terça-feira, 1 de outubro de 2013

Algumas luzes sobre a insanidade que vitimou o ministro Joaquim Barbosa



Por conta da prisão da jornalista Cláudia Trevisan (O Estado de São Paulo), na última quinta-feira, na Universidade de Yale (EUA), o presidente do STF, Joaquim Barbosa, foi alvo de uma estúpida e insidiosa campanha desfechada por segmentos da “rede virtual petista e seus satélites”, como chama o jornalista e escritor Celso Lungaretti (veja seu texto logo abaixo).

Antes que alguém entenda que Lungaretti é um rematado direitista, cumpre lembrar aqui que não: lutou contra a ditadura, foi preso, torturado, condenado, cumpriu prisão, e hoje é um dos mais ativos lutadores pelos direitos humanos e pela democracia neste País.

A fúria dos seus detratores insinua que Barbosa teria mandado prender Cláudia Trevisan que  queria entrevistá-lo em Yale, onde ele dava uma palestra.

Está abaixo, além do texto de Lungaretti (“Eu não compactuo com a satanização de Joaquim Barbosa” - http://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2013/09/eu-nao-compactuo-com-satanizacao-de.html), outro, de Paulo Moreira Leite (“Governo não pode ficar quieto diante de prisão de Claudia Trevisan” - http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/colunista/48_PAULO+MOREIRA+LEITE).

Dois fachos de luz nessa insanidade acusatória.

Pela ordem, companheiros.

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“Eu não compactuo com a satanização de Joaquim Barbosa”

[Detesto as satanizações, aquelas campanhas orquestradas de desqualificação moral que foram para a lixeira da História juntamente com o cadáver fedorento do stalinismo, mas agora estão de volta, exumadas pelas piores vertentes da esquerda na era da internet. Quem disse que Goebbels não influenciou também o nosso lado?

O caso de Joaquim Barbosa é emblemático. Ministro do Supremo Tribunal Federal que, em quase todos os temas, tem sempre assumido posições próximas às nossas (é sensível à justiça social e combate sistematicamente os abusos e privilégios dos poderosos), ele está sendo erigido em grande vilão pela rede virtual petista e seus satélites, em função da forma como relatou o processo do mensalão.

Isto seria passável se o atacassem apenas e tão somente pelo que lhes fez doerem os calos. Mas não, transformam-no num espantalho em tempo integral, atribuindo-lhe um reacionarismo que nunca teve e até projetos políticos que jamais deu mostras de acalentar.

O grande truque do diabo é fingir que não existem homens de esquerda indignados com aquilo que o mensalão  representa: o recurso às maracutaias costumeiras dos políticos convencionais, para garantir governabilidade da mesmíssima maneira: subornando a escória parlamentar para com ela formar maiorias espúrias.

A direita, cinicamente, extrai dividendos políticos do ocorrido, mas é a esquerda que mais motivos tem para o repudiar, já que sua credibilidade sofreu duro golpe. Cansei de responder, em cada palestra, a pergunta que alguém invariavelmente me fazia: todos vocês, da geração 68, são iguais aos mensaleiros?

A esquerda virtual já aclamou Barbosa, lembram? 

Ademais, tais práticas desmoralizantes foram adotadas para o governo ganhar votações que não fizeram verdadeiramente avançar a revolução brasileira. O PT, há mais de uma década, vem apenas gerenciando o capitalismo para os capitalistas. É, no máximo, reformista, tendo há muito abdicado de quaisquer veleidades revolucionárias.

Valeu a pena pagar um preço tão alto por tão pouco? E quem não releva os pecados dos anjos caídos é necessariamente um direitista?

Na semana passada, quando a correspondente de O Estado de S. Paulo em Washington foi detida na Universidade de Yale, houve até quem trombeteasse os quatros ventos que Barbosa pedira a ação policial, baseando-se apenas em suposições e deixando mais do que evidenciada sua antipatia pelo personagem. Jornalistas se tornam Sherlocks de araque para engrossarem a horda de linchadores. Que lástima!

Nota da universidade, contudo, esclareceu que Claudia Trevisan, mesmo sabendo que estava proibida a presença de repórteres no seminário do qual Barbosa iria participar, tentou driblar os seguranças. Mas foi pilhada e, quando perguntaram o que fazia naquela ala vedada ao público, mentiu: respondeu que estava procurando um amigo com o qual marcara encontro.

Ora, sendo os estadunidenses tão paranóicos em relação a atentados terroristas, é de estranhar-se que a tenham prendido e algemado?

Mesmo cá na patriamada, infinitamente mais tolerante, em minha atuação jornalística eu sempre evitei recorrer a falsidades para furar tais bloqueios. Nunca os aceitei passivamente, mas utilizava estratagemas como o de buscar atalhos que não passassem por portarias ou empinar o nariz e entrar com ares de poucos amigos, como se fosse uma autoridade com todo direito de estar lá. 

A mesma covardia se constata nos linchamentos morais

Às vezes os porteiros e seguranças se deixavam intimidar e não questionavam a minha presença; quando, contudo, algum o fazia, eu revelava honestamente o meu propósito e acatava o inevitável convite para me retirar.

Forçar a barra implicaria... o risco de ser preso e algemado. Um risco aceitável por uma causa, mas não por uma reportagem rotineira.

Enfim, foi mesmo chato o constrangimento imposto à Trevisan, mas o Barbosa não teve absolutamente nada a ver com isso. E, claro, a suspeição injusta repercutiu muito mais na internet do que o esclarecimento do episódio.

Do Barbosa, sempre me lembrarei em primeiro lugar de ele haver resistido com unhas e dentes aos inquisidores no Caso Battisti, posicionando-se contra a extradição em todas as votações.

Este sim era um episódio que opunha, nitidamente, direita e esquerda --e Barbosa não hesitou em colocar-se ao nosso lado.

No processo do mensalão  nem de longe existe tal nitidez. E é uma covardia o linchamento moral a que submetem o Barbosa, extrapolando todos os limites do razoável e do verossímil, além de levarem ao paroxismo a falta de civilidade. Chegam a reprovar-lhe o fato de manter-se em pé diante de interlocutores, como se fosse postura majestática e não uma forma de atenuar as dores que sente na coluna!

Eu não me omito: tenho a coragem de confrontar todos e quaisquer rolos compressores, sempre que eles estiverem destruindo reputações leviana e utilitariamente, como agora.

Fico com Rosa Luxemburgo e não abro: a verdade é revolucionária!]


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“Governo não pode ficar quieto diante de prisão de Claudia Trevisan”
Todos os detalhes da prisão de Claudia Trevisan em Yale, onde ficou detida durante cinco horas, três e meia numa cela, descrevem uma situação arbitrária, que pede uma reação imediata do governo brasileiro.

Cabe ao Itamaraty pedir explicações, já que os direitos de uma cidadã brasileira foram atingidos. 

Vamos lá: uma jornalista do Estado de S. Paulo, um dos maiores jornais do País, solicita uma entrevista a Joaquim Barbosa, presidente do STF, presente a um seminário na universidade. Barbosa recusa o pedido e Claudia decide comparecer ao local, do mesmo jeito. Normalíssimo. No Brasil, na China, na Bolívia, nos Estados Unidos, jornalistas agem assim mesmo. 

Quando uma autoridade recusa um pedido formal de entrevista, o que sempre tem o direito de fazer, tenta-se uma aproximação direta para se obter um depoimento, o que os jornalistas também podem fazer. É a situação mais comum do mundo. Se não quisesse mesmo falar, Barbosa poderia recusar de novo. Se não quisesse nem responder diretamente, poderia valer-se de um assessor para impedir até uma aproximação ou, em caso extremo, pedir à segurança da universidade que mantivesse Claudia Trevisan à distância. Tudo isso faz parte do jogo universal entre repórteres que querem um depoimento e autoridades que não querem falar. Você já deve ter visto isso várias vezes nos filmes. 

O que não se pode aceitar é a entrada da polícia em ação. Ela não se limitou a impedir que Claudia fizesse a entrevista. Prendeu, algemou, manteve incomunicável por horas. Agiu como se estivesse querendo impedir um crime -- e não uma entrevista.  Com base em quê? Em nome de quem?  

Direitos fundamentais foram atingidos. É brutal e inaceitável. Cabe às autoridades norte-americanas esclarecer o que se fez e por quê. 

Neste terreno, o Brasil deu um exemplo de civilidade. No início de seu governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou indignado diante de uma reportagem do New York Times, fazendo insinuações de que decisões de seu governo estariam sendo prejudicadas por seu costume de ingerir bebidas alcoólicas. A reportagem era muito ruim: não tinha fatos concretos para apontar nem testemunhas que dessem sustentação ao que disse.

Indignado, Lula chegou a tomar uma decisão dramática -- expulsar o correspondente –, mas voltou atrás. Em nenhum momento, contudo, o jornalista, Larry Rother, foi preso, algemado nem mantido incomunicável.

Como se pode imaginar, a reação de muitos brasileiros diante a arbitrariedade que não houve foi muito maior e explosiva do que agora, quando uma correspondente internacional foi detida por cinco horas sem explicações nos EUA. 

O nome disso é complexo de vira-lata?]

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