, a fim de conseguir “o apoio ET a cooperação de Elaine”, como sugere o relatório sobre os procedimentos a serem tomados com a militante denunciada pelo marido como “responsável pelo movimento financeiro do PCB, no RJ”. A intenção era “desencadear de imediato uma ação psicológica sobre a esposa de Luiz Paulo Machado, Elaine Cintra Machado, com base na “carta-repúdio”.

(…)

Discurso. Líder ecumênico metodista e coordenador do Grupo de Trabalho da Comissão Nacional da Verdade que investiga o papel das igrejas durante a ditadura, Anivaldo Padilha reconhece que a figura de dom Eugênio é controversa: além de ter atuado a mando dos militares, chegou a negar ajuda a militantes, inclusive os católicos. “Dos pronunciamentos dele, não me lembro de nenhum explicitamente apoiando a ditadura, mas lembro de muitos outros criticando setores de oposição, especialmente a esquerda.”

Da mesma visão compartilha dom Angélico, bispo auxiliar do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo cuja trajetória foi marcada pela proteção aos militantes e que, inclusive, mais de uma vez esteve com o então ministro-chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, para lhe entregar listas com nomes de desaparecidos. “Do que conheço a respeito da atuação do cardeal dom Eugênio, a não ser em casos isolados, ele realmente não se confrontou com a ditadura”, avalia.

Não são poucos os casos nos quais dom Eugênio foi chamado a ajudar e a fazer frente ao regime militar e não deu ouvidos. Um dos mais famosos é o da estilista Zuzu Angel, cujo filho Stuart foi torturado e morto pelo Serviço de Inteligência da Aeronáutica. Ao procurar dom Eugênio, bateu com a cara na porta. Sua filha, a colunista social Hildegard Angel, em mais de uma ocasião disse que o cardeal “fechou os olhos às maldades cometidas durante a ditadura, fechando seus ouvidos e os portões do Sumaré aos familiares dos jovens ditos ‘subversivos’ que lá iam levar suas súplicas, como fez com minha mãe”.

A omissão, o silêncio e a compra das versões dadas pelos militares para acobertar torturas e mortes nas prisões por dom Eugênio acabavam sendo respaldados pela mídia, com quem o cardeal mantinha ótimas relações – vale lembrar que ele escrevia artigos para O Globo e Jornal do Brasil com certa regularidade.

(…)

Assessor de imprensa de dom Eugênio por mais de 40 anos, Adionel Carlos da Cunha discorda. “Desconheço completamente qualquer ação do dom Eugênio nesse sentido (de colaboração com os militares). Pelo contrário, a ação dele foi de conseguir salvar mais de 5 mil militantes”, conta.

Trajetória. Um dos nomes cogitados para suceder ao papa João Paulo I, em 1978, o arcebispo nascido em Acari, no Rio Grande do Norte, em 8 de novembro de 1920, foi próximo do Vaticano como nenhum outro cardeal brasileiro. Ao longo de seus quase 60 anos de episcopado e mais de 40 de cardinalato, nomeou 22 bispos e 215 padres. Sempre foi um ferrenho opositor à Teologia da Libertação.

Para dom Angélico, a posição de dom Eugênio era clara: “Não era uma postura dúbia. Basta analisar historicamente”, disse, ao lembrar que a ditadura foi construída pelas “classes conservadoras, os grandes interesses econômicos e o apoio da CIA”. “Vivíamos em meio à polarização indevida entre o mundo livre e o mundo comunista. E muitos na Igreja temiam essa onda comunista.”]
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