domingo, 22 de setembro de 2013

O profano e o sagrado nas imensidões brasileiras



Estive (e estou ainda) realizando uma longa pesquisa sobre religião no Distrito Federal e Entorno para dois projetos: um acadêmico e outro documental.

Melhor colocando a questão: é sobre religiosidade, sobre as novas formas de religiosidade, sobre o new age.

Brasília é uma espécie de Meca das novas religiões ou das novas formas de religiosidade.

É a Capital do Terceiro Milênio.

A mística antecede à construção de JK; passa por um caminho sagrado indígena, que liga o Planalto Central a Machu Picchu, e pelas profecias do salesiano João Melchior Bosco, o padre Dom Bosco.

As profecias do padre italiano tiveram impacto direto na decisão de Juscelino em escolher esta região para construir a nova capital brasileira.

Quando presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, ateu, costumava acompanhar a sua esposa, a antropóloga Ruth Cardoso, nas missas no Santuário de Dom Bosco.

Dona Ruth era católica praticamente.

Muita gente entendeu a postura fernandiana como uma demagogia, para estar bem com o povo, majoritariamente religioso.

Tenho minhas dúvidas.

Existe ateu?

Tomada a palavra no seu sentido transcendental – ateu é aquele que não acredita em absolutamente nada que diga respeito ao religioso – tenho a dizer que aos 63 anos, tendo conhecido milhares de pessoas, não conheci mais que 5 ateus (e mesmo sobre estes tenho as minhas dúvidas).

Apenas para ficarmos na Presidência da República, há que se registrar que assim com Lula da Silva, Dilma Rousseff (a perigosa terrorista-comunista) vai à missa; assim como ia Itamar Franco e ainda vai José Sarney.

Um ponto mais ou menos fora da curva é Collor de Mello, chegado numas pajelanças e magias, mas que também ia à missa.

Com isso se quer dizer que todo brasileiro é religioso e católico?

Mais ou menos. Se não dá para tirar uma conclusão tão explícita assim, no entanto, isso é um indicativo de que alguma coisa não está batendo com certas pesquisas e certos discursos que andam por aí.

Fim das religiões?

Indica-se em falas, pesquisas de institutos e escritos de intelectuais que a religião está em declínio, e que mais dia, menos dia, seremos todos ateus ou, quando muito, agnósticos.

Seremos?

O que se vê pelas ruas não indica nada disso.

Costuma-se brincar que em Brasília, por exemplo, não se anda pelas ruas sem, a cada quatro metros, bater com gente que joga cartas e búzios, faz oferendas e promessas; recita mantras e cânticos.

Um estudo feito pela UnB (“Sociologia das Adesões – Novas Religiosidades e a busca místico-esotérica na capital do Brasil”), na parte em que ouve apenas alunos da escola superior, indicou que 93,7% dos jovens estudantes acreditam em alguma coisa e praticam algum tipo de ritual religioso.

E isso independente de suas respectivas áreas de estudo: humanas, exatas, médicas etc.

New age

News Age é um movimento que supostamente surgiu nos anos 60, nos Estados Unidos, paripassu à Contracultura, e se contrapõe às religiões tradicionais ou dogmáticas, como o Cristianismo, por exemplo.

Por influência do budismo e das filosofias taoista e confuncionista, essa gente desprendeu-se das amarras de bíblias e alcorões para procurar um caminho individual, reformador, numa espécie de niilismo religioso.

O termo niilismo religioso é uma contradição em si.

De qualquer forma, foi isso que chegou até nossos dias e a Brasília e Entorno, numa miríade de religiões (ou melhor, de expressões de religiosidade) sem templo, sem profetas, sem livros, sem dogmas, sem padres, sem mullás.

Sagrado e profano

No artigo abaixo (FHC na academia - http://terramagazine.terra.com.br/entremez/blog/2013/09/20/fhc-na-academia/), o escritor, médico e dramaturgo cearense Ronaldo Correia de Brito fala que “o sagrado foi banido da cultura e também do calendário”, mas tudo isso a propósito da posse de FHC na Academia Brasileira de Letras.

Correia de Brito dá algumas escorregadas em seu texto, ao não levar em consideração estudos acadêmicos como o apontado acima.

Também aproveita para alvejar o ex-presidente FHC, um pouco por conta da ideologia, um pouco por conta de um arraigado regionalismo: “não perde oportunidade de desancar a escola pernambucana de Gilberto Freyre, mais próxima desses temas religiosos”.

A rigor m FHC não desanca Freyre por questões religiosas, mas pelo que há de conservador e reacionário na sua análise do social.

Mas, mesmo assim, vale a pena ler o texto de Correia de Brito.

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“FHC na academia”

[Quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras, Fernando Henrique Cardoso exaltou os rituais. Lembrou a formação de sociólogo, de ter sido casado com uma antropóloga, o que o fazia valorizar ainda mais as celebrações dos ritos. Citou um defeito dos brasileiros, atribuírem responsabilidade aos outros, sobretudo ao Estado, nunca assumindo a cota de dever e culpa nos acontecimentos. FHC historiou sua formação, a luta pelas causas sociais, o que fez pelo Brasil (no plural, como todo político: nós fizemos) quando era presidente. Em suma, o discurso que cansamos de ouvir.

O que me tocou na fala do novo imortal de 82 anos foi a referência aos rituais, sua importância na vida dos homens. Num mundo secularizado, onde as festas são apenas datas nos calendários e os ciclos agrários desapareceram, os ritos que marcavam as estações e as idades das pessoas – infância, adolescência, juventude, maturidade, velhice – agora são determinados pelas engrenagens de produção e consumo. Quase ninguém guarda o sentido sagrado do Natal, Carnaval, São João, Corpus Christi, Assunção, Ressurreição, solstícios e equinócios. Nem lembra que essas festas de origem pagã obedeciam às quatro estações do ano, aos plantios e colheitas, aos movimentos dos astros no céu, e que o cristianismo apôs sobre elas as suas celebrações religiosas.

Nenhuma vez Fernando Henrique referiu o sagrado. Ou será que me escapou, não ouvi? Como sociólogo paulista – que não perde oportunidade de desancar a escola pernambucana de Gilberto Freyre, mais próxima desses temas religiosos –, o novo imortal se referia apenas aos ritos sociais dos homens, à sociologia. São os mitólogos como Joseph Campbell, Mircea Eliade, James Frazer ou Heinrich Zimmer que se ocupam dos rituais arcaicos, em que se cultuava o transcendente e o sobrenatural. Até mesmo a religião católica afastou-se do sagrado. Algumas celebrações parecem mais aulas de ginástica, comandadas por um padre professor de educação física, de voz impostada e olhos falsamente virados para cima, que falam de Deus como se vendessem bolsas Louis Vuitton. As igrejas velhas, construídas para os fieis sentirem no seu interior a presença de Deus, exercem “uma impressão de oprimente tristeza, pela atmosfera de museu turva e morta que exala; pela plenitude de seus passados exumados e fatigosamente conservados, de que se nutre um presente mesquinho…”

Não apenas o canto gregoriano foi substituído pela voz melíflua de padres cantores bregas, os próprios rituais se esvaziaram de sua essência: o sagrado. A Igreja tornou-se social, pop, natural, um Shopping Center de Deus Mix.

Nosso calendário religioso se marca pelos cultos modernos, pela Copa do Mundo, Olimpíadas, Copa das Confederações, Campeonato Brasileiro de Futebol, Rock in Rio, Fórmula 1, Domingão do Faustão, Programa do Gugu, UFC e Big Brother.

O sagrado foi banido de nossas vidas, dos rituais católicos, das seitas evangélicas caça-níqueis. Recentemente, fiz questão de assistir algumas missas, de percorrer igrejas superlotadas e impressionei-me com o número de pessoas que comparecem a esses encontros sociais, comandados por padres de discursos incoerentes, sem força de convencimento, como se neles mesmos, os padres, faltasse crença no que afirmam e prometem. Os sermões não tocam em questões transcendentes nem se adéquam às questões modernas. São discursos técnicos, burocráticos, de um hermetismo sem poesia e sem iluminação.

Os pregadores da Palavra também mencionam a importância dos rituais. Porém, como o nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, passam ao largo da transcendência. São falas obscuras em que falta um sopro da alma.]

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