sexta-feira, 18 de outubro de 2013

BIOGRAFIAS: não queria, mas...




A jornalista Barbara Gancia (foto de www.idadecerta.com.br) que teve sua privacidade violada por Paula Lavigne.

Não era intenção deste blog voltar ao assunto “biografias” e à polêmica que o cerca (no afalaire, em 5 de outubro: “Biografias: alguns argumentos são ruins, outros são péssimos” - http://afalaire.blogspot.com.br/2013/10/biografias-alguns-argumentos-sao-ruins.html), mas algumas considerações novas surgiram.

Não se vai por aqui recuperar a fala inicial de Paula Lavigne, que deu origem a todo esse bate-boca, numa polêmica inútil (como quase todas elas são) num País repleto de problemas mais sérios e mais urgentes.

Mas algumas considerações carecem ser feitas.

Já se disse por aqui que não se defende a proibição das biografias (e parece ser também esta a posição da Lavigne, e de artistas como Chico, Caetano e Gil).

Dispensa-se também discutir aqui se a consulta ao biografado é censura ou não, pois isso é de uma infantilidade inacreditável, e o blogueiro (já um bocado adulto) se recusa a retroceder a esse nível.

Chico

Duas notas do compositor e cantor Chico Buarque de Holanda colocam a discussão sob novo prisma.

Ele reconhece que “se esqueceu” de ter concedido uma entrevista a determinado repórter, mas reitera o seu desmentido de que tenha criticado, em outra entrevista, Gil e Caetano.

Para quem quiser, as notas de Chico estão nos jornais O Globo e Folha de São Paulo.

De parte deste blogueiro, em perfil no Facebook, criticou-se a posição do compositor não no que toca à proibição ou não de biografias, mas pela dubiedade da sua postura, quando diz que foi censurado várias vezes pela Rede Globo, mas mesmo assim, anos mais tarde, não se vexou a – junto com Caetano – apresentar um musical na emissora carioca.

Alfinetadas

Em um texto no blog Diário do Centro do Mundo (“Paula Lavigne virou a Yoko Ono da MPB” - http://www.diariodocentrodomundo.com.br/paula-lavigne-virou-a-yoko-ono-da-mpb/) o jornalista Paulo Nogueira compara Paula Lavigne à ex-mulher do beatle John Lennon, a japonesa Yoko Ono:

“Paula Lavigne virou a Yoko Ono da MPB: todo mundo odeia. Yoko era detestada pela crença – errada, aliás – de que acabara com os Beatles.”

Mesmo que indiretamente, Nogueira recupera o que disse, há alguns anos, o maestro e compositor Tom Jobim – “o brasileiro tem inveja de quem faz sucesso”:

“Paula Lavigne tem um problema sério contra o qual ela pouco pode fazer: é bonita, inteligente e bem-sucedida. É mais que suficiente para que ela angarie uma carga maciça de rejeição entre os brasileiros.”

Barbara Gancia

O melhor do texto de Nogueira, no entanto, se refere à provocação de Lavigne à jornalista Barbara Gancia, no programa Saia Justa, da Globo News esta semana:

‘... Paula deu um ipon na jornalista Barbara Gancia, uma das mais conhecidas polemistas da mídia brasileira, com uma única pergunta: “Qual o nome de sua namorada?”’
‘Na pergunta estava demonstrado o que é invasão de privacidade, um direito que tem sido ignorado por muitos dos que acusam Chico, Gil e Caetano de se baterem pela “censura”. Embora Barbara Gancia seja abertamente gay, é presumível que ela não gostasse que sua intimidade fosse exposta diante de milhares de pessoas num programa de tevê.’

Invasão de privacidade

O que disse Lavigne e o que reiterou Nogueira em seu texto não remetem a empresária ao campo da homofobia ou da intolerância sexual.

O que a empresária fez foi demonstrar o quanto dói e é injusto ter a sua privacidade violada sob a desculpa (ruim, por sinal) da “liberdade de expressão”.

O que ela quis dizer foi o seguinte: “se vocês (jornalistas, biógrafos) podem, porque nós também não podemos?”

Confusão conceitual

A tese da plena liberdade de um jornalista ou de um escritor-biógrafo bisbilhotar a intimidade alheia já foi objeto de observação neste blog (ibid 05/10/2013):

 “Outro argumento usado em favor dos biógrafos é que os biografados são figuras públicas, e que sem o público eles não seriam nada (não seriam famosos).
Não dá para entender o que uma coisa tem a ver com a outra. Ou para ser tosco: o que tem o cu com as calças?
A fama não dispensa o público, mas o artista (por exemplo) pode dispensar.”

Há uma confusão conceitual nisso tudo, que avança pela Ética, e nos remete forçosamente ao caso do compositor e cantor Belchior.

Caso Belchior

Há dois ou três anos, enclausurado numa casa no interior do Uruguai (a propósito de fazer algumas versões poéticas do espanhol para o português, ou ao contrário), o artista cearense foi assediado por uma repórter do Fantástico, da Rede Globo, que queria descobrir o que fazia ele em tão remoto lugar.

Ora, partindo-se do princípio de que um biógrafo pode dizer o que bem entender sobre um biografado, deve-se aceitar também, como eticamente defensável e moralmente justo, que a Rede Globo assedie Belchior, mesmo que ele isso não aceite.

O que não dá para aceitar são duas posições distintas para casos similares: ser contra (no caso do assédio da Globo à Belchior) e a favor (à plena liberdade de biografar, mesmo à revelia do biografado).

Inglaterra

No texto citado acima, Nogueira lembra ainda que:

“Na Inglaterra, um antigo chefão da Fórmula 1, Max Mosley, processou um jornal por ter publicado um artigo que o mostrava num sexo grupal. Mosley recebeu uma indenização de 60 000 libras, mas não ficou satisfeito. Achou o dinheiro insuficiente para deter a voracidade da mídia mexeriqueira, e então processou o Reino Unido numa corte internacional por não lhe garantir privacidade – um direito reconhecido não faz muito tempo entre os britânicos.
Mosley, como muita gente, defende a tese de que a mídia deve informar previamente a pessoa sobre fatos que configurem invasão à privacidade – para a justiça possa deliberar. A mídia faz pressão para que isso não aconteça, sob o argumento de que se está cerceando a liberdade de expressão.”

Portanto, é correto (a título de provocação) dizer que a Inglaterra é a Inglaterra e o Brasil é o Brasil, e não o contrário.

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