sábado, 5 de outubro de 2013

Biografias: alguns argumentos são ruins, outros são péssimos


Crédito da foto: ego.globo.com  

Gente de peso da cultura pop nacional – Chico, Caetano, Gil, Djavan etc. – entrou de sola nessa história das biografias não-autorizadas.

Há um marco nisso tudo que é o livro de Ruy Castro, Estrela solitária - Um brasileiro chamado Garrincha.

As filhas de Mané entraram na justiça contra o que escreveu Castro.

O escritor carioca se defende com argumentos banais e previsíveis: "monopólio da história, típico de regimes totalitários".

Associar a indignação das filhas de Garrincha a regimes totalitários só não é mais estúpido pois a oração contem apenas sete palavras.

Jogar na conta de “regimes totalitários” as reações às biografias é como dizer que todo mundo que não vota no PT é fascista.

Diálogo

Conheci um alagoano, baixinho, branco, de olhos azuis que resolveu morar em Salvador (BA), e acabou por escolher uma pensão “baratinha” num muquifo dominado por traficantes.

Assim que tentou chegar à pensão no primeiro dia se deparou com dois meninos “armados” que lhe barraram o caminho.

Os seus primeiros argumentos de que também era pobre, era gente como eles não resolveram a questão.

Teve de fazer um acordo com a galera para receber um “passe livre”: passou a comprar maconha da moçada.

Talvez os biógrafos pudessem usar esse caminho da maconha para negociar com herdeiros ou biografados vivos.

Não custa tentar.

Mas há uma arrogância intelectual travestida de liberdade de expressão que talvez impeça o diálogo.

Figuras públicas

Outro argumento usado em favor dos biógrafos é que os biografados são figuras públicas, e que sem o público eles não seriam nada (não seriam famosos).

Não dá para entender o que uma coisa tem a ver com a outra. Ou para ser tosco: o que tem o cu com as calças?

A fama não dispensa o público, mas o artista (por exemplo) pode dispensar.

Um exemplo: conheci em Corumbá (MS) um artista plástico que fazia suas esculturas (e as deixava lá) no Pantanal.

Ninguém o conhecia. “E daí”, me respondeu, quando questionei a sua não-fama.

Se já não foi, mais cedo ou mais tarde será “biografado”.

Lavigne

Os argumentos de Paula Lavigne, que vem a ser ex-mulher e atual produtora de Caetano Veloso, e que preside o grupo Procure Saber, que luta pela exigência de autorização prévia para a comercialização dos livros, também são tenebrosos.

Diz Lavigne:

"Usar esse argumento (liberdade de expressão e o direito à informação) para comercializar a vida alheia é pura retórica."

"Se alguém quiser escrever uma biografia e publicá-la na internet sem cobrar, tudo bem. O problema é lucrar com isso."

"Corremos o risco de estimular o aparecimento de biografias sensacionalistas, em um país em que a reparação pelo dano moral é ridícula."

“Em nota enviada ao jornal O Globo, o cantor Djavan disse que a liberdade de expressão pode causar injustiças ‘à medida que privilegia o mercado em detrimento do indivíduo’" (Folha de São Paulo, hoje).

Deus mercado

Tanto Lavigne quanto Djavan parecem bastante preocupados com o dinheiro que não ganhariam (e que os biógrafos ganharão).

A seguir o raciocínio do grupo Procure Saber tudo não passa de mera mercadoria, lucrativa ou não.

Portanto, tudo é negócio. Tudo é uma questão de quem ganha mais e de quem ganha menos.

A questão central da discussão, e rechaçada na fala de Lavigne (liberdade de expressão e o direito à informação), acaba sendo relegada a um segundo plano.

Onde farão (a liberdade de expressão e o direito à informação) companhia ao direito à privacidade (um direito humano).

A arte da guerra

Como se viu no caso recentíssimo das armas químicas da Síria, a diplomacia antecipou-se à guerra, evitando o ataque (por enquanto, pelo menos) das forças ocidentais ao exército sírio.

Alguém já disse que não fosse a diplomacia iríamos à guerra todos os dias, até pelas mais banais razões.

Isso é negociação.

Talvez os defensores da irrestrita liberdade de expressão venham a aprender isso um dia.

Quem sabe?

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